Logo de cara eu deixo claro que eu não sou e nunca fui um beatlemaníaco no sentido literal do termo. Até porque eu nunca fui maníaco por artista algum. Muito menos eu sou um "beatleminion", aquele tipo de fã que não permite crítica alguma aos seus ídolos mais que perfeitos e rebate tudo de negativo que se diz contra eles de forma muitas vezes até mesmo agressiva. Se você é um deles, é um beatleminion de raça pura ou apenas um gato de rua, eu aconselho até que pare de ler o texto por aqui. Você vai se aborrecer. Já se for um beatlemaníaco, pode e deve continuar. Você vai conseguir superar o trauma e talvez até possa vir a concordar comigo.
Também devo dizer que não sou nem de longe um daqueles malucos que afirmam que os Beatles estão definitivamente ultrapassados, são ou foram irrelevantes e coisas do tipo. Quem não gosta de Beatles bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente dos ouvidos mesmo. Portanto, disto isto, vamos ao que realmente importa.
Os Beatles, tais quais bons "three cool cats" que eram, tiveram sete vidas. Digo três e não quatro gatos, um para citar a canção emblemática da fase em que gravaram os tão famigerados quanto ótimos "Decca Tapes" e dois porque, de fato, apenas John, Paul e George tiveram efetivamente as tais sete vidas enquanto Ringo teve apenas seis.

Mas, afinal, que diabos de sete vidas são estas? Explico: A primeira vida foi, óbvio, a fase inicial da carreira, quando acompanharam Tony Sheridan, gravaram na Alemanha e tentaram a sorte com a audição na Decca. Alguns podem dizer que a primeira vida de fato foi com os Quarrymen, mas os Quarrymen, meus queridos (escrevo isto imaginando o Gilvan Moura falando), simplesmente ainda não eram os Beatles. Nem mesmo os tais Silver Beatles. Então a vida inicial dos três gatos mais o gato Best foi mesmo a que durou entre as apresentações no Cavern Club e a demissão do pobre Pete, aquele que foi sem nunca ter sido. Nesta primeira encarnação, temos uma banda ainda amadora, ainda titubeante mas com muita energia e fôlego para gastar e evoluir.
A segunda vida seria o período entre as gravações dos dois primeiros discos. Ali temos uma banda bem orientada por um produtor do gabarito de George Martin, produzindo dois discos redondíssimos que, não por acaso, entraram para a história como dois dos melhores discos de início de carreira de um grupo musical. Temos ali uma banda pronta para estourar mundialmente. E, não por acaso, foi exatamente isto o que aconteceu. A terceira vida dos garotos de Liverpool foi quando efetivamente estouraram e se tornaram um produto de mídia. Foi a época do licenciamento em massa, das declarações nem sempre felizes de Lennon e dos dois filmes que resultaram em dois discos um tanto desconexos que funcionavam mais como um receptório, amontoando as canções que fizeram parte dos seus filmes.
A quarta vida dos fab-four foi uma tentativa de retomada aos álbuns de carreira com os discos "Beatles For Sale" e "Rubber Soul". O título da primeira bolacha desta "vida" sempre me pareceu algo entre o revelador e o irônico. Os Beatles davam um passo atrás para ajustar a máquina ("Beatles For Sale") para em seguida dar vários passos para a frente ("Rubber Soul"). Esta quarta e breve vida rendeu um disco bastante irregular, ainda que com bons momentos como "Every Little Thing", a música que inaugurou os anos 80 com 15 anos de antecedência, e "I'm a loser", mas também rendeu a excelência de "Rubber Soul" que continha o "Ticket To Ride" para a vida seguinte, apesar de não conter a música propriamente dita.
Não percam a conta. A quinta vida dos Beatles é disparadamente a melhor e reúne a sua melhor produção. Inclui os álbuns "Revolver", "Sgt Pepper's" e o que veio a dar no EP "Magical Mistery Tour" e, mais tarde, no lado A da trilha do desenho animado "Yellow Submarine". Ainda que haja uma diferença quase abissal entre a crueza de "Taxman", faixa do "Revolver" e a sofisticação de "Your Mother Should Know", retirada do EP "Magical Mistery Tour", é nítido que há um começo, meio e fim entre "Revolver" e o EP da trilha sonora do especial de TV que revelava quem era a morsa. E a estranheza das faixas que fazem parte da trilha do filme "Yellow Submarine", que pareciam e estavam fora de contexto, lançadas três meses após o Álbum Branco, eram a mais cabal prova disto.
Assim, chegamos à sexta e, na minha opinião, a pior vida de John, Paul, George e Ringo. Escrevo o nome deles separadamente em vez de grafar o nome da banda porque "The Beatles", o disco, mais conhecido como "White Album", é justamente um trabalho quase que feito em separado. Ainda que tenha grandes momentos, é o disco menos "beatle" dos Beatles, e que marca a desagregação pela qual a banda estava passando naquele instante.
A sétima e última vida, claro, é marcada pelo projeto "Get Back", cujo título - e provável capa - evidenciava uma óbvia vontade da banda de retomar a carreira e voltar aos tempos de glória. E que veio a dar no disco "Let It Be", lançado algum tempo depois, e no canto do cisne "Abbey Road", que deixava claro, a despeito da enorme vontade dos quatro de criarem juntos, que não havia mais como permanecerem criando juntos. Os caminhos dos Beatles estavam irrevogavelmente separados.
Se houvesse uma oitava vida, o resultado dela em estúdio talvez soasse tão bizarramente anti-beatle que eu acredito que sim, eles pararam bem na hora certa, fechando o ciclo de sete vidas de uma banda que deixou seu nome definitivamente marcado na música do século XX. Sim, alguns beatleminions irão dizer que a conta não fecha porque os three cool cats que sobraram se reuniram em 1996 para gravações para o projeto Anthology, gerando uma vida adicional que eu não contabilizei. Mas a insignificância e a irrelevância daquelas duas canções para quem não era fã dos Beatles, produzidas a partir de uma demo de Lennon, prova que realmente não havia mais vida alguma a ganhar ou perder após o lançamento de "Abbey Road". Os gatos fabulosos viveram todas as vidas que tiveram para viver juntos.
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