Quando eu ainda perdia meu tempo discutindo política, costumava dizer que "democracia" era a palavra mais prostituída do mundo. Afinal, para a maioria — esteja à direita ou à esquerda —, democracia é puramente aquilo que convém ao próprio umbigo. Sem contar que a palavra costuma figurar no nome oficial de repúblicas que não têm um pingo de liberdade democrática. Mais tarde, quando decidi me afastar do debate político em nome da minha sanidade mental, elegi outra palavra para ocupar esse topo de desgaste: amizade . Não me entendam mal. Gosto muito dos meus amigos e valorizo a convivência, apesar da minha habitual misantropia e de uma desconfiança quase crônica na humanidade. No entanto, ao longo de seis décadas de vida, acumulei know-how suficiente para afirmar sem medo: a palavra "amizade", por si só, não vale absolutamente nada. Eu me tornei um cético do título e um devoto da consideração . Houve um tempo — e já nem sei se o mundo continua nessa insanidade — em q...
O ser humano tem um talento quase inerente para fazer mau uso dos avanços tecnológicos. No caso da inteligência artificial, esse mau uso é evidente. Seja em trabalhos escolares completamente escritos por IA, em deepfakes de políticos e celebridades, na clonagem de vozes de artistas famosos para músicas geradas artificialmente ou na disseminação de informações falsas. Certamente você já se deparou com algum vídeo “revelando” um suposto segredo escondido na Antártida ou qualquer outra teoria mirabolante criada para atrair cliques. Mais preocupante até do que a capacidade humana de fazer mau uso da tecnologia é a capacidade do ser humano acreditar em qualquer coisa que vê ou ouve. Os avanços da inteligência artificial deram às pessoas uma ferramenta capaz de tornar plausíveis até as narrativas mais absurdas. Lembro quando surgiram IAs que permitiam a uma pessoa se inserir em videos retratando acontecimentos do passado como se fosse um repórter da História de smartphone na mão tirando se...