Pular para o conteúdo principal

Postagens

ANTES ELE DO QUE EU.

O ano era 1984 e todos respirávamos aliviados porque o tal estado fascista, profetizado por George Orwell para este ano, não havia se concretizado. Eu cursava o terceiro ano do ensino básico em um colégio com nome de filme de rock e, lá, os professores fingiam que ensinavam, os alunos fingiam que aprendiam e o dono da escola passava longe de fingir cobrar a mensalidade dos que atrasavam. O desastre era iminente. Tudo indicava que todo mundo, ou quase todo mundo, iria levar bomba no vestibular e o colégio seria campeão de reprovação naquele ano. Eis que o diretor, um clone ruivo de Freddie Mercury, resolve vazar as provas de recuperação para evitar o mal maior. Ainda assim, de toda a turma, apenas três passaram no vestibular, e um deles fui eu. Eu pretendia cursar Publicidade e Propaganda e acreditava que aquela era mesmo a minha vocação. Acontece que eram os anos 80, não havia ainda as uniesquinas da vida e a Bahia ainda não tinha este curso. Fiquei indeciso entre Psicologia e Jornalis...
Postagens recentes

A Criatividade Sob Suspeita: O Preço Pago pelos Abusos da Inteligência Artificial.

O ser humano tem um talento quase inerente para fazer mau uso dos avanços tecnológicos. No caso da inteligência artificial, esse mau uso é evidente. Seja em trabalhos escolares completamente escritos por IA, em deepfakes de políticos e celebridades, na clonagem de vozes de artistas famosos para músicas geradas artificialmente ou na disseminação de informações falsas. Certamente você já se deparou com algum vídeo “revelando” um suposto segredo escondido na Antártida ou qualquer outra teoria mirabolante criada para atrair cliques. Mais preocupante até do que a capacidade humana de fazer mau uso da tecnologia é a capacidade do ser humano acreditar em qualquer coisa que vê ou ouve. Os avanços da inteligência artificial deram às pessoas uma ferramenta capaz de tornar plausíveis até as narrativas mais absurdas. Lembro quando surgiram IAs que permitiam a uma pessoa se inserir em videos retratando acontecimentos do passado como se fosse um repórter da História de smartphone na mão tirando se...

O POBRE DE DIREITA E O BURGUÊS DE ESQUERDA - PARTE III (A BATALHA FINAL)

Quando não estou patrulhando o mundo com a minha identidade secreta de Superman, trabalho em uma copiadora como Clark Kent.  Jornalista aposentado, meu trabalho na copiadora é um complemento de renda, mas também uma forma de me manter ocupado. E a minha loja fica ao lado de um bar — e um bar é meio como um grupo de WhatsApp do mundo real, onde bebuns debatem os grandes temas mundiais entre uma cerveja e outra. Falam alto, bradam suas ideias com a convicção de um senador romano. E eis que alguns dias atrás ouvi um acalorado debate de um típico "burguês de esquerda" e um "pobre de direita" sobre a então pauta quente atual: O fim da escala 6x1.  O "plot twist" aqui é óbvio: o burguês de esquerda defendia a escala 5x2, enquanto o pobre de direita elencava razões para ser contra aquilo que, a princípio, o beneficiaria. Por fazer afirmações como "o capitalismo venceu o socialismo ao longo da história", muita gente me rotula de neoliberal, me acusa de f...

A VOLTA DO BURGUÊS DE ESQUERDA E DO POBRE DE DIREITA.

Recentemente, um texto meu publicado neste modesto blog causou certo mal-estar entre  amigos de esquerda. Alguns alegaram que eu estaria validando o chamado “pobre de direita” enquanto deslegitimaria o “burguês de esquerda”. E, em parte, talvez estejam certos. Antes de prosseguir, considero importante esclarecer que o uso da expressão “burguês de esquerda” não tem como objetivo ofender ou desqualificar ninguém. Ela surge, justamente, como contraponto à naturalização do termo “pobre de direita”, frequentemente utilizado de maneira carregada de desprezo, ironia ou paternalismo. A intenção é expor o preconceito embutido nessa lógica, que muitas vezes trata o pobre que não se alinha a determinada visão ideológica como alguém alienado, incapaz de pensar por si mesmo ou até moralmente defeituoso. Não por acaso, um intelectual como Jessé Souza chegou a escrever um livro como A Ralé Brasileira e, posteriormente, O Pobre de Direita , no qual o próprio título já carrega um julgamento ao ro...

(A história da música) Gigante.

Q uando eu me separei da primeira esposa, eu estava exatamente como Zeca B aleiro se descreveu na música Telegrama : " T ristinho", " s ozinho" e "mais solitário que um paulistano".  No primeiro aniversário que passei separado, visivelmente depr imido, uma amiga saiu comigo e me levou a um shopping para comprar o presente que ela queria me dar "para me animar": Um DVD da sua banda preferida, os "Los Hermanos". N ão bastasse eu, simplesmente, detestar a banda de Camelo e Amarante -  à exceção de "Anna Julia", uma baita música , da qual gosto até hoje - , ainda que imbuída das melhores intenções, a minha amiga pretendia me "animar" me dando de presente a trilha perfeita (para mim) para um suicídio. Diga-se o que quiser dos Los Hermanos , mas, não há nada na obra do grupo, nem mesmo "Anna Julia",  que possa ser adjetivado como  "divertido" ou "animado". F uçando os títulos di...

O POBRE DE DIREITA E O BURGUÊS DE ESQUERDA

Volta e meia me deparo com o espanto de gente de esquerda diante da figura do “pobre de direita”. Existe até um livro do respeitadíssimo sociólogo Jessé Souza intitulado justamente O Pobre de Direita , no qual o autor chega a classificar como “bastardos” os pobres que optam por tal posição ideológica. Veja bem: Se um dia eu acreditasse que sou uma pessoa de direita, estaria, mais do que nunca, enganando a mim mesmo. Os valores da direita não são, absolutamente, os meus. Acontece que os da esquerda também não são e eu, como muitos brasileiros, acabo vivendo num limbo em que esquerdistas me chamam de fascista e direitistas me rotulam como esquerdopata. Mas isso é natural. É apenas o preço que se paga por pensar fora de caixinhas ideológicas previamente montadas. Porém,  o assunto deste texto não sou eu. É o pobre. E o pobre de direita — esse “bastardo”, como o chama o professor Jessé Souza. Em primeiro lugar, desmontando uma narrativa comum entre pessoas de esquerda: O pobre, em muit...

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...