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A VOLTA DO BURGUÊS DE ESQUERDA E DO POBRE DE DIREITA.

Recentemente, um texto meu publicado neste modesto blog causou certo mal-estar entre  amigos de esquerda. Alguns alegaram que eu estaria validando o chamado “pobre de direita” enquanto deslegitimaria o “burguês de esquerda”. E, em parte, talvez estejam certos. Antes de prosseguir, considero importante esclarecer que o uso da expressão “burguês de esquerda” não tem como objetivo ofender ou desqualificar ninguém. Ela surge, justamente, como contraponto à naturalização do termo “pobre de direita”, frequentemente utilizado de maneira carregada de desprezo, ironia ou paternalismo. A intenção é expor o preconceito embutido nessa lógica, que muitas vezes trata o pobre que não se alinha a determinada visão ideológica como alguém alienado, incapaz de pensar por si mesmo ou até moralmente defeituoso. Não por acaso, um intelectual como Jessé Souza chegou a escrever um livro como A Ralé Brasileira e, posteriormente, O Pobre de Direita , no qual o próprio título já carrega um julgamento ao ro...
Postagens recentes

(A história da música) Gigante.

Q uando eu me separei da primeira esposa, eu estava exatamente como Zeca B aleiro se descreveu na música Telegrama : " T ristinho", " s ozinho" e "mais solitário que um paulistano".  No primeiro aniversário que passei separado, visivelmente depr imido, uma amiga saiu comigo e me levou a um shopping para comprar o presente que ela queria me dar "para me animar": Um DVD da sua banda preferida, os "Los Hermanos". N ão bastasse eu, simplesmente, detestar a banda de Camelo e Amarante -  à exceção de "Anna Julia", uma baita música , da qual gosto até hoje - , ainda que imbuída das melhores intenções, a minha amiga pretendia me "animar" me dando de presente a trilha perfeita (para mim) para um suicídio. Diga-se o que quiser dos Los Hermanos , mas, não há nada na obra do grupo, nem mesmo "Anna Julia",  que possa ser adjetivado como  "divertido" ou "animado". F uçando os títulos di...

O POBRE DE DIREITA E O BURGUÊS DE ESQUERDA

Volta e meia me deparo com o espanto de gente de esquerda diante da figura do “pobre de direita”. Existe até um livro do respeitadíssimo sociólogo Jessé Souza intitulado justamente O Pobre de Direita , no qual o autor chega a classificar como “bastardos” os pobres que optam por tal posição ideológica. Veja bem: Se um dia eu acreditasse que sou uma pessoa de direita, estaria, mais do que nunca, enganando a mim mesmo. Os valores da direita não são, absolutamente, os meus. Acontece que os da esquerda também não são e eu, como muitos brasileiros, acabo vivendo num limbo em que esquerdistas me chamam de fascista e direitistas me rotulam como esquerdopata. Mas isso é natural. É apenas o preço que se paga por pensar fora de caixinhas ideológicas previamente montadas. Porém,  o assunto deste texto não sou eu. É o pobre. E o pobre de direita — esse “bastardo”, como o chama Jessé Souza. Em primeiro lugar, desmontando uma narrativa comum da esquerda: O pobre, em muitos aspectos culturais, é p...

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...

METEORO NOS DINOSSAUROS

Um dia Deus ganhou consciência. Não se autodenominava Deus, é bem verdade,  este é um nome que os homens lhe dariam bem mais tarde. Mas foi então que Ele percebeu onde estava. Era tudo um imenso vazio. Não sabia se fora criado, nem porque estava ali. Percebia suas formas, seus braços, suas pernas, seu corpo e percebeu também que podia imaginar. Sim, imaginar. E logo se deu conta que tudo o que Ele imaginava tomava forma. Foi então que fez um ser à sua semelhança e quando o criou tudo se iluminou à sua volta. Chamou-o de Lúcifer pois entendeu que deveria chamar aquele ser por um nome. Ainda que criasse outros seres idênticos a Ele, Lúcifer permaneceu sendo o anjo preferido de Deus. Deus também percebeu que poderia criar pontos no vazio e os chamou de estrelas. À sua volta Deus criou planetas e não se cansava de imaginar outros tipos de astros siderais. Ele havia descoberto um sentido para a sua existência. Ao todo chamou de universo. Criou o sol, em sua volta alguns planetas e a um,...

GENTE AZUL (OU "SOMOS TODOS MACACOS")

Sim, somos todos macacos. Mas quando digo que somos assim não me refiro a nenhum tipo de adjetivação pejorativa que alguns humanos lançam sobre outros humanos. Quando digo que somos todos macacos, quero dizer que primatas somos e primatas sempre seremos. E  também somos hominídeos. E entre os hominídeos somos os homo sapiens, os únicos hominídeos que restaram na face da Terra. E eis aqui, precisamente, a nossa única raça, a humana. Isso é biologia, é ciência, não se trata de ideologia. Não existem, biologicamente falando, raças a não ser a humana. O resto, qualquer resto, são meras construções sociais e históricas. Mas se há algum sentido no conceito de raças - e eu não acho que há - dividi-las entre raça negra, branca, amarela, indígena e smurfs me parece ter ainda alguma lógica. Afinal, a cor da pele bem poderia ser um ponto de partida para os que acreditam no conceito de raças, não necessariamente aqueles que acham uma raça superior à outra. Porém, reina aí a enorme contradição:...

O SONHO

  Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não. Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda ...