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Mostrando postagens de janeiro, 2015

PROTEJAM AS BOLAS, AQUI VÃO OS SEX PISTOLS.

N ão tem jeito. A história do rock não se divide em antes e depois do Led Zeppelin , por mais importante que o grupo de Plant e Page tenha sido. Muito menos em antes e depois de The Cure, The Clash , The isso ou The aquilo. O rock nunca mais foi o mesmo depois de 1977. E não adianta argumentar, com toda a razão, que os Sex Pistols eram uma pálida imitação dos Heartbreakers de Johnny Thunders ou dos New York Dolls do mesmo Thunders e de David Johansen . É isso aí mesmo. Os Pistols não devem ser julgados pela competência musical e sim pela revolução que os cinco delinquentes londrinos provocaram no cenário do rock inglês ou de qualquer outra parte do mundo.  M as vamos baixar um pouco a bola dos ingleses. O punk, ao contrário do que muita gente pensa, não começou com os Pistols. A palavra "punk", designando um estilo musical, surgiu quando "Handsome Dick Manitoba", guitarrista da banda nova-iorquina The Dictators , declarou que aquele som tosco que seu gru...

O MUNDO É EM PRETO E BRANCO.

O ser humano conheceu  o planeta em que vive  enxergando apenas duas cores e, diga-se de passagem, duas cores nada atrativas: o azul fosco e o vermelho desbotado. Tudo que podíamos ver eram apenas estas duas tonalidades, sem sequer haver muita variação entre elas. Foi a mudança de hábitos alimentares, ainda lá na pré-história, quando deixamos de ser apenas caçadores para sermos também agricultores, que determinou a mudança em nossa percepção. Passamos, então,  a enxergar três cores primárias: o azul, verde e amarelo, e também a perceber diferenças e variações entre elas. N ão sei se você já se deu conta disto e se isto irá soar como uma má notícia para você, mas as cores, rigorosamente, não existem. O mundo é, na realidade, em preto, um pouquinho de branco e muitos tons de cinza. O que você percebe como sendo as cores nada mais são que as ondas de luz branca provenientes do sol refletindo-se na superfície da Terra. O que determina como você perceberá as cores são os ...

SAI DO CHÃO.

O rock se acha muito importante. Aliás, eu também acho o rock muito importante. Tanto que começo um texto sobre os  30 anos da axé-music , fenômeno pop-musical dos anos 80 na Bahia, falando de seu principal opositor, o rock. Aliás o rock se opõe a tudo que julga inferior a ele mesmo e bajula tudo que lhe é sabidamente superior. Assim, lá fora, o rock paquerou  o jazz, a música erudita  e até mesmo o country e tratou o hip-hop e o rap como  sonoridades quase  irrelevantes.  Aqui no Brasil o rock cortejou a MPB e controverteu toda a música que conseguiu mais espaço que esse estilo na mídia. N a Bahia, o rock sempre se manteve como um feudo de gente fina, elegante e insincera, que sempre tratou a produção musical do estado - que não fosse rock -  com desdém e desprezo. E foi assim, em um ambiente de “guerra cultural”, que surgiu a axé-music ,  em 1985. O que existia antes - e justamente era o motivo de repulsa pelas hordas roqueiras baianas -...

OS MENINOS QUE VENDIAM DOCES.

H oje eu me dei conta que aqueles meninos que  saiam pelas ruas da cidade vendendo doces andam sumidos.  Sempre apareciam em meu trabalho desfilando simpatia, me chamando de tio e pedindo para ajudá-los comprando suas balas e chicletes.  E eu comprava sempre que podia, mesmo que nem precisasse ou quisesse.  Nunca gostei de dar esmolas, sempre preferi comprar algo de quem vendia alguma coisa, sempre coerente com meu espírito liberal.  Assim, já me enchi de mini-calculadoras chinesas, chicletes, doces, cofrinhos toscos feitos a mão, flanelas, pastas de limpeza que não limpavam direito, tudo em nome da livre iniciativa jovem e popular. E, hoje em dia, os  meninos,  simplesmente, sumiram. P ercebido o sumiço, resta imaginar onde os meninos podem estar:  Nas escolas, por força das exigências do Bolsa-Família, que condiciona o recebimento do benefício à matrícula dos filhos na rede escolar? Ou foram recrutados pelo  tráfico, que cresce nas gr...

EU E O DOIDO.

P erto de onde eu moro vive um doido. “Doido” é como chamamos genericamente, aqui na minha cidade, os moradores de rua. Aqueles que, de tanto que os vemos, se tornam parte inevitável da paisagem, como uma árvore ou um poste de eletricidade. A comparação com seres inanimados é proposital. De fato, preferimos fazer de conta que não os enxergamos, como se fossem seres tão distantes de nós, de outra espécie ou gênero. O doido que mora perto de minha casa, “mora” na frente de um bar abandonado, em uma esquina.  A paisagem é devastadora:  Lixo, restos de trapos de roupas que o doido veste, restos de alimentos que as pessoas dão ao doido, e o próprio doido.  Uma certa vez,  uma amiga que trabalhou com moradores de rua me relevou o universo dos que abandonam tudo para sair pelo mundo: Se desfazem de tudo que têm, rasgam os documentos, se tornam invisíveis aos olhos da família, da sociedade e somem. Não querem ser achados, querem ser  absolutamente esquecidos. O bse...

O BEATLE TIM NO REINO DA JOVEM GUARDA - PARTE II.

E u, ao mesmo tempo, odeio e amo Lulu Santos . Antes que alguém questione uma suposta bipolaridade minha, eu explico: Gosto da música feita pelo artista, mas tenho uma profunda antipatia pela pessoa  de Luís Maurício dos Santos , o homem por trás do músico. Muitos artistas são antipáticos mas talentosos artistas. Assim como alguns artistas acabam favorecidos por terem simpatia demais e talento de menos. Assim é a vida como ela é, diria Nélson Rodrigues.  Da mesma forma, amo muito e odeio um pouquinho o cidadão Sebastião Rodrigues Maia , conhecido no meio artístico pelo epíteto de Tim Maia . T im esteve no olho do furacão nos últimos dias, nos jornais e na internet, por conta da polêmica exibição de uma minissérie baseada no filme sobre a sua vida, recentemente exibida  pela TV Globo.  Aqui mesmo neste blog, já escrevi sobre o assunto. Volto a escrever por conta da lembrança feita por alguns blogueiros e jornalistas, do episódio envolvendo os cantores Ritchie e ...

O BEATLE TIM NO REINO DA JOVEM GUARDA.

A ntes de serem descobertos  pelo empresário Brian Epstein e contratados pela tradicional gravadora Parlophone , os Beatles não passavam de uma sofrível banda de guitarras.  Uma audição atenta e imparcial dos hoje famosos Decca Tapes , gravação pirata encontrada em qualquer programa de troca de arquivos de áudio, e somos obrigados a concordar com John Lennon: A única coisa que se salva daquela gravação é a entusiasmada interpretação de George Harrison para o standard “Sheik Of Araby”.  C erto que eram curiosas e criativas as “versões rock and roll” de coisas escritas décadas antes, mas aí é que estava o problema: O esquema “recriação de canção antiga no novo ritmo jovem” já havia mesmo se esgotado no Reino Unido. Nem a insólita versão de Besame Mucho , cantada por Paul, salvou a pátria. Os Beatles foram solenemente recusados pela Decca Records com a justificativa mais correta do mundo em 1962: A de que bandas como a deles estavam mesmo saindo de moda. O s Beatles que...

COMPOSITORES SÃO FALSOS, SUAS MÚSICAS JAMAIS.

H á quem componha versos e nunca consiga pensar - e, naturalmente, compor - em primeira pessoa, sem ter necessariamente vivido aquela experiência. Há quem se especialize em traduzir, em letras ou poemas, a vida e o cotidiano alheio. Admito que é um exercício interessante somatizar as angústias, as alegrias, as frustrações de alguém, e transformá-las em uma canção. Tal canção não seria falsa, pois ela expressaria sentimentos possíveis, mas, sem dúvida, o seu autor seria um charlatão. Ou, no mínimo, um ator. Ou até mesmo um escritor, alguém que consegue colocar pensamentos díspares do seu na boca de seus personagens. H á até quem componha e seja, ele mesmo, um personagem. Há compositores que criaram para si um alter-ego e se sentem presos e subjugados a esta entidade que eles mesmos criaram. Bob Marley teve que pedir licença e desculpas a si mesmo para escrever uma canção de amor - que vem a ser "Is this love?", regravada e versionada quase literalmente no Brasil pelo casal...