E u era realmente fissurado naquela japonesa. Japonesa brasileira, na verdade. Uma linda nissei, filha mais velha de imigrantes que vieram para o Brasil após o fim da segunda guerra mundial. Magrinha, pinta no canto da boca, cabelo espetado e pose de roqueira. Era metida a radialista e apresentava um programa meio mambembe em uma rádio local. U sava óculos de grau moderado que a deixava ainda mais charmosa e, enfim, aquela "japa", definitivamente, era quem eu gostaria que fosse a minha Yoko Ono, ainda que ela estivesse mais para May Pang, a belíssima amante nipônica que Lennon arranjou no seu famoso "lost weekend", um breve período de férias conjugais pelo qual o músico passou nos anos 70. E la era irmã de um dos meus colegas da escola e, pelo menos, uns cinco anos mais velha que eu. Eu ainda brigava com os meus quatorze anos e ela já exalava a jovialidade adulta de quem aguardava ansiosamente adentrar os vinte. A voz...A voz era um quesito à parte. Afi...
Renato Jorge Araujo