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Mostrando postagens com o rótulo Comportamento

O espírito doutrinador.

E u estou aqui para contar a vocês, que ainda estão vivos, como é "o outro lado". Revelar para todas as pessoas o que acontece após a morte. E o que tenho a dizer, certamente não agradará a todos, mas  trata-se da mais pura e cristalina verdade. Não quero enganar ninguém, nem pretendo me arvorar a mestre de coisa alguma. A o contrário do que muitos imaginam, assim que morremos, não nos transportamos para nenhum lugar, seja este lugar o purgatório, o céu e o inferno. Muito menos deixamos de existir, como querem alguns descrentes. Até porque, se assim fosse, eu não estaria aqui para contar-lhes nada. Q uando morremos, literalmente "travamos" no último acontecimento que antecedeu à nossa morte. Comigo, por exemplo, a passagem - passagem não é a melhor palavra para designar o que me aconteceu - ocorreu após reagir a um assalto. Era noite, início de madrugada e eu tivera que parar em uma avenida erma para trocar um pneu furado. Um homem se aproximou me pergunt...

As minhas duas sandálias

O utro dia, em um sábado ensolarado, saí com minha esposa para comprar sandálias. Sandálias de dedo, as "populares havaianas", ainda que pudessem ser de qualquer outra marca desde que fossem confortáveis e de boa qualidade.  O meu par havia furado de tão usado que foi e as da minha mulher e filhas foram destruídas pelas duas pestinhas que criamos, duas cadelas roedeiras que não perdoam nada que lhe seja colocado ao alcance e que tenha o cheiro de qualquer um de nós. C ada uma, minha mulher e minha filha, escolheu uma sandália e, além da sandália em si, ainda escolheram alguns apetrechos, similares a broches. Teriam a função de enfeitar os calçados e que eram mais caros que os objetos a que deveriam ornamentar. Mas, discutir, quem há que? Com o dinheiro que cada uma delas gastou em apenas uma sandália, aliás até menos, eu comprei dois pares. E minha mulher quis saber porque diabos eu queria ter dois pares de sandália. Respondi-lhe, um tanto enigmaticamente, que, se  mu...

Os cemitérios de Moscou.

O utro dia, folheando um velho e empoeirado passaporte, já pensando em renovar para fazer alguma viagem internacional para comemorar o aniversário que se aproxima, encontrei um carimbo em alfabeto cirílico, datado do longínquo ano de 1989. Confesso que nem me lembrava mais daquela que foi, de fato e de direito, a minha primeira viagem internacional, ainda que não tenha sido feita a turismo e sim, a trabalho. N aquele ano, a antiga União Soviética passava por enormes transformações políticas, sob a mão de Mikhail Gorbatchev . Os olhos do mundo se voltavam, com assombro, para a derrocada, cada vez mais iminente, do regime comunista. Eu trabalhava como assessor de comunicação de um político baiano ligado ao PC do B, hoje em um partido de ideologia completamente oposta, e, tendo ele sido convidado pelo governo russo para conhecer o país, aceitou e ainda levou uma pequena comitiva. Entre eles, estaria um dos seus assessores, que nem seria eu, na verdade. Mas, um pequeno acidente do...

Morena Penha.

E u era realmente fissurado naquela japonesa.  Japonesa brasileira, na verdade. Uma linda nissei, filha mais velha de imigrantes que vieram para o Brasil após o fim da segunda guerra mundial. Magrinha, pinta no canto da boca, cabelo espetado e pose de roqueira. Era metida a radialista e apresentava um programa meio mambembe em uma rádio local.  U sava óculos de grau moderado que a deixava ainda mais charmosa e, enfim, aquela "japa", definitivamente, era quem eu gostaria que fosse a minha Yoko Ono, ainda que ela estivesse mais para May Pang, a belíssima amante nipônica que Lennon arranjou no seu famoso "lost weekend", um breve período de férias conjugais pelo qual o músico passou nos anos 70.   E la era irmã de um dos meus colegas da escola e, pelo menos, uns cinco anos mais velha que eu. Eu ainda brigava com os meus quatorze anos e ela já exalava a jovialidade adulta de quem aguardava ansiosamente adentrar os vinte. A voz...A voz era um quesito à parte. Afi...

KEITH EMERSON: UM HERÓI IMPROVÁVEL.

O ntem,  voltei do trabalho ouvindo Emerson, Lake & Palmer no som do carro e me senti, repentinamente, triste. Na verdade, nem foi tão repentinamente assim. Passei o dia meio angustiado, reflexivo sobre as cinco décadas quase completas de idade que já se avistavam ao longe no horizonte. Mas foi quando tocaram os primeiros acordes de Take a Peeble , segunda faixa do maravilhoso primeiro disco do trio, ainda de 1970, que eu senti, de fato, a tristeza tomar conta de mim. Ainda não sabia que o líder da banda havia acabado de falecer. A lguns de meus maiores heróis - heróis de um homem sem heróis - se foram do planeta Terra em torno dos 50 anos de idade. Robert Palmer, Dee Dee, Joey e Johnny Ramone, além de Joe Strummer . E a chegada das tais cinco décadas de vida começa a me meter algum medo. Medo, nem tanto de morrer, mas de ir embora sem poder dizer que tenha sido plenamente feliz e realizado. Felicidade é uma experiência um tanto recente em minha vida e eu gostaria de...

O bilhete de suicídio.

Este talvez seja o meu texto mais incomprendido. Sempre o mantive como o escrevi mas resolvi republicar adicionando este parágrafo. Foi um texto vomitado, com raiva, que escrevi após perder o segundo amigo, um para as cordas penduradas no teto e outro para o veneno de rato. E ambos vieram me anunciar, alguns dias antes, o seu triste intento.  Aconselhei, até mesmo os xinguei, mas nada pude fazer para impedir o ato de desespero, inclusive, por ignorância, podendo até tendo os incentivado. Cansado, extenuado de ser pararraio da frustração  alheia sendo eu mesmo um frustrado e ainda ganhar uma culpa para a vida que não  é minha, escrevi o texto a seguir:  B ilhetes de suicídio deveriam ser vendidos em livrarias como se vendem modelos de contrato de aluguel. Em sua grande maioria são tão previsíveis que poderiam até ser pré-escritos, apenas mudando informações básicas  sobre quem, como, quando e porque estaria se suicidando. M e perdoem o sarcasmo, a frieza, a f...

POR HOJE NÃO.

N o dia internacional da mulher, elas jamais deveriam ser parabenizadas. A melhor e mais sincera  homenagem que se poderia fazer a uma mulher, naquele que dizem ser o seu dia, é tratá-la sem nenhuma distinção especial, como faríamos com qualquer pessoa do sexo masculino. A partir de amanhã, sim, as encheríamos de beijos e lhes daríamos flores e bombons, mas por hoje não. Hoje elas seriam tratadas como o ser humano que efetivamente são. A instituição de dias comemorativos para este ou aquele grupo social foi a melhor forma que o sistema encontrou para anulá-los. Finge-se, ao menos por 24 horas, que os aceitamos como "um de nós", sem preconceitos nem discriminação, para, nos outros 364 dias, obtermos uma espécie de licença para continuarmos com a mesma acepção e indiferença com que os tratamos ao longo da história. C om a mulher não é diferente. A mulher está aí, na vida e no mercado de trabalho, lutando pelos mesmos direitos que os homens, conquistando pequenas bat...

As minhas ruas.

E u adoraria morar em Bucareste, falar romeno, beijar as belas romenas e andar pelas ruas largas e extensas dos setores populares da periferia daquela cidade com a camisa toda su ja de batom . Não seria nada difícil me sentir em casa por lá. Da mesma forma, não seria nada mal viver no Porto, ou até mesmo em Braga, ou ainda em uma freguesia simpática como Carvalhal e me considerar, para sempre, um cidadão lusitano. Poderia também morar em Glendale, por exemplo, a aprazível cidade californiana entupida de imigrantes. S em sair do Brasil, eu poderia me instalar confortavelmente em São Paulo, São Vicente, São Leopoldo ou qualquer outra cidade de santo ou s anta que aparecesse e logo estaria completamente adaptado àquele local. Quem não gostaria de viver entre as ladeiras de Olinda e respirar a cultura que só aquela cidade pode oferecer? Enfim, sei que me sentiria facilmente em casa em qualquer destes lugares onde já morei, passei algum tempo, visitei ou apenas gostaria de morar. ...

O pregador e a autoridade.

R ecentemente, começou a circular um vídeo na internet onde um pregador evangélico é proibido de continuar pregando, aos gritos, em uma estação rodoferroviária do metrô de Salvador. Transtornado e visivelmente alterado, o religioso insistia que todos ali deveriam ser evangelizados, ainda que forçadamente e que só deixaria aquele local preso. Foto: Aratu Notícias N ada mais contrário à própria doutrina da religião que ele afirma seguir. Ainda que, em Marcos 16:16 haja o mandamento de "ir e pregar o evangelho ao mundo todo", em Mateus 10:10 há a ressalva de que "se alguém não vos receber, nem der ouvidos às vossas palavras, assim que sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a poeira dos vossos pés." . Ainda, em Romanos 13:1-2 , a afirmação é clara : " Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus". Q uando disse que, dali, só sairia preso, o religioso desobedeceu claramente o que lhe...

A melhor pizzaria nem sempre faz a melhor pizza.

S ábado passado, saímos para comemorar o aniversário de minha filha, completados no dia anterior. O fizemos de maneira modesta, como convém à população de um país em profunda crise. De qualquer forma, resolvemos que iríamos comemorar na melhor - e, consequentemente, mais cara - pizzaria da cidade. Ao chegarmos no local, que se encontrava lotado apesar das adversidades econômicas, fomos recebidos por uma espécie de "maitre", colocado à frente de uma enorme porta de madeira ao lado de um tapete estendido na calçada. M e surpreendi com o tamanho gigantesco do lugar, dividido em duas alas, ambas climatizadas e muito, mas muito luxuosas. Minha esposa costuma frequentar o lugar nas comemorações de fim de ano da empresa em que trabalha e já havia me falado que ali se servia "a melhor pizza da cidade".  S omos clientes fiéis de uma humilde cantina a poucos metros de nossa casa. Lá, não há luxos, mas a pizza sai rápido e está sempre saborosa e quente. O atendimento t...

Acabou o carnaval.

F eliz ano novo a todos! Agora sim, quando passa o carnaval, finalmente, podemos nos felicitar pra valer e o ano, afinal, começará de verdade. Sim, porque, no Brasil, o calendário anual tem apenas 10 meses e termina pouco antes do natal só recomeçando quando o carnaval acaba. Minto. Só reinicia mesmo na primeira segunda-feira após o fim da festa da carne. D urante os cerca de 50 dias que separam as vésperas do natal da primeira segunda-feira após a quarta de cinzas, vivemos em uma espécie de limbo. Aliás, um falso limbo, onde o país literalmente para para descansar. É o maior feriadão da história da humanidade e não me recordo, ou não tenho conhecimento, de que algo parecido aconteça em outro país senão o nosso. O preço deste descanso exagerado pagamos com subdesenvolvimento, com péssimo gerenciamento de nossos impostos, com o nosso país não sendo levado a sério por ninguém no resto do mundo. Mas, o que importa? Importa mesmo é que relaxamos durante 50 dias seguidos. E,...

Os caprichosos da folia.

E ste ano a escola de samba carioca Caprichosos de Pilares teve como tema de seu enredo, "todos os grin gos do samba", representado s pel o jogador de futebol sérvio Petkovic. A escolha do tema é reveladora: Se antes exportávamos jogadores para o mundo, hoje mais os acolhemos.  Pet , como é carinhosamente chamado pelos seus admiradores, também fez uma declaração curiosa a respeito da homenagem que recebeu. Se disse encantado com a escolha de seu nome e afirmou estar perfeitamente adaptado ao país, porque, assim como os sérvios, "o brasileiro também não gosta de trabalhar". A afirmação do jogador também é reveladora. O desfile da Caprichosos de Pilares foi considerado pelos especialis tas um completo desastre. Sem dinheiro, a escola entregou fantasias incompletas, carros alegóricos inacabados, deu calote nos funcionários encarregados de puxar os veículos e ultrapassou em 4 minutos o prazo máximo para passar pela Marques de Sapucaí. A escola de samba, a...

O AUTISTA ACIDENTAL.

C om o passar do tempo ele havia se tornado uma espécie de autista acidental. Nascera com o corpo repleto de chagas e uma vida que poderia ser sido contada em horas. Alguns diziam que ter sobrevivido ao desengano da morte nos primeiros dias de vida fora um milagre. Mas ele nunca concordou com o que diziam. Era um ateu que tinha fé e nunca acreditou que Deus o trataria como um coelho que tiraria da cartola, fazendo-o nascer doente apenas para ser milagrosamente curado depois.   C resceu como pôde e se tornou um adulto confuso. Antissocial convicto, fez parte de uma banda de rock apenas para provar a si mesmo que poderia ser famoso se quisesse. Logo se desinteressou por música e foi se aventurar pelo mundo das drogas. O autista acidental usou todas as drogas que chegou às suas mãos e não se viciou em nenhuma. Drogas tinham o efeito contrário em sua mente, já naturalmente alterada. Muitas vezes, em vez de elevá-lo, as drogas o traziam de volta à realidade. Definitiv...

ARTISTA DE ROCK OU ROQUEIRO?

E u não quero mais ser chamado de artista, me chamem de roqueiro de agora em diante. Um dia, há 25 anos, eu disse em alto e bom som que não queria mais ser chamado de roqueiro. Engraçado que, ao abdicar do título, ainda em meados da década de 80, buscava exatamente o mesmo que busco hoje: um resgate de absolutamente nada. Brincava afirmando ser “roquista” ou "artista de rock" e não “roqueiro”, em alusão à mesma conotação que dão a “motociclista” e “motoqueiro”, porque queria que as pessoas me vissem como aquilo que eu pensava que era: Um homem sério de então quase um quarto de século de vida, apto a se tornar um respeitado pai de família e um marido exemplar. Daquele momento em diante, por favor, que me chamassem de “artista de rock”. A final, que diferença fazia me chamarem de “artista de rock” ou roqueiro? Não era tudo a mesma coisa? Mais ou menos. Por muitos anos eu brinquei de ser artista de rock, compondo musiquinhas de rock de três acordes para impression...

DISCOS DE VINIL E ESCOVAS DE DENTES USADAS.

U ma escova de dentes é um objeto verdadeiramente pessoal e intransferível. Certos itens de uma coleção de discos também. Da mesma forma que não há ninguém maluco o suficiente para compartilhar uma escova (ou há?), quem coleciona discos sempre terá algumas ‘escovas usadas” entre seus títulos. O colecionador passa anos garimpando item a item, comemorando cada título raro adquirido, sonhando que seus filhos herdarão e cuidarão da sua pequena ou grande coletânea, mas, no fim, sua coleção não passa de um amontoado de escovas de dentes usadas. C laro que não estou falando das coleções de discos que ultrapassam o senso estético e descambam para a comercialidade pura e simples. Há coleções e coleções. Não falo aqui dos ajuntamentos em que os colecionadores adquirem itens raros, discos fora-de-catalogo ou edições limitadas. Me refiro aos colecionadores verdadeiramente apaixonados, que amontoam nas prateleiras apenas o que gostam. Estes sim, colecionam algumas escovas de de...

SOBRE SHOWS DE ABERTURA E BANDAS PRINCIPAIS.

N ão tenho mesmo muita paciência para shows ao vivo. Na época em que eu tocava e me apresentava com bandas só não faltava aos meus próprios shows por pura impossibilidade técnica. Um primeiro grande problema, enquanto telespectador, é o desconforto. Passar mais de quarenta minutos em pé olhando para cima – ou para nucas, quando o palco é a nível do chão - não é exatamente o meu ideal de diversão. Há ainda a interação não consentida com os outros espectadores, porque, além de estar em pé, você vai estar em contato direto com gente bêbada, inconveniente, chata e, algumas vezes, violenta. P ela mesma razão, detesto ir ao cinema. Ver um filme é uma experiência para ser compartilhada, no máximo, com a família ou amigos muito queridos. Não em um local onde haverá pessoas falando, rindo, celulares ligados, pessoas falando em celulares ligados, conversas paralelas, mastigares de comida e tudo aquilo de que os fãs das salas de cinema costumam reclamar. M as o que falta mesmo...