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Mostrando postagens de abril, 2015

QUASE SEM QUERER.

E m 1986 quase todos os jovens e adolescentes brasileiros queriam ser como Renato Russo.  Naquele momento,  em que o artista lançava seu segundo disco com a sua banda Legião Urbana, batizado com o título um tanto óbvio de “Dois”, o mundo parecia mesmo ser dos quatro rapazes de Brasília. E u tinha 19 anos e também queria ser como Renato.  Aliás, eu também me chamava Renato, era feio, desengonçado, impopular com as meninas e também escrevia lá meus versos.  Até tinha a minha própria banda,  a Uniforme.  Russo ainda não tinha assumido a sua homossexualidade e canções como “Ainda é cedo”, sobre a menina que lhe ensinou quase tudo que ele sabia, ajudou a fixar seu ideário romântico em minha cabeça saindo da adolescência de encontro ao mundo adulto. T ambém não sei  se,  naqueles tempos,  ter sabido da homossexualidade de  Renato teria mesmo feito alguma diferença para quem o admirava.  Um tempo depois, quando ele lançou a ma...

O CHARME FATAL DE LANCE LOUD.

A história do rock, infelizmente, nem sempre é contada pelos mais talentosos e sim pelos que tocaram com a bunda virada para lua. Só isto explica o fato de alguém como o artista norte-americano Lance Loud ser um perfeito desconhecido no resto do mundo e uma figura pouco lembrada em seu próprio país. V eja bem, eu não estou falando de um Simon Le Bon da vida, e olha que eu sou fã de carteirinha e de primeiríssima hora do Duran Duran. Falo de alguém tão ou mais talentoso e icônico que Iggy Pop (ele mesmo outro injustiçado) nos anais roqueiros.  Lance Loud não era apenas um músico único,  frontman espetacular, dono de uma voz agradavelmente rock’n’roller, também era ator e jornalista. Al iás, Loud participou do primeiro “reality-show” da história, “An  American Family” , que retratava a rotina diária de sua própria família, em pleno 1973, e que contou com mais de 10 milhões de telespectadores em todo os EUA.  Foi durante a série que Lance assumiu sua homossexua...

QUEM VAI FICAR COM JONATHAN RICHMAN?

O rock tem segredos muito bem guardados e um deles chama-se   Jonathan Richman . Adorado por nove entre dez roqueiros influentes das décadas de 80 e 90, é solenemente ignorado pelos fãs destes mesmos roqueiros influentes.  Muita gente boa que idolatra bandas como   Wilco ,  Belle & Sebastian   e   Those Young Adults , poderia olhar um pouco para trás e descobrir de onde vem tanto lirismo: do violão de nylon do músico americano. N ascido em Boston, em 1951, Jonathan aprendeu a tocar violão aos 15 anos. Sua incomum musicalidade ele atribui às canções que sua mãe costumava cantar ao pô-lo para dormir, aos três anos de idade. Em 1969, mudou-se para a vizinha Nova Iorque se hospedando na casa do manager do   Velvet Underground   e se tornando amigo de Lou Reed (que, certa vez, declarou que se sentia frustrado por não escrever como Richman), esperando por uma chance no show-bizz. A inda em 69, antes de retornar a Boston, formou o grupo   Mod...

BOTA PRA FUDER PARTE IV - SÓ O FIM.

U ma  formação do Camisa de Vênus sem Marcelo Nova pode mesmo soar um tanto esquisita,  mas não é, de forma alguma, incomum no mundo da música.  Já tivemos um Capital Inicial sem Dinho Ouro Preto, um  Creedence Clearwater Revival  sem John Forgety e até mesmo uma LP & Os Compactos sem José Mário Pitombo.  Vocalistas saem, a banda continua e isto não é novidade  nenhuma no mundo do rock.  Então, de fato, o Camisa de Vênus tendo Eduardo Scott como front-man  é perfeitamente legítimo,  até porque, no início do projeto,  havia 3/5 da formação original no novo line-up. S im, era mesmo uma versão inferior e um tanto decadente do Camisa de Vênus original, mas , de fato, todas as formações de um grupo que sucedem à  original costumam ser inferiores e decadentes.  E  o Camisa, diga-se de passagem, teve várias formações assim. O novo Camisa havia se tornado uma banda de bar? Mas, e daí?  O último show que ass...

BOTA PRA FUDER PARTE III - PASSAMOS POR ISSO.

E u ainda iria em muitos outros shows do Camisa de Vênus mas fui me dando conta da crescente antipatia e soberba do bandleader Marcelo Nova.  Com o ego inflado pelo sucesso  inegável , Marcelo esqueceu que a fórmula da enorme aceitação do Camisa na Bahia  era fazer com que o fã se sentisse parte do espetáculo. Nova  passou a confundir  irreverência com arrogância e  a destratar os seus admiradores, seja em cima do palco seja no contato pessoal.  Nos shows, passou a tratar a plateia como um bando de idiotas a quem dominava. Os mais descerebrados o idolatravam por isto, porém, as cabeças mais pensantes logo notaram que não valia mais  a pena pagar para ir a um show para sofrer bullying.                 Q uando o truque deixou de funcionar na Bahia, o Camisa de Vênus se preparou para alargar os horizontes e rumou, primeiro para o Rio de Janeiro, depois para São Paulo, indo parar no Rio Grande do Sul....

BOTA PRA FUDER PARTE II - METÁSTASE.

C om o cair da noite, começaram a chegar as figuras mais esquisitas que eu jamais tinha visto em meus quinze anos de menino do  interior da Bahia.  Seres punks, headbangers,  góticos, todos vestidos de preto,  maquiados, ou mesmo  cabeludos  com pulseiras de espinhos.  Nós, que éramos tratados com excêntricos na escola e na vizinhança, parecíamos as pessoas mais absolutamente normais do mundo, perante aquela fauna e flora.                F lora sim, porque, neste show,  tivemos contato com as meninas do rock.  Até então, acreditávamos piamente que mulheres roqueiras eram apenas uma invenção da indústria fonográfica para nos obrigar a continuar comprando discos de cabeludos fedorentos. As mulheres que estavam naquele show eram lindas, perfeitas, sedutoras e, claro, nem se davam conta que eu existia.                     N a prática foi ...

BOTA PRA FUDER PARTE I - CONTROLE TOTAL

O ano era 1982, eu tinha 15 anos, estudava no segundo grau, hoje ensino médio, e ao chegar na escola, em uma segunda-feira pela manhã, encontrei dois amigos rockers cantarolando alguma coisa que falava em fitinhas do Bonfim, acarajé e abará.   Estranhei aqueles versos vindos   da boca de quem, como eu, naqueles tempos radicais, abominava qualquer coisa que remetesse à música baiana.     Outra canção era sobre um tal de “primo Zé”.   Confesso que,   ouvidas das bocas destes meus amigos, as duas canções soaram horríveis, o que me fez tomar uma antipatia antecipada e imediata por aquilo que escutei. N ão costumava perder o programa de Marcelo Nova na  Aratu FM toda sexta-feira à noite. Ouvia colado no radinho aos trancos, barrancos, chiados e saídas eventuais do ar. Já meus dois colegas, os tais  solfejadores, eram vizinhos e moravam em uma área privilegiada, onde podia-se pegar as emissoras de rádio de Salvador com melhor qualidade.  Eu mo...

PEQUENA DISCOGRAFIA DE UM ARTISTA GENIAL.

M eu encontro com a música do maestro pop Burt Bacharach foi puramente acidental. Conhecia a sublime gravação de "Baby It's You", presente já no primeiro lp dos Beatles mas, por outro lado, não gostava muito de "Raindrops Keep fallin' On My Head", interpretada por B. J. Thomas. Assim, até adquirir um LP do artista em uma liquidação da Gioventu, uma loja de discos tradicional de Salvador que estava encerrando as atividades, eu desconhecia completamente a existência (e a essência) da música de Bacharach. D esconhecer, mesmo, é claro, não desconhecia. Desde sempre uma infinidade de músicas do maestro tocava abundantemente nas rádios, interpretadas por artistas como Dionne Warwick e The Carpenters. Quem, na faixa dos 45 aos 55 anos, nunca ouviu as consagradas gravações da dupla de irmãos para "Close To You" e/ou "I Never Fall In Love Again" com Warwick? Mas saber do quê e de quem se tratava, foi mesmo a partir deste disco. Que nem era um...

DYLAN PELOS SEUS MELHORES INTÉRPRETES.

THE BYRDS PLAY DYLAN – The Byrds (1979) - C omecei a comprar discos no final da década de 70. Como todo adolescente de classe média, ainda mais no meu caso, que era de classe média baixa, vivia sem dinheiro e o pouco que caia em minha mão torrava todo em LPs e compactos. Como a grana era pouca, remexia sempre as sessões de promoções das lojas de discos atrás de velhas novidades. Comprava basicamente álbuns de disco-music, geralmente coletâneas, abundantes após a decadência do estilo. A edição de 1979 M e interessar por rock mesmo, me interessei exatamente no início dos anos 80, quando uma enorme rede de lojas de discos da minha cidade começou a fazer água. Havia, em Feira de Santana, literalmente, uma loja da Tom Discos em cada esquina. O poderio da rede de lojas era tão grande que as lojas de Salvador não se atreviam a colocar os pés na cidade evitando abrir filiais por aqui. N ão sei exatamente o que aconteceu com a Tom Discos, mas sua falência pode estar relaci...

O AUTISTA ACIDENTAL.

C om o passar do tempo ele havia se tornado uma espécie de autista acidental. Nascera com o corpo repleto de chagas e uma vida que poderia ser sido contada em horas. Alguns diziam que ter sobrevivido ao desengano da morte nos primeiros dias de vida fora um milagre. Mas ele nunca concordou com o que diziam. Era um ateu que tinha fé e nunca acreditou que Deus o trataria como um coelho que tiraria da cartola, fazendo-o nascer doente apenas para ser milagrosamente curado depois.   C resceu como pôde e se tornou um adulto confuso. Antissocial convicto, fez parte de uma banda de rock apenas para provar a si mesmo que poderia ser famoso se quisesse. Logo se desinteressou por música e foi se aventurar pelo mundo das drogas. O autista acidental usou todas as drogas que chegou às suas mãos e não se viciou em nenhuma. Drogas tinham o efeito contrário em sua mente, já naturalmente alterada. Muitas vezes, em vez de elevá-lo, as drogas o traziam de volta à realidade. Definitiv...

ARTISTA DE ROCK OU ROQUEIRO?

E u não quero mais ser chamado de artista, me chamem de roqueiro de agora em diante. Um dia, há 25 anos, eu disse em alto e bom som que não queria mais ser chamado de roqueiro. Engraçado que, ao abdicar do título, ainda em meados da década de 80, buscava exatamente o mesmo que busco hoje: um resgate de absolutamente nada. Brincava afirmando ser “roquista” ou "artista de rock" e não “roqueiro”, em alusão à mesma conotação que dão a “motociclista” e “motoqueiro”, porque queria que as pessoas me vissem como aquilo que eu pensava que era: Um homem sério de então quase um quarto de século de vida, apto a se tornar um respeitado pai de família e um marido exemplar. Daquele momento em diante, por favor, que me chamassem de “artista de rock”. A final, que diferença fazia me chamarem de “artista de rock” ou roqueiro? Não era tudo a mesma coisa? Mais ou menos. Por muitos anos eu brinquei de ser artista de rock, compondo musiquinhas de rock de três acordes para impression...

CANTANDO A CANÇÃO DO INIMIGO.

IF YOU WANT TO DEFEAT YOUR ENEMY, SING HIS SONG - Icicle Works (1986) -  Os fãs do moderno rock britânico, acostumados a ouvir em cada álbum de suas bandas preferidas, versões levemente modificadas da mesmíssima canção, certamente iriam se assustar com a diversidade melódica, harmônica e rítmica deste disco. Sem inventar absolutamente nada, sem fazer nenhum tipo de fusão com outro estilo, comparecendo apenas com o bom rock-pop que a Inglaterra sempre soube oferecer ao mundo, o grupo  Icicle Works  consegue surpreender a cada faixa deste belíssimo álbum. O bom gosto e o refinamento permeiam tudo que envolve esta banda e este disco, desde o seu nome,"Icicle Works", bastante poético e incomum,(um trocadilho sofisticado que envolve orvalho congelado e bicicletas de uma roda só) ao não menos inspirado título do lp, "If You Want To Defeat Your Enemy, Sing His Song" (se você quer vencer seu inimigo, cante a sua canção). A inda é digno de nota as letras inspiradas ...

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA - AMERICA, 10,000 MANIACS E A CERTAIN RATIO

HOMECOMING - America (1973) -  A história do grupo inglês America é um pouco confusa, a partir da naturalidade de seus integrantes. Apesar do nome, a banda é realmente inglesa, mas apesar de inglesa, seus integrantes são americanos. A solução para este mistério é até simples; Dewey Bunnell, Dan Peek e Gerry Beckley, que formavam o trio, eram americanos radicados em Londres, onde seus pais moravam.  D escobertos por George Martin, que enxergou no grupo a possibilidade de repetir o fenômeno da beatlemania, o America criou uma mistura perfeita entre o country ianque e o folk inglês, sendo hoje considerados influência por artistas do chamado movimento alt-country . Produzido por Martin, este Homecoming marca o auge da carreira da banda. No mesmo ano lançariam o insosso Hat Trick , antes do canto do cisne Holiday , de 74 e da coletânea multi-platinada Greatest Hits , que vendeu cinco milhões de cópias no mundo inteiro e elevou o America à condição de supergrupo. ...