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PLUG LASER: A HISTÓRIA NÃO CONTADA - PARTE I

 A Plug Laser, a loja que eu abri quase que logo após sair da Muzak, surgiu basicamente de uma birra. Aliás, de algumas birras. Lembro de, uma certa vez, ainda na antiga loja, alguém me perguntar se eu teria discos de Amado Batista e eu responder que não vendíamos aquele tipo de música ali. Então, o cliente me perguntou a razão e eu, ainda na imaturidade de meus vinte e poucos anos, disse que não trabalhávamos com música muito popular.

O cliente poderia gostar de Amado Batista - e vai aqui um preconceito ainda persistente na maturidade - mas não era nem um pouco nada esclarecido. Me chamou de preconceituoso e ainda tive que ouvir que toda a música era popular, desde que houvesse ao menos uma pessoa para ouvi-la.

Aquilo me incomodou profundamente. Não vendíamos discos de artistas denominados "bregas" (ainda que abríssemos curiosas exceções para coisas como Waldick Soriano) nem trilhas de novela. Conseguíamos implicar até com a axé-music baiana e boys bands. Não era uma premissa exatamente minha e sim do meu sócio, com a qual, óbvio, eu concordei e, se concordei, também era culpado. Mas a verdade é que tentei conversar com ele sobre uma abertura no spreading da loja para alcançar mais clientes mas foi em vão. A Muzak, apesar de se localizar em um ambiente profundamente underground, continuaria elitista e metida a besta.

Também havia a questão do meu sócio ser uma pessoa muito conhecida na sociedade local e alguns amigos extrapolarem a sua condição de amigos, levando discos sem pagar ou, ainda, comprando e devolvendo dias depois, exigindo trocas ou o dinheiro de volta.

Foi então que tomei a atitude mais idiota possível para aquele momento e resolvi instalar uma loja ao lado da Muzak para vender justamente o que a Muzak não vendia, inclusive acessórios como cabos, headphones, agulhas de vitrola e muitos outros etcéteras. A ideia seria manter as duas lojas, a sociedade e a amizade, sendo que, no segundo estabelecimento, eu não teria ele como sócio. Só acabei mantendo uma das lojas, a Plug, perdendo, a Muzak, o sócio e o amigo.

Não há nada o que falar do meu sócio que, após um longo período de inimizade, anos depois, voltaria a manter contato, se tornando até meu cliente já em um novo empreendimento. Naquele momento, ele aceitou passivamente, inclusive,  ser meu fiador no aluguel desta segunda loja, na esperança de que a sociedade com aquele jovem desmiolado na Muzak permanecesse. Por algum tempo, as duas lojas conviveram relativamente pacificamente na mesma galeria, cada uma vendendo um estilo específico de música, até que um pequeno desentendimento com um dos clientes da Muzak. muito amigo do meu sócio, fez acontecer a dissolução da sociedade e a minha saída da antiga loja.

Sai da sociedade, troquei a nova loja de endereço, que até ali se chamava Plug justamente por, a princípio, vender acessórios musicais e passei a trabalhar com todo tipo de música, da mais popularesca à mais elitista. Isto que se tornaria a maior característica da "Plug Laser" nos anos seguintes, nome informal pela qual a loja passou a ser chamada e conhecida pelos novos clientes.

O local onde eu instalei a nova Plug Laser havia sido palco de uma tragédia. Antes era uma locadora de vídeo com ares sombrios, como se fosse uma espécie de "caverna do dragão" de seriado de televisão. O atendente mantinha uma espingarda no lugar com a qual gostava de fazer manobras entre um filme locado e outro. Em uma dessas manobras acertou a própria cabeça falecendo ali mesmo.

Quando aluguei o ponto, a mancha de sangue ainda estava visível no carpete. Ninguém queria alugar o local para nada e eu, cético e pouco supersticioso até a medula, vi ali a oportunidade ideal de sair da galeria onde estava. Não tinha dinheiro para trocar o carpete e a solução que encontrei foi mesmo a mais barata,  cortar o pedaço com o sangue e trocar por um novo. Quando retiramos a parte manchada, o sangue ainda estava por baixo e parecia estar fresco, bem vermelho. O profissional que retirou o carpete manchado se benzeu na hora e disse "Deus é mais". Eu segui em frente. Limpei o sangue que ainda estava no taco de madeira, ele colou o tapete novo e, alguns dias depois, a Plug Laser iniciava suas atividades no novo endereço. Era maio de 1991.

Abri a Plug Laser na Avenida Castro Alves nª 1053, literalmente com a cara e a coragem. Capital de giro não havia e contei com o crédito amigo das distribuidoras de discos e acessórios que já me conheciam da Muzak e sabiam da minha fama de bom pagador.  O evento de inauguração foi um fracasso. Esperei algumas dezenas de  antigos clientes da Muzak que não apareceram, talvez em solidariedade ao antigo sócio. Nossa inauguração teve, além do meu único funcionário, sua namorada, minha mãe, esposa e filho, dois convidados que compareceram. Um deles filmou tudo e guardo até hoje a fita em casa. Tinha início a saga da loja mais divertida que já tive.

(Continua na próxima segunda-feira)

Comentários

Unknown disse…
Go Johnny, Go ..

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