Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo".
O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romantismo do letrista pop brasileiro não é uma ciência exata. Mas, seguramente, o romântico pop é a maioria.
Escrevo tudo isto porque outro dia reouvi uma canção pop que fazia uns vinte anos que não ouvia. Na verdade, havia até esquecido da existência dela apesar do disco da cantora em que ela está registrada fazer parte da minha pequena coleção de artefatos sonoros. E a nova audição da canção me trouxe à lembrança de como ela foi decisiva para uma mudança de rumo na minha vida à época em que foi lançada. E aí reside o grande poder da música pop nacional, fútil e banal, romântica e cringe, como dizem os futuros velhos da era atual: Embalar sonhos, sejam eles reais ou irreais.
A canção se chama - quem não suspeitaria? - "Eu te amo você" e faz parte do disco "Todas" da cantora Marina Lima, tendo sido escrita por Kiko Zambianchi. É um pop leve e agradável como o são todas as leituras e releituras do rockbr feitas pela cantora. A minha história pessoal envolvendo a faixa é a seguinte: O disco havia acabado de ser lançado e, em uma visita à casa de uma amiga, ela me apresentou o LP recém comprado. "Todas" me interessou de cara por conter uma versão de "Maxine", de Donald Fagen ("Nightfly", do artista, que contém "Maxine", é um de meus discos de cabeceira). Mas foi o diabo da tal "Eu te amo você" que me pegou de jeito.
Na época eu vivia um romance difícil. Ela morava longe, longe mesmo, longe pra caramba, e eu não conseguia enxergar perspectiva de sucesso na continuidade daquilo. E sempre fui muito pragmático. Amo intensamente mas não deixo de pesar os prós e os contras e se os contras forem maiores que os prós eu simplesmente aborto a missão. Mas, naquele momento, não sabia o que fazer. Eu não queria perder aquela que julgava o grande amor de minha vida mas também não queria perder meu tempo nem o dela. Mas se fartava a demonstração da tese, me faltava a justificação e foi a fútil e banal "Eu te amo você" a exposição do que deveria ser feito.
A premissa perfeita foram os versos:
"Mas tudo é tão difícil
Que eu não vejo a hora
Disso terminar
E virar só uma canção
Na minha guitarra".
Com a variação maravilhosa de "virar só uma ilusão nessa madrugada" em outra parte da letra, estava tecida a argumentação que me levaria a romper com a moça, encontrar outra musa, musa esta que me deu um filho e vinte anos de convivência. E foi assim que o filósofo pop Kiko Zambianchi, com sua letra fútil e banal, me ajudou a tomar uma decisão que mudaria radicalmente meus caminhos. E não foi um livro de Emerson ou um ensaio de Heidegger - que, aliás, ilustra o texto. Foi uma quase insignificante canção pop. Se foi uma decisão boa ou ruim, isto não me preocupa mais. Foi bom sim, por um lado e, por outro, nem tanto. Mas se eu tivesse levado aquele romance à frente, certamente, eu teria chegado à mesma conclusão: bom por um lado, por outro nem tanto.
Porque assim é a vida. Viver - e ter vivido - é mais importante do que imaginar o que teria acontecido se tivéssemos vivido uma outra vida, feito uma outra escolha. No final, chegaremos sempre no mesmo lugar e à mesma conclusão. E se as canções pop podem ser importantes, podem também não ser. No final, o passado é só uma canção em uma guitarra ou mesmo a tal da ilusão nessa madrugada.
Feliz 2026!

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