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O SONHO

 
Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não.

Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda vítima. Mas isso foi antes,  no mundo real do século passado. No sonho era tudo branco. Como no céu.  E no céu ninguém trepa. Eu acho. 

Então seus pais passaram em frente à porta, pelo corredor, indo em direção à sala de jantar. Estavam  alegres como dois namorados aposentados, trocando sorrisos e cochichos.  Nem perceberam a minha presença.  Nosso amor não era bem visto por eles no meu sonho (desconfio que também não era quatro décadas atrás).

Quis ir embora. Coloquei a camisa no corpo.  Era amarela. Vale a pena dizer isto? Eu detesto roupa amarela. Só tenho uma camisa desta cor, escrito liberdade. Mas é porque está escrito liberdade, não por ser amarela. Mas, sim, coloquei a camisa. Que no sonho não estava escrito liberdade,  só era amarela. Você me pediu ao menos um abraço.  Como negar um abraço a quem eu queria encher de beijos? Mas eu neguei. 

Vem comigo,  eu te falei. Pra onde, você perguntou. Para um hotel, para a Bahia, para o mundo. Para o inferno, onde tudo é vermelho e eu posso ficar sem camisa. Mas vem comigo agora. Você não quis. O que eu fui fazer tão longe sem saber se teria o que eu queria  ou se queria o que eu teria? Fui embora.

Acordei de repente, quarenta anos depois.  Levantei,  fui ao banheiro e voltei a dormir.  Sonhar poder ser maravilhoso. Algumas vezes a gente se reencontra com aquele menino tantos anos mais novo. E até que se surpreende com a maturidade dele, esse moleque fedendo a leite que eu nunca mais vou ser.

Eu te disse. O sonho não era com você. Era comigo. 

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