
Veja bem: Se um dia eu acreditasse que sou uma pessoa de direita, estaria, mais do que nunca, enganando a mim mesmo. Os valores da direita não são, absolutamente, os meus. Acontece que os da esquerda também não são e eu, como muitos brasileiros, acabo vivendo num limbo em que esquerdistas me chamam de fascista e direitistas me rotulam como esquerdopata.
Mas isso é natural. É apenas o preço que se paga por pensar fora de caixinhas ideológicas previamente montadas. Porém, o assunto deste texto não sou eu. É o pobre. E o pobre de direita — esse “bastardo”, como o chama o professor Jessé Souza.
Em primeiro lugar, desmontando uma narrativa comum entre pessoas de esquerda: O pobre, em muitos aspectos culturais, é profundamente conservador, ainda que ele próprio nem sempre tenha consciência disso. O pobre valoriza a tradição. Nosso folclore, a título de exemplo, só resiste porque o povo insiste em preservar suas tradições. A burguesia, ao contrário, costuma aderir muito mais facilmente ao moderno, ao novo, ao que vem de fora. Se dependesse apenas dela, novamente por exemplo, talvez nem ouvíssemos mais música brasileira.
A instituição familiar também costuma ser mais forte entre os mais pobres. Casamentos populares frequentemente duram mais. O conceito de família tende a ser mais sólido entre as classes populares do que em boa parte da burguesia urbana.
E, por fim, a propriedade. O pobre defende aquilo que é seu com unhas e dentes. Vá invadir o terreno ou a casa de um pobre para ver a reação. Só aí já temos três pilares clássicos do conservadorismo, ainda que de forma bastante simplificada: Tradição, família e propriedade.
Nesse bolo acrescentemos outro ingrediente: A religiosidade. O pobre, via de regra, é muito mais apegado à religião do que o burguês secularizado. E, junto disso, vêm também posições conservadoras sobre diversas pautas comportamentais. Basta observar, sem filtros acadêmicos ou bolhas de internet, como boa parte da população pobre reage a temas como aborto, identidade de gênero ou determinadas pautas LGBT.
Passemos então à economia.
O pobre é, muitas vezes, um empreendedor por natureza. Frita pastel para vender na porta de casa, faz sacolé para complementar renda, vende água no sinal, costura para fora ou inventa qualquer outra forma honesta de aumentar a renda familiar. O pobre é um capitalista nato. Sem capital, é verdade, mas não é por falta de tentativa.
E como o pobre admira as maravilhas do capitalismo, não é? Sonha com a roupa de marca, o celular de última geração, a televisão enorme na sala, o carro novo comprado em "trocentas" prestações. E, se pudesse escolher um destino turístico, provavelmente iria para a Europa ou para os Estados Unidos, jamais para Cuba. Nesse ponto, o pobre de direita se parece muito com outra figura igualmente curiosa: O burguês de esquerda.
E aqui eu paro para fazer um esclarecimento: Nada tenho contra pessoas pobres. Aliás, financeiramente falando, estou muito mais próximo delas do que da burguesia. Inclusive, sinto-me muito mais à vontade entre pessoas simples do que em ambientes de maior poder aquisitivo. O dinheiro, às vezes, dá a certas pessoas a ilusão de superioridade moral e social.
Mas voltando ao assunto: Para mim, a figura realmente intrigante é o burguês de esquerda, aquele que costuma criticar o pobre de direita. Este fala maravilhas de Cuba, de sua educação, saúde e segurança, mas, quando chega a hora das férias, escolhe Miami. Critica ferozmente o capitalismo enquanto segura um iPhone de última geração nas mãos. Elogia a China como modelo de capitalismo humanista mas esquece da semiescravidão do trabalhador chinês. Condena a polícia militar e pede seu fim, mas, ao ser assaltado pela “vítima da sociedade”, corre para discar 190.
Defende o aumento de impostos sobre cervejas, refrigerantes e outros produtos populares em nome da “consciência social”, mas jamais aceita abrir mão do vinho caro e dos próprios privilégios. Afinal, o pobre — seja de direita ou de esquerda — precisa ser tutelado pelo estado. Já ele, o burguês esclarecido de esquerda, jamais.
Outro dia, numa conversa informal, alguém me disse não entender como o cantor e compositor Edson Gomes, com suas canções recheadas de pautas sociais, teria se tornado “de direita”. Respondi, do alto de minhas parcas convicções, que talvez não tenha sido Edson quem se aproximou da direita, mas a direita que se aproximou dele.
Hoje, alguns setores da direita parecem compreender melhor certas angústias populares que a própria esquerda. Não foi Edson Gomes quem necessariamente mudou; talvez tenha sido a esquerda que trocou antigas pautas universalistas por um discurso cada vez mais identitário, moralizante e intolerante ao dissenso.
Parte da direita respondeu a essa guinada autoritária da pior maneira possível: Mostrando-se igualmente intolerante e autoritária, como afinal, a direita mais extrema já era. Mas outra parte — mais estratégica — percebeu que, para enfrentar essa nova esquerda, precisava recuperar antigas bandeiras populares abandonadas por ela.
É a essa nova direita que o filósofo Luiz Felipe Pondé chamou certa vez de “direita transante”, e que vem conquistando espaço justamente entre pessoas que antes orbitavam naturalmente em torno da esquerda cultural. Costurando tudo isso, continuo achando muito mais plausível e coerente a existência do “pobre de direita” do que a do “burguês de esquerda”, figura hoje tão presente nas redes sociais, na televisão e nos círculos culturais. Gente que sempre aponta os dedos para pobres que não concordam com suas pautas, indignados por eles não lhes dizerem amém e obrigado.
Eu, do lado de cá de Pindorama, continuo sendo um “pobre anarquista”, figura outrora bastante comum e hoje quase extinta. Porque, no fim das contas, seja rico (de esquerda) ou seja pobre (de direita), o velhinho sempre vem. E o velhinho aqui não é Papai Noel. É o Estado, levando seu presente embora junto com seu futuro. Feliz Natal.
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