O ser humano tem um talento quase inerente para fazer mau uso dos avanços tecnológicos. No caso da inteligência artificial, esse mau uso é evidente. Seja em trabalhos escolares completamente escritos por IA, em deepfakes de políticos e celebridades, na clonagem de vozes de artistas famosos para músicas geradas artificialmente ou na disseminação de informações falsas. Certamente você já se deparou com algum vídeo “revelando” um suposto segredo escondido na Antártida ou qualquer outra teoria mirabolante criada para atrair cliques.
Mais preocupante até do que a capacidade humana de fazer mau uso da tecnologia é a capacidade do ser humano acreditar em qualquer coisa que vê ou ouve. Os avanços da inteligência artificial deram às pessoas uma ferramenta capaz de tornar plausíveis até as narrativas mais absurdas.
Lembro quando surgiram IAs que permitiam a uma pessoa se inserir em videos retratando acontecimentos do passado como se fosse um repórter da História de smartphone na mão tirando selfies. Rapidamente apareceram “viajantes do tempo” registrando toda sorte de eventos históricos. Alguns tentavam convencer os mais ingênuos de que haviam realmente voltado no tempo. Outros descobriram uma fonte de cliques com vídeos em que fingiam espanto com essas supostas viagens temporais. E havia ainda quem acreditasse em tudo aquilo e compartilhasse os vídeos como se fossem reais.
A situação se torna muito mais preocupante quando a mesma tecnologia é usada para distorcer acontecimentos atuais. Vídeos, fotos e áudios manipulados podem ser utilizados para fabricar declarações, criar eventos que nunca aconteceram ou alterar a percepção pública sobre fatos reais. Em um cenário onde a mentira pode ser produzida com aparência de verdade, a desinformação ganha uma força sem precedentes.
Foi por causa dessa tendência tipicamente humana de se deixar enganar que se tornou necessário identificar conteúdos artificiais nas redes sociais. O problema é que os algoritmos encarregados dessa tarefa têm a sutileza de um elefante. Eles raramente conseguem distinguir um conteúdo raso gerado por IA de um uso artístico, criativo e transparente da tecnologia. E assim, tudo acaba recebendo o mesmo rótulo de “feito por IA”, sem separar o que foi criado por máquinas do que apenas utilizou a inteligência artificial como ferramenta criativa.
Não há nada de errado em utilizar inteligência artificial. Trata-se de um recurso fantástico. No meu dia a dia, a IA me auxilia no trabalho profissional, nos projetos musicais e até mesmo no lazer. Praticamente substituiu boa parte das pesquisas que antes eu fazia no Google. Se leio um livro, a IA me tira dúvidas sobre ele. Se assisto a um filme, a IA me dá informações sobre o que estou assistindo.
Na música, utilizo IA para criar capas de lançamentos e também para produzir pequenos vídeos que acompanham minhas canções. Isso é evidente. O que talvez não seja tão óbvio é como minhas músicas são realmente feitas.
Utilizo um controlador MIDI, um pequeno teclado que até parece um brinquedo. Com ele, crio levadas de bateria, linhas de baixo, sintetizadores, piano, sopros e até partes de guitarra quando necessário. Do outro lado da mesa está a interface de áudio, onde conecto guitarra, baixo e microfone. O restante do processo acontece no PC, dentro das chamadas DAWs (Digital Audio Workstations), softwares de produção musical que se tornaram cada vez mais acessíveis e, em muitos casos, gratuitos.
Esses programas oferecem inúmeras ferramentas de processamento e, cada vez mais, recursos baseados em inteligência artificial. São eles que permitem corrigir imperfeições, alterar timbres, recriar ambiências e dar mais textura aos sons gravados. Um riff de guitarra criado por você pode ganhar profundidade e presença graças a esses recursos. Há também os chamados MIDI clips, estruturas semiprontas de qualquer instrumento que podem ser manipuladas para formar algo totalmente novo e original. Mas existe um detalhe importante: sem a criação humana inicial, não há nada para a tecnologia aprimorar ou acrescentar.
Hoje também existem as IAs generativas, nas quais basta fornecer uma letra, ou às vezes nem isso, e indicar um estilo musical qualquer, aguardando a criação automática de uma faixa completa. Os resultados costumam ser tão genéricos e medíocres quanto o próprio processo de criação. Com essa facilidade, distribuidoras e plataformas de streaming passaram a receber uma enxurrada de lançamentos produzidos dessa forma. Houve casos de “artistas” lançando dezenas ou até centenas de músicas em um único dia. Diante disso, muitas distribuidoras passaram a limitar a quantidade mensal de lançamentos por usuário para tentar conter essa avalanche de conteúdo automatizado. A tendência é rotular tudo que é criado com IA de uma forma simplista e generalizante. O problema é que o efeito colateral dessa situação é atingir também quem realmente compõe e produz suas músicas a partir do zero, utilizando apenas as facilidades tecnológicas disponíveis.
Em conversas com produtores musicais em grupos de WhatsApp dos quais participo, o sentimento geral é que as novas políticas dos streamings para conteúdos chamados sintéticos podem acabar sendo um enorme tiro no pé. A ideia por trás das mudanças faz sentido: Tentar reduzir a quantidade de músicas geradas por IA em massa, muitas vezes feitas apenas para inundar as plataformas com conteúdo de baixa qualidade. Mas existe o risco de que quem realmente seja afetado por essas medidas sejam os artistas legítimos.
Afinal, quem produz milhares de faixas automatizadas dificilmente vai se preocupar em ter seu conteúdo rotulado como gerado por IA. Já um artista que dedicou tempo, dinheiro e criatividade para produzir sua música provavelmente não vai gostar de ver seu trabalho colocado na mesma categoria. Isso se torna ainda mais problemático quando a IA foi usada apenas como uma ferramenta de apoio em algumas etapas do processo criativo, e não para criar a obra inteira.
Se essa percepção ganhar força, o efeito pode ser justamente o contrário do que os streamings pretendem. Em vez de afastar o chamado "lixo automatizado", as plataformas poden acabar desestimulando artistas reais enquanto os produtores de conteúdo em massa continuariam publicando normalmente.
É frustrante? Sim, claro que é. Sua música original, seu esforço criativo e o trabalho de seus parceiros humanos passam a compartilhar um mesmo rótulo com conteúdos produzidos inteiramente por sistemas generativos, sem ao menos uma classificação mais precisa. Tudo se torna “feito por IA”. Mas esse é o preço que muitos criadores sérios acabam pagando pelos excessos e abusos cometidos por alguns usuários da tecnologia.
A inteligência artificial é apenas mais uma ferramenta. O que ocorre hoje com a IA na música — tanto a rejeição quanto a aceitação — já ocorreu antes com os amps de transistor, sintetizadores, pedais digitais, o DAT e a própria DAW. A diferença é que a IA tornou acessível a qualquer pessoa “brincar” de ser músico. O talento, desta vez, deixou de ter importância. Como tantas outras invenções humanas, a inteligência artificial pode ampliar a criatividade ou banalizá-la. A diferença continua estando, como sempre esteve, em quem a utiliza e na forma como a utiliza.

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