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UM REBELDE SEM ALÇA.

Quem  é você na fila do pão?  Na "padoca" e em outras fileiras, Humberto Finatti é Humberto Finatti e isto faz toda a diferença.   Finatti, nascido em 62, como naquela  canção do Ira!,  é um  conhecido jornalista musical paulistano. Na verdade, não é apenas um jornalista musical.  “Finas”, como o chamam carinhosamente seus amigos,  é quase um popstar da escrita.  Para desespero de alguns de seus colegas de profissão,  invejosos do seu status de ícone cult, Humberto Finatti transcende ao que escreve.  Não raro, as resenhas de Humberto são bem mais interessantes do que o artista resenhado.

Mas,  enquanto jornalistas musicais insistem em fazer valer a máxima que não passam de músicos frustrados,  Humberto Finatti nunca foi  músico.  Pelo contrário,  já foi até decantado em verso e verso em uma canção de  Ayrton Mugnaini Jr. chamada “Rebelde sem alça”.  Mugnaini é outra figura ímpar e o mais próximo que Frank Zappa pôde se aproximar de um compositor brasileiro.  Mas, enfim, nas mãos de um jornalista-músico que não se frustrou, Humberto Finatti virou música.

        E não foi só apenas um músico que se inspirou em Humberto Finatti para compor uma canção. Para ele, a cantora, rondoniense radicada em São Paulo, Samara Noronha escreveu a contundente "Viva a milhão", ainda em 2013.

Virou música nas mãos de Ayrton e Samara e agora vira resenha em minhas mãos,  como se fosse um disco clássico a ser comentado em uma das discotecas básicas da vida.  Ou, melhor, como se fosse um arquivo de mp3,  perdido em qualquer HD por aí, em uma mesa bagunçada, entre livros de escritores “beat”, canetas bic sem carga e cartões de crédito empoeirados.  A sua modernidade urgente não lhe permite nenhum saudosismo.

De fato, Humberto Finatti é um personagem incomum,  mil vezes mais interessante do que aquilo que escreve.  Não que o que ele escreva seja  desinteressante. Mas o seu texto é um texto de grife.  Finatti poderia escrever e me pedir para assinar e publicar o que escreveu e o texto jamais teria o mesmo impacto de levar a sua assinatura. Porque seu texto é, de certa forma,  parte dele mesmo.   Quando escreve,  alguma parte dele se vai junto e se regenera em seguida,  para produzir mais e mais clássicos da obscuridade literária.

Humberto Finatti não é uma pessoa fácil.  Tem defeitos,  é meio louco,  sempre no limiar da insanidade.  De vez em quando, pode ser até desagradável.  Mas, a favor do vate  sem rima da Vila Mariana, está a sua lucidez paranoica e, principalmente, a sua translucidez.  Finatti é um produto honesto, não vem malhado, é uma droga 100% pura.  Usa quem quer,  tem overdose quem não souber consumir.

Com Edgar Scandurra
Humberto é puta velha do jornalismo musical.  Já escreveu na Bizz,  na Rolling Stone,  na Folha, na extinta Interview, no Estadão e em vários etcéteras.  É cria de Ezequiel Neves, o  “Zeca Jagger”, da lendária coluna  do Jornal de Música, jornal que é aquilo mais próximo que tivemos de um NME e Zeca  de um Lester Bangs nos anos 70. Aliás, dizem  as boas línguas que foi Lester Bangs, o lendário jornalista nova-iorquino,  que emprenhou Ezequiel para que nascesse Finatti.

  Hoje Finatti mantém um blog chamado Zap’n’Roll,  cria da coluna que manteve por anos  na revista  Dynamite.  O seu blog é influência assumidíssima deste que vos escreve,  neste veículo em que você lê estas linhas.  Provavelmente, sem Zap’n’Roll não haveria Impaciente e Indeciso. Ou, pelo menos, não haveria no mesmo formato.

Finatti é cercado de afetos e desafetos e é normal que  as pessoas transitem de um status para o outro.  Ninguém é indiferente a ele.  Seus desafetos  já chegaram a manter  uma hilária conta no Twitter, na vã tentativa desesperada de bullying virtual.  O tiro saiu espetacularmente pela culatra e só fez crescer o mito em torno da sua figura.   Muitos acreditaram, por anos, que era o próprio Humberto que alimentava o twitter fake.  Um dia, o narigudo cansou da brincadeira e entrou com uma ação contra a rede social para apagá-lo.

Finatti ama, odeia, escreve, trepa, usa drogas, dá vexame, encanta, desencanta.  Tudo com uma enorme intensidade.  Fosse um disco, seria o "Songs Of Love and Hate", de Leonard Cohen.  Fosse um livro, seria uma biografia não autorizada escrita por ele mesmo.  Quando morrer, isto se ele morrer, deixará uma marca feita a canivete no jornalismo musical brasileiro. 



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