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O DIA EM QUE O ROCK BROCHOU - PARTE II

          A dmito que eu não tenho nada de muito consistente contra os Los Hermanos, a não ser, simplesmente, não gostar do tipo de música que eles produzem. Na verdade, o grupo carioca me incomoda muito mais pela multidão de bandas-clone que surgiram influenciadas por eles. Tais grupos sempre estiveram dois degraus acima deles em matéria de chatice, e regurgitaram ainda mais a sonoridade indecisa entre o rock e a MPB que consagrou os cariocas barbudos. Los Hermanos B om dizer que os Los Hermanos não estavam sozinhos em seu reinado pop ao final dos anos 90. Na margem oposta do rio havia o Charlie Brown Jr., com seu vocalista Chorão adolescendo tardiamente em público, vociferando letras primárias e burilando uma sonoridade que passeava entre o reggae e o hardcore, sem no entanto, fazer com que a mistura soasse uniforme e convincente.  L á pelo início do milênio, a música jovem do país estava polarizada entre duas bandas, o Charlie B...

O DIA EM QUE O ROCK BROCHOU.

O rock’n’roll já nasceu acéfalo, microcéfalo  e descerebrado. Deu os primeiros passos murmurando coisas ininteligíveis como “uabapilulauópibeinbom” e “bibabulina”. Na sua tenra infância, tatibitava sobre carros e garotas e todos achavam que era bom. Então, que ninguém venha cobrar “letra” das canções de rock. Quem tinha que passar mensagem era a entediante música folk da época. Então Dylan se fez carne e veio ao mundo para unir elétricos e acústicos. Letrista de primeira, cabecista sem ser cabeçudo, Bob Dylan, literalmente, violentou a música folk com guitarras,misturando tudo e elevando o status do rock a “música com mensagem”. L obão , aquele músico brasileiro que um dia já compôs grandes canções, sejam algumas delas acéfalas, sejam outras “com letra”, costumava dizer justamente isto: Que o rock poderia ser idiota ou politizado, mas não podia lhe faltar o que ele chamava, com muita propriedade, de “paudurescência”. O termo tem uma carga machista que pode de...

MINHA COLEÇÃO DE AMIGOS.

E u não sou uma pessoa de muitos amigos, mas conservo os poucos que tenho muito bem guardados. Se meus amigos fossem discos, estariam bem na parte central de minha prateleira, todos juntos, ali - os meus álbuns preferidos - todos prontos a serem ouvidos a qualquer momento. De fato tenho mais discos que amigos, porém, os amigos que tenho são como meus discos favoritos: Um pequeno núcleo, bem selecionado, seja de gente ou de LPs, que levaria para uma ilha deserta para fazer uma festa.    J á aquele amigo que se tornou um desafeto é como um título que não cabe mais no meu gosto musical. Passei daquela fase, daquele som, que não me diz absolutamente mais nada. Então, me desfaço do disco. E me desfaço do desafeto também. H á quem cultive desafetos como cultivaria pragas daninhas em seu jardim. Também planta flores por lá, mas em seu torto horto reserva um local a parte para as ervas que lhe fazem mal. Jamais entenderei estas pessoas: Se tal amizade não lhe fe...

ROQUEIRO DE PAI E MÃE - PARTE II

G astei a primeira mesada que ganhei toda em LPs e compactos . Isto, lá pelos idos de 76, depois de muitas reivindicações e palavras de ordem contra a exploração paterna. Não era muito dinheiro, mas também busquei meus primeiros títulos na prateleira de promoções das lojas de discos. Meu primeiro disco foi um compacto de um cantor de trio elétrico com a inacreditável alcunha de “Schultz”. Muitos anos depois viria a descobrir que o tal Schultz foi o primeiro cantor de trio elétrico da história. Mas àquela altura o disquinho do teuto-baiano já havia ido para a lata de lixo ou servido de troco em uma troca qualquer. O primeiro disco que tive com relativa consciência do que estava adquirindo foi uma coletânea de “discoteca” (ainda não havia o uso corrente no Brasil do termo “disco-music”) chamada Disco Revelation , um vinil amarelinho, todo mixado, que  eu tenho até hoje. B asicamente, quando comecei a ouvir música por mim mesmo, comecei pelo som disco, passeando pelo f...

ROQUEIRO DE PAI E MÃE (PARTE I).

A música sempre fez parte da minha vida. Nasci mirando de dentro do berço para uma estante gigantesca (ao menos para alguém na mais tênue infância) recheada de LPs e compactos . Desde cedo me acostumei a ver minha mãe fuçar seus discos para ouvi-los, sempre aos domingos e sempre começando por Roberto Carlos e Agnaldo Timóteo . Dali em diante, como um verdadeiro random humano, ela ouvia, alternadamente, lados de lps e lados de compactos, sem muita escolha lógica. Então, eu era bombardeado com altas doses de Odair José, Tim Maia, Erasmo Carlos, Caetano Veloso e Hyldon, misturados com Helen Reddy, Tom Jones, Paul McCartney, Elton John e Commodores. A o final da década de 70, minha mãe não escapou da febre da disco-music , pelo contrário. Comprou singles da fina flor da disco nacional como os compactos de Lady Zu, Miss Lene, Dudu França, Cornélius Lucifer e alguns tipos mais obscuros. Adquiriu coletâneas com os hits do momento, singles do ABBA e dos Bee Gees . Até...

DO INFERNO PARA O VAZIO DE UMA GERAÇÃO.

"I belong to the blank generation, and / I can take it or leave it each time, well / I belong to the ----- generation / I can take it or leave it each time"   Q uem era adolescente no início da década de 80, ouvia rock e estava atento às novidades, sempre se defrontava com estes versos gritados nas inúmeras compilações do gênero punk/new wave que traziam a canção Blank Generation . Alguns estranhavam aquela faixa de andamento incomum, mas ninguém nunca ficava indiferente aos apelos de pertencer à "geração vazia" de Richard Hell . Muitos nem sequer imaginavam a verdadeira importância do artista para o movimento punk e ainda existiam outros que achavam que tudo começou em Londres com Malcom McLaren . Q uando retornou à Inglaterra em 76, depois de uma longa temporada em Nova Iorque , onde chegou a empresariar desastrosamente os New York Dolls , McLaren trouxe na bagagem a imagem de Hell para forjar uma nova estética para a música sonolenta praticada na ilh...

TUDO QUE EU PRECISAVA: A BIOGRAFIA RESUMIDA DO THE CARS.

O s fãs do  Television têm motivos de sobra pra odiar os The Cars . Oriundos de Boston , que é para Nova Iorque , mais ou menos, o que Braga é para a cidade do Porto ou Niterói é para o  Rio de Janeiro , os  Cars chegaram à "grande maçã" (Nova York) com uma enorme disposição de fazer sucesso. Afinal, a banda já existia há 7 anos em 1979 e nunca havia sentido nem de longe o gostinho do estrelato. Foi quando um olheiro da Elektra assistiu um show do grupo e percebeu que a proposta musical era muito próxima à de uma outra banda na qual a gravadora investiu muito e não obteve grandes resultados. Lidar com o ego de Tom Verlaine , líder do  Television , não era nada fácil e o som pop-progressivo da "nova" banda era muito próximo do deles, com a vantagem de soar bem mais comercial. N a semana seguinte, o  Television estava sumariamente demitido da Elektra,   após dois retumbantes fracassos comerciais, os excelentes Marquee Moon e Adventure . The Cars...