Mais tarde, quando decidi me afastar do debate político em nome da minha sanidade mental, elegi outra palavra para ocupar esse topo de desgaste: amizade.
Não me entendam mal. Gosto muito dos meus amigos e valorizo a convivência, apesar da minha habitual misantropia e de uma desconfiança quase crônica na humanidade. No entanto, ao longo de seis décadas de vida, acumulei know-how suficiente para afirmar sem medo: a palavra "amizade", por si só, não vale absolutamente nada. Eu me tornei um cético do título e um devoto da consideração.
Houve um tempo — e já nem sei se o mundo continua nessa insanidade — em que o objetivo de vida de muitos era atingir o teto de 5 mil amigos no Facebook. Criar um segundo perfil para somar mais 5 mil era o ápice do prestígio digital. A palavra "amigo" foi tão esvaziada pelas redes sociais que, a certo ponto, acabou sendo substituída por "seguidor" — um termo que, ironicamente, é muito mais honesto, justo e realista.
Na vida fora das telas, a dinâmica não é diferente. No hiato de um fim de semana entre um casamento e outro, cruzei com dezenas de "amigos de bar": gente que, embriagada, me cobria de elogios efusivos e, sóbria, mal acenava do outro lado da rua. Isso sem falar nos incontáveis falsos amigos que insisti em cultivar ao longo dos anos, movido por recaídas da minha teimosa fé na humanidade.
Hoje, no entanto, a conta é simples. Tenho amigos que me consideram, amigos que não me consideram e tenho, também, pessoas distantes — que sequer têm laços profundos comigo —, mas que ostentam uma consideração exemplar pela minha presença e pela minha história.
Pedindo antecipadas desculpas aos amigos que me consideram — vocês são raros e vitais —, confesso que tenho uma admiração quase poética por essas pessoas mais distantes. Gente sem obrigação afetiva, sem intimidade construída, mas que trata minha existência com um respeito impecável. Considerar não é fazer favores por interesse, nem exige frequentar a sala de estar uns dos outros. Considerar é respeitar os limites, a história e o tempo alheio. É a elegância do afeto sem cobrança.
Para esta nova etapa da vida, a tal da terceira idade que se aproxima sem pedir licença, meu filtro ficou absurdamente fino. Quero ao meu redor apenas amigos que me consideram e conhecidos que me consideram. Amigos de ocasião, afetos com reservas, ou aqueles que lembram de mandar figurinha no "Dia do Amigo", mas passam os outros 364 dias mergulhados no próprio egoísmo, estão oficialmente demitidos da minha rotina. Não preciso de palcos nem de multidões. Um milhão de amigos eu deixo para o Roberto Carlos; para mim, basta a consideração de quem sabe estar perto mesmo estando longe.

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