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O DIA EM QUE O ROCK BROCHOU.

O rock’n’roll já nasceu acéfalo, microcéfalo  e descerebrado. Deu os primeiros passos murmurando coisas ininteligíveis como “uabapilulauópibeinbom” e “bibabulina”. Na sua tenra infância, tatibitava sobre carros e garotas e todos achavam que era bom. Então, que ninguém venha cobrar “letra” das canções de rock. Quem tinha que passar mensagem era a entediante música folk da época. Então Dylan se fez carne e veio ao mundo para unir elétricos e acústicos. Letrista de primeira, cabecista sem ser cabeçudo, Bob Dylan, literalmente, violentou a música folk com guitarras,misturando tudo e elevando o status do rock a “música com mensagem”.

Lobão, aquele músico brasileiro que um dia já compôs grandes canções, sejam algumas delas acéfalas, sejam outras “com letra”, costumava dizer justamente isto: Que o rock poderia ser idiota ou politizado, mas não podia lhe faltar o que ele chamava, com muita propriedade, de “paudurescência”. O termo tem uma carga machista que pode desagradar a alguma feminista aqui e ali, mas, além de ser uma assombrosa verdade, a “paudurescência” - ou "hidroxoxotência" se assim desejarem -  do rock jamais se limitou a artistas do sexo masculino.

Janis Joplin, Chryssie Hynde, Siouxie Sioux, as meninas do L7, os exemplos de mulheres tocando um rock “de pau duro” (ou de xoxota molhada) são inúmeros. Inclusive, quando mulher se mete a fazer rock, não costuma fazer rock sem tesão, sem energia. Portanto, nada de machismo aqui e ponto para elas. O que já não se pode dizer de todos os artistas do sexo masculino que resolvem por uma guitarra no ombro e sair por aí dizendo que fazem rock. Muitos carecem de uma libido musical e parecem tocar burocraticamente, como se batessem carimbos em uma repartição.

Funk e soul music são estilos musicais extremamente sensuais e sexuais. Não há mulher que não se arrepie quando Marvin Gaye pede um “tratamento sexy” à sua médica preferida na canção “Sexual Healing”, ou chama pra decisão em “Let’s Get It On”. Da mesma forma, tantos homens fantasiaram coisas ao ver uma jovem Tina Turner manipular sexualmente seu microfone em sua participação no filme Gimme Shelter, de Goddard, sobre os Stones. A sexualidade atrevida, “alfa”, dominante, está e sempre esteve no DNA da música negra.

E é justamente este componente genético que vamos encontrar no rock na forma da tal “paudurescência” e seu equivalente feminino. Afinal, de certa forma, o rock é uma musica, originalmente, negra. Se, liricamente, o menino branco parece padecer eternamente do amor não correspondido pela garota mais bonita da escola; harmonicamente, o rock branco e de classe média jamais deixou de, ao menos, manter ereto o braço da sua guitarra. O eterno sofrimento pela mulher amada rendeu bons frutos música pop afora, é bem verdade, mas sempre deixou a impressão de que, a qualquer momento, poderia haver uma brochada súbita.

Então, a brochada finalmente veio nos anos 90, basicamente com o grunge, nos EUA, e o brit-pop brat pack no Reino Unido. Foi quando o rock perdeu um espaço para a música dançante, o rap e o hip-hop e jamais o recuperou. De repente, o rock’n’roll se afundou em auto indulgência e indigência. O Nirvana, grupo norte-americano, é um bom exemplo disso. Entraram de cabeça no jogo duro da indústria pop apenas para terem pelo que se lamentar depois. Usavam vestidos no palco, desafinavam propositalmente seus instrumentos, ofereciam espetáculos patéticos como o show do Hollywood Rock, onde seu vocalista saiu engatinhando do palco. Em uma atitude pra lá de idiota, neste mesmo festival, patrocinado pela marca de cigarros Hollywood, o vocalista Kurt Cobain chegou a acender um cigarro de outra marca no palco. Quisesse protestar contra uma marca de cigarros promover um evento voltado para a juventude, não aceitasse tocar nele e ganhar cachê. Simples assim.

No Brasil dos anos 90, a falta de “paudurescência” das bandas de rock nacionais era mais que evidente. Skank e O Rappa eram vendidos como os grandes nomes de um rock que era tudo: ska., reggae, funk, rap, menos rock. Os Titãs e o Capital Inicial tinham dado guinadas pop, buscando a fácil aceitação comercial. O pouco de inovação e energia vinha de Pernambuco, mas, ainda assim, aquela música era muito mais regional do que propriamente rock’n’roll. Havia a cena independente, é verdade, mas quem se importava realmente com a cena independente?

Conta a lenda que a apatia dos anos 90 fez com que Karl Hummel , guitarrista do Camisa de Vênus, ligasse desesperado para Marcelo Nova, vocalista, recrutando-o para um retorno do grupo, com a seguinte argumentação: “- Acabei de ler aqui que a maior banda de rock do Brasil é o Skank. Precisamos voltar!”. E voltaram. Para o bem ou para o mal, ereção musical jamais faltou à trupe de Marcelo Nova.

Na segunda metade da década, toda a falta de tesão do rock se materializou em uma única banda: Os cariocas Los Hermanos. Mas nem sempre foi assim. O primeiro disco do grupo, apesar de irregular, trazia experimentações interessantes como a mistura de rock com música “de carnaval” e hardcore. O disco era bem arrematado e trazia, pelo menos, um hit: A magnífica “Anna Julia”, canção que, anos depois, entraria de vez para o folclore do rock tupiniquim.

Acontece que, do segundo disco em diante, os Los Hermanos deram uma guinada à uma espécie de flacidez musical precoce. Ao invés das instigantes composições do primeiro disco, passaram a produzir pequenos hinos de batalha para uma geração que não guerreava. 

Recheados de versos pseudointelectualizados, afundados na mais catatônica forma de MPB, distorcendo guitarras aqui e ali para que, ao menos, parecessem rock, os Los Hermanos ganharam o duvidoso status de banda com repertório para nerd bebum cantar no final da madrugada em bar alternativo.

De tão identificada com o estereotipo do menino branco que não come ninguém, a banda chegou a ganhar o apelido pejorativo de “Loser Manos”.

Com a mudança de estilo, passaram a renegar todo o material do primeiro disco, inclusive seu primeiro sucesso, Anna Julia. E a pergunta preferida de nove entre dez jornalistas que os entrevistavam era “porque não tocam Anna Julia?”. Nem sempre os manos respondiam com a devida simpatia e há até registros no You Tube de integrantes moendo jovens jornalistas que se atreviam a fazer tal questionamento. (Continua...)

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