Um disco, muitas vezes, é muito mais do que um álbum de retratos sonoros. Pode se parecer com um poço de boas lembranças de tempos que voltam sim, através de experiências sinergéticas que só a música pode proporcionar.

THE ROLLING STONES - "Emotional Rescue" (1980) - A cena ainda permanece vívida em minha memória, mesmo que, de lá para cá, já tenham se passados quase 40 anos: Meu primo ouvindo, pela enésima vez, a sua cópia recém-comprada de Emotional Rescue, disco de 1980 dos Rolling Stones, enquanto eu e sua irmã o provocávamos, dançando descompassadamente ao som aqueles rocks, apenas para que ele fingisse, rindo muito, que iria correr atrás de nós para nos bater. Foi assim durante todo aquele verão de 1981 na Ilha de Itaparica.
Naquele tempo, nem os Rolling Stones escapavam de atrasos entre o lançamento de seus discos na matriz e aqui no Brasil e, apesar de já estar disponível na civilização desde a metade de 1980, a edição nacional de Emotional Rescue só seria lançada no final de outubro daquele ano, para aproveitar as vendas de natal. As dificuldades de importação eram enormes e era mesmo melhor aguardar um pouco para poder ouvir as novidades do mercado fonográfico internacional do que arriscar adquirir um disco cinco vezes mais caro para que ele saísse em edição nacional no mês seguinte.
O meu primo, Mário Filho, falecido precocemente em 1997, aos 37 anos, foi um de meus gurus musicais, e com certeza, o mais importante deles. Foi ele que me desviou da rota da música negra para desvendar os inúmeros mistérios do rock, ainda que isto não tenha sido tão positivo quanto possa parecer. Ter ouvido dele que "música black não prestava" atrasou em décadas o meu aprofundamento com a soul music e o funk legítimo, groovy, jungler, dos anos 70. mas, definitivamente, me viciou para sempre em rock and roll.

Até ali, eu pouco conhecia ou me interessava pelos Rolling Stones. Na verdade, o que havia de rock em minha discoteca até aquele momento era muito pouco, mas ainda assim, bastante relevante. Alguma coisa dos Beatles, outras coisas pinçadas aqui e ali, compradas no escuro, como discos de Cheap Trick e Tom Petty, Mas a predominância era de bandas como Brass Construction e Crown Heights Affair, além de cantoras soul e disco-music. Mas quando mantive contato com aquela batida seca e aquele som cru, foi, de fato, paixão à primeira audição.
Gravado nas Bahamas, em um estúdio móvel, e concluído em Paris, durante todo o ano de 1979, Emotional Rescue reforça a ideia de ser um disco ensolarado. Trilha perfeita para noites com sol, praieiras, embalando madrugadas com as costas ardentes. É um dos discos mais "para cima" dos Stones e, de fato, precisa ser um fã muito chato para não reconhecer a qualidade das faixas deste disco.
O lado A começa com a batida funk-rock poderosa de "Dance Pt. I". Tais experimentações dançantes eram fruto das idas e vindas do vocalista Mick Jagger a night clubs da moda. Em sua autobiografia, o guitarrista Keith Richards comenta sobre o seu temor de algumas daquelas melodias e temas de Jagger serem plágios inconscientes de canções ouvidas por ele nas festas que frequentava. "Summer Romance" é uma canção fresca sem ser afrescalhada, totalmente alinhada com a batida new wave das bandas mais modernas daquele tempo. "Send It To Me" é uma "regatta" (reggae feito por brancos) convincente. "Let Me Go" é o velho rock analfabeto stoniano. Irresistível e com uma interpretação irrepreensível de Mick Jagger. O primeiro lado se encerra com a balada pseudo-engajada "Indian Girl"
Após Emotional Rescue, os Stones entrariam em turnê e, em seguida, em um recesso criativo que duraria até o irregular Undercover, álbum seguinte, de 1983. No intervalo, lançaram um disco ao vivo, "Still Life" e outro de sobras, "Tattoo You", este vendido marotamente como se fosse um disco inédito, até que a tramoia de aproveitar gravações antigas fosse descoberta, graças a um processo do ex-guitarrista Mick Taylor. De "Undercover" em diante, os Stones deixaram definitivamente de ser relevantes. Lançariam ainda alguns discos, mas sem jamais rever a energia e o espírito juvenil de Emotional Rescue, porcamente decalcado em Undercover, como uma espécie de canto do cisne sem cisne.
Quando os Stones lançaram Emotional Rescue vinham de uma guinada pop dentro da sua sonoridade, iniciada com o "moderninho" Some Girls, lançado no ano anterior. Naquele momento, o rock experimentava uma espécie de renascimento através do punk, power-pop e new wave. Todos os grandes artistas, os chamados "medalhões", lançaram seus discos fortemente influenciados pelo velho novo som e os Stones não fugiriam à regra. No ano seguinte, saia Emotional Rescue, basicamente gravado com material que havia sobrado do LP anterior. Como sempre, as sobras dos Stones, muitas vezes, eram bem superiores ao que eles resolviam lançar oficialmente.

O lado A começa com a batida funk-rock poderosa de "Dance Pt. I". Tais experimentações dançantes eram fruto das idas e vindas do vocalista Mick Jagger a night clubs da moda. Em sua autobiografia, o guitarrista Keith Richards comenta sobre o seu temor de algumas daquelas melodias e temas de Jagger serem plágios inconscientes de canções ouvidas por ele nas festas que frequentava. "Summer Romance" é uma canção fresca sem ser afrescalhada, totalmente alinhada com a batida new wave das bandas mais modernas daquele tempo. "Send It To Me" é uma "regatta" (reggae feito por brancos) convincente. "Let Me Go" é o velho rock analfabeto stoniano. Irresistível e com uma interpretação irrepreensível de Mick Jagger. O primeiro lado se encerra com a balada pseudo-engajada "Indian Girl"
Do outro lado, "Where The Boys Go", a melhor faixa do disco, é um surpreendente punk-rock, invocadíssimo, que não deixa nada a dever às crias bastardas do New York Dolls. "Down In The Hole" é um blues tipicamente Stones, sem maiores surpresas. "Emotional Rescue", a canção, é um proto-reggae/disco dançante cantado em falsete. Simplesmente, é a coisa mais genial já gravada pelo então quinteto. "She's So Cold", a mais "new wave" das canções do álbum, tem melodia grudenta e um loop harmônico que, praticamente, determinou a minha maneira de compor música. A balada abolerada "All About You", crua e máscula, cantada por Keith Richards, encerra o álbum de maneira esplendorosa. Se é que tal adjetivo caberia de alguma forma em uma canção interpretada pelo guitarrista.
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