O ano de 1978 foi bastante prolífico para a música pop. Ainda que, entre os melhores discos daquele ano, listados pelo respeitado site Best Ever Albums, o LP melhor posicionado de um brasileiro seja o "Axé", do sambista Candeia (155º lugar) e o metal só venha encontrar um representante no disco homônimo do hoje quase esquecido Molly Hatchet (166º lugar), 1978 foi mesmo o ano do "novo rock" a que se convencionou chamar comercialmente de "new wave". O site relaciona nos cinco primeiros lugares, Bruce Springsteen, Elvis Costello, Van Halen, Blondie e The Cars. Mas é o disco que aparece em 16º lugar que se tornaria um dos mais instigantes lançamentos daquele ano.
1978 também não foi um bom ano para as cantoras pop. Qualquer uma que se aventurasse e não militasse claramente nas fileiras do tal novo rock correria o sério risco de se transformar em alguma espécie de one hit wonder, artista de um sucesso só, vítima da indústria musical daquele momento, cada vez mais preocupada em lançar novos nomes, apenas para descartá-los em seguida. Mas, Kate Bush, definitivamente, não era uma cantora pop comum. Com apenas 19 anos e apadrinhada por ninguém menos que o guitarrista David Gilmour, uma das duas cabeças mais pensantes do Pink Floyd, Bush compunha o que cantava e era dona de uma voz realmente incomum. Preparou meticulosamente o seu disco de estréia durante todo o ano de 1977 e quase o lançara em dezembro, tendo atrasado seu début por questões estéticas que envolviam a capa do primeiro compacto extraído do disco.
Kate Bush agregava mais dois fatores de risco à esta estreia: a religiosidade intensa presente nas letras - o disco inteiro fala de budismo em um momento em que ainda não havia se tornado moda ser budista - e a associação com um músico que,naquele momento, representada tudo que era velho e ultrapassado, o já citado David Gilmour. No mais, Bush não parecia interessada em fazer qualquer tipo de concessão ao sucesso fácil. Sem dúvida, a cantora e compositora era uma aposta de risco para a EMI.

Wuthering Heights não é apenas o single mais bem sucedido de toda a carreira de Kate Bush, com quase meio milhão de cópias vendidas em todo o mundo. É também o single mais vendido de uma cantora e compositora britânica e o que chegou mais rapidamente ao primeiro lugar. Entrou em 42º lugar, passando a 27º lugar na semana seguinte e atingindo o topo duas semanas depois. No mês seguinte, finalmente, "The Kick Inside" era lançado, alcançando uma recepção surpreendente para um disco considerado "difícil", de fortes tinturas de pop progressivo.
No Brasil, "The Kick Inside" demorou mais de um ano para ser lançado e, ainda assim, por pouco quase não aconteceu nada, pois a filial brasileira da EMI resolveu apostar em um single da canção "Strange Phenomena". E aí é que entra o relato de uma daquelas situações curiosas que mais tarde serão contadas de forma anedótica: Quando ouvi Kate Bush pela primeira vez, no rádio, foi justamente a canção que fazia parte do compacto de estreia da cantora no país. Eu tenho uma prima chamada Filomena e quando eu ouvi "Strange Phelomena" no refrão, eu li também "Strange Phelomena" quando comprei o compacto e pretendia presenteá-la com ele, ainda que eu jamais soubesse que "strange" significasse "estranha" e não "estrangeira". Uma vez que percebi que era "phenomena" a palavra que constava no título, acabei ficando com o disco para mim e dando a ela outro presente, desta vez outro compacto, da cantora Filomena interpretando uma bisonha versão de "De Do Do De Da Da" do Police. Filomena, a minha prima, detestou o compacto da Filomena, a cantora. Melhor seria ter dado a ela o disquinho da Kate Bush.
De tanto que ouvi sem muita vontade, acabei gostando do single. Mas, confesso, o megahit que se seguiu, a já citada Wuthering Heights, completamente estourada no Brasil graças ao fato de fazer parte de uma trilha de novela de sucesso, não me agradava nem um pouco. Foi só quando The Kick Inside, o álbum, veio parar em minhas mãos, como contrapeso de uma troca, que eu pude, afinal, me apaixonar pelo universo delicado de Kate Bush. Mas, até hoje, apesar de até ter passado a gostar da faixa, Wuthering Heighs continua soando destoante do resto do disco e completamente dispensável, a mesmíssima impressão que eu tive em 1980.
O lado A abre com Moving, uma canção delicada com ênfase no piano na qual ressai com bastante destaque a voz impressionante da cantora. The Saxophone Song repete a dose acrescentada de uma melodia que vai crescendo até desaguar em um belíssimo solo de sax. Strange Phenomena é uma canção bela e estranha - é de se imaginar o que p A&R da EMI brasileira tinha na cabeça quando resolveu lançá-la como single. "Kite" é uma "regatta", como se chamam aqueles reggaes deliciosamente embranquecidos. "The Man With The Child In His Eyes" tem um pé na erudição sem nunca perder a pegada pop. "Whutering Heights" encerra o lado A, com um jeitão de deslocada.
Viramos o lado e tudo fica mais animado com "James And The Cold Gun", um rock quase pesado. "Feel It" é uma pérola pop, um dos melhores momentos do disco. 'Oh To Be In Love" segue a mesma linha e a gente começa a pensar como o lado B do disco é tão melhor que o lado A. Então vem "L'Amour looks SOmething Like You" e meio que corta o clima, mas é curta e acaba não fazendo tanata diferença. "Them Heavy People", de letra assumidamente budista e outra reggatta, recupera maravilhosamente a vibração deste segundo lado e é, disparadamente, a melhor canção do álbum inteiro."Room For The Life" segura o pique e "The Kick Inside", sem muitas surpresas em relação ao que j´pa se ouviu até aqui, encerra o lado e o disco, de maneira correta e precisa.
Nada do que a cantora fez após The Kick Inside passou perto do sucesso, da importância e da relevância deste disco de estréia. Ainda que seus terceiro e quarto discos a transformassem definitivamente em uma estrela de renome mundial - o segundo, Lionheart, foi lançado de maneira equivocada logo em seguida ao primeiro e é pouco conhecido do público - é o seu excelente disco de estréia o alicerce para que Kate Bush escrevesse de forma definitiva o seu nome na história da música pop mundial.


O lado A abre com Moving, uma canção delicada com ênfase no piano na qual ressai com bastante destaque a voz impressionante da cantora. The Saxophone Song repete a dose acrescentada de uma melodia que vai crescendo até desaguar em um belíssimo solo de sax. Strange Phenomena é uma canção bela e estranha - é de se imaginar o que p A&R da EMI brasileira tinha na cabeça quando resolveu lançá-la como single. "Kite" é uma "regatta", como se chamam aqueles reggaes deliciosamente embranquecidos. "The Man With The Child In His Eyes" tem um pé na erudição sem nunca perder a pegada pop. "Whutering Heights" encerra o lado A, com um jeitão de deslocada.

Nada do que a cantora fez após The Kick Inside passou perto do sucesso, da importância e da relevância deste disco de estréia. Ainda que seus terceiro e quarto discos a transformassem definitivamente em uma estrela de renome mundial - o segundo, Lionheart, foi lançado de maneira equivocada logo em seguida ao primeiro e é pouco conhecido do público - é o seu excelente disco de estréia o alicerce para que Kate Bush escrevesse de forma definitiva o seu nome na história da música pop mundial.
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