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Dos Arquivos Empoeirados - Donnie Iris - Back On The Streets (1980)

Seu início de carreira foi medíocre, tocando guitarra em uma banda do enésimo escalão da música pop no final dos anos 60. Mesmo nos EUA, The Jaggerz jamais alcançaram grande sucesso, ainda que sua "The Rapper" tivesse arranhado levemente as paradas quando foi lançada, por volta de 1970.

Em 1979, ele fora convidado por Rob Parish para integrar a última formação do seu Wild Cherry, que tentava desesperadamente repetir o sucesso mundial de "Play That Funky Music" (inclusive, neste álbum, curiosamente intitulado "Only the Wild Survive", há uma canção chamada  "Keep On Playing That Funkyt Music"). Mas foi apenas em 1980, quando lançou seu primeiro álbum solo, deixando a guitarra de lado e focando na sua carreira de cantor, que Donnie Iris despertou de verdade a atenção da América para si mesmo.

O lançamento de "Back On The Streets" foi antecedido por  um single poderoso, "Oh Leah", que alcançou o 19º lugar nos EUA e 10º no Canadá. A canção, que seria regravada em 2015 pelo grupo Electric Six, se tornaria uma espécie de "assinatura" do músico até os dias de hoje. Finalmente, em julho, o pequeno selo Midwest Records, despretensiosamente, jogava no mercado o debút de Donnie Iris. A melhor posição alcançada pelo álbum seria  a 57ª, entre os 200 mais bendidos nos Estados Unidos, no início do ano seguinte, mas, ainda assim, foi comprado pela gigante MCA Records, três meses após seu lançamento.

Azar de quem nunca ouviu "Back On The Streets". A bolacha, bem enxutinha, traz 10 poderosas canções, perfeitamente antenadas com o power pop que se fazia à época, ainda que soasse um tanto mais "pesada" que os seus congêneres daquele tempo. Com a parceria afiada de Mark Avsec, tecladista do Wild Cherry, e de Marty Lee Hoenes, seu companheiro desde sempre nos Jaggerz, iris perpetrou uma das melhores estréias do "novo rock" que se tem notícia. O disco é deliciosamente dançante, de melodias grudentas e, se hoje soa datado, melhor ainda. Afinal todos os bons discos lançados nos últimos 15 anos são visivelmente carbonos da sonoridade de décadas anteriores.

riff demolidora de "Oh, Leah", que abre poderosamente o primeiro lado, deveria estar listadas entre as melhores riffs do rock em todos os tempos. "I Can't Hear You" é um "rockão" típico enquanto "Joking" é "new wave" em toda a sua manifestação e essência. Já "Shock Treatment" é um "roquinho" que lembra as melhores coisas dos Cars. "Back On The Streets", a faixa-título, é pesada e cheia, flertando com o thrash metal que só seria inventado alguns anos depois. Marty Lee, que tocou todas as guitarras deste disco, alguns anos depois, formaria o The Innocent, primeiro grupo de Trent raznor, fundador do Nine Inch Nails.

No lado B, um hit em potencial, desperdiçado, a saltitante e radiofônica "Agnes". "You're Only Dreaming" repete a fórmula "new wave", inclusive com direito a um safadérrimo órgão Farfisa, preferido de onze entre dez "new wavers" da época. "She's So Wild" é a mais "punk" do álbum, enquanto "Daddy Don't Live Here Anymore" é mais "bluesy". "Too Young To Love", a única balada do LP, com ares de um Bruce Springsteen bêbado e com mais raiva do que o habitual, encerra magnificamentea obra. Nas primeiras edições do disco, os lados aparecem invertidos, o lado A no lado B e vice-versa, mas certamente, "Back On The Streets" soa bem melhor da forma com que ficou conhecido.



A partir de "King Cool" o disco do ano seguinte, a banda passa a se chamar Donnie Iris & The Cruisers, chegando a ter outro hit regional com a canção "Do You Compute", que se tornou praticamente um jingle da empresa de games Atari nos Estados Unidos. Iris continua na ativa, aos 72 anos, esbanjando energia e vitalidade com seus Cruisers. Uma enorme pena não terem alcançado reconhecimento mundial.

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