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Disco do Ano - Ramones - Pleasant Dreams (1981)

A acusação mais grave que pesa sobre Pleasant Dreams, o sexto disco de estúdio dos Ramones, lançado em 1981, é que o instrumental não teria sido gravado pelo grupo, tendo o produtor Graham Gouldman os substituído por músicos de estúdio.  Outras acusações se seguiriam, como a de que a banda, finalmente, teria se vendido, buscando uma sonoridade mais "comercial" e mais pop.



Se a primeira  queixa não é absolutamente verdadeira - em sua biografia, Marky Ramone desmente e garante que, apesar da contribuição de um músico de estúdio aqui e ali, foram os próprios Ramones que executaram todas as canções - a segunda se mostra profundamente real. Cansados de não venderem discos, embora tivessem prestígio e credibilidade, desde o disco anterior, "End Of The Century", os Ramones buscavam uma aproximação com a "new wave". Para burilar a nova sonoridade pop dos quatro punks, a gravadora teria convocado ninguém menos que Phil Spector, um rock'n'roll hitmaker nato. O álbum anterior, porém, apesar de excelente, soou confuso demais para alcançar com exito as paradas de sucesso.




Graham Gouldman, compositor e vocalista da banda 10cc, está entre um dos que redefiniram o conceito de música pop para o final dos anos 70 e início dos anos 80. Sua influencia é sentida até hoje e é um daqueles nomes cuja ausência teria feito a música andar por outros caminhos. Se havia alguém que poderia costurar toda aquela barulheira e deixa--la pronta para as paradas de sucesso, era Gouldman. E o resultado foi realmente fantástico. Sem, em nenhum momento, deixar que a essência dos Ramones se perdesse, pariu um dos melhores discos do início da nova década. Se o LP não fez o sucesso que deveria, de fato, a culpa não foi do produtor.




Quando Pleasant Dreams chegou às lojas e emissoras de rádio, foi recebido com dupla desconfiança. Os DJ's não conseguiam achar uma faixa que fosse "suficientemente boa" para tocar e os antigos fãs não gostaram nada de ver toda a tosqueira hardcore, todo o barulho e toda a produção precária presente nos discos anteriores polida nas doze faixas do novo álbum.




Quem acabaria consumindo - e aprovando - o novo lançamento seriam os novos fãs - eu, inclusive - que a banda agregou a partir daquele disco. E ter conseguido estes fãs de última hora foi essencial para que a existência da banda se prolongasse por mais alguns anos. Ainda que, nos discos seguintes, os Ramones pesassem a mão em uma nova sonoridade que, algumas vezes, beirava o heavy metal, foi com "End Of The Century" e, principalmente, com Pleasant Dreams, que o grupo aprendeu a compor, deixando de lado os intermináveis "I Wanna" e "I Don't Wanna".




Me dei conta da existência dos Ramones em uma nota da revista Veja quando do lançamento no Brasil de "End Of The Century". Foi o primeiro disco da banda a sair no país e a revista os tratava como "roqueiros de histórias em quadrinhos". Antes mesmo de ouvi-los, o texto me convenceu a comprar a bolacha. Em uma visita a Salvador, voltei com eles debaixo do braço.



Foi um amigo que me mostrou o Pleasant Dreams, pela primeira vez, em edição importada e executado em um aparelho de som, à época, de primeira qualidade. Gravei um cassete com ele e, dali em diante e até a eternidade, seria, para sempre o meu disco preferido dos Ramones. Algum tempo depois, o vinil entraria oficialmente em minha coleção a partir de uma cópia argentina.




O lado A começa com "We Want The Airwaves", que cita os Doors ("we want the world and we want it now") mostrando, logo de cara, a que veio o grupo neste disco. A melhora na qualidade das composições já se faz evidente logo nesta primeira canção, de autoria do vocalista Joey Ramone, uma provável influencia de Gouldman, compositor de hits como For Your Love (Yardbirds) e No Milk Today (Hermans Hermits). "All Is Quiet in The Eastern Front" é pesada e rápida, mas ganha um quê de classe e charme em comparação às canções de discos anteriores compostas por Dee Dee Ramone. 




riff de introdução de "He's a Whore", do Cheap Trick, foi descaradamente chupada para compor "The KKK Took My Baby Away". Por anos, divulgou-se a história de que a faixa seria um desagravo de Joey ao companheiro Johnny, que teria lhe roubado a namorada, mas na sua biografia "Eu dormi com Joey Ramone", o seu irmão Mick Leigh desmente esta versão e diz que a "KKK", no caso, teria sido a mãe deles, que não permitiu o namoro do vocalista com uma moça negra.




A quarta faixa, "Don't Go", a minha preferida do disco, é um massive hit sessentista de refrão ganchudo, seguida por "You Sound Like You're Sick", de Dee Dee, pesada e rápida como são as suas composições. "It's Not My Place", entupida de The Doors, é mais fraca e encerra o primeiro lado sem comprometer.




Do outro lado, "She's a Sensation" foi o mais comercial que os Ramones puderam soar em toda a sua trajetória. Até hoje é uma espécie de hit alternativo e porta de entrada para novos fãs da banda. "7-11", uma grande canção, erra feio na mão, em um arranjo limpo demais para os padrões do grupo. "You Didn't Mean Anything", advinhem, é mais uma canção pesada e rápida de Dee Dee. Mas, é na seguinte, "Come On Now" que o baixista compositor realmente surpreende, transformando a faixa em um dos pontos altos do disco. 

"This Business Is Killing Me" e "Sitting In My Room" encerram o LP sem o mesmo brilho das demais mas com competência e responsabilidade de não deixar o ritmo cair.


Recentemente, a Rhino, selo da Warner dedicado a compilar e relançar discos clássicos do rock e da música pop, lançou uma edição de luxo como faixas a mais, farto libreto e uma curiosidade, a capa original do disco, feia de doer, com os quatro na capa. 35 anos depois, Pleasant Dreams continua fresco, parecendo ter sido gravado ontem. É um disco para a eternidade, que sobreviveu á morte de três dos quatro integrantes que o gravaram e sobreviverá, até mesmo, à morte do rock'n'roll. Longa vida ao rock, então, porque a imortalidade do melhor disco dos Ramones já está garantida.

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