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AMOR NO SUPERMERCADO

Há quem acredite que o único  amor possível  é aquele que é sempre idealizado e que apenas  enxerga as virtudes e jamais vê os defeitos da pessoa amada. Que o único amor que vale a pena é o amor envenenado pelo beijo do príncipe redentor ou da princesinha desacordada no bosque . Nem sempre esta idealização é meramente platônica  e muitas vezes acaba avançando  pelo campo da atração física. Assim, o ser amado é também o herói ou a heroína sexual, capaz tanto de levar o amante ao máximo do prazer assim como enchê-lo de mimos e carinhos eternamente. 

E tudo isto, diga-se de passagem, é culpa da arte, mais especificamente, em nosso tempo, da música popular e suas letras sonhadoras, cheias de devaneios e  completamente inverossímeis. No ideário da canção moderna, ou você está vivendo um grande amor, ou quer viver, ou já foi abandonado e quer voltar. Quase nenhum compositor canta as delícias da rotina, da repetição  e da banalidade. Até  porque não existe nada de delicioso em tudo isto. Mas a verdade é que não existe relação duradoura sem o tempero de uma certa insalubridade amorosa. E sim, isto é uma aparente contradição, mas é a maior manifestação da realidade romântica.

Não sou sexólogo amador ou ainda desejo ser um professor  de amor, mas tendo nas costas mais de três décadas de casado em cinquenta de vida  eu posso dizer do alto da minha pequena cátedra: O amor mais perfeito é justamente aquele que sabe reconhecer a beleza da imperfeição. Este amor é justamente aquele que resiste aos  boletos, aos filhos  e, principalmente, resiste ao tempo passado juntos repetindo sempre as mesmas coisas.

Eu costumo dizer que a paixão é a antítese do orgasmo. Explico: O orgasmo é o ápice da relação sexual e a paixão é como se o orgasmo viesse primeiro e o ato em si depois. Pois alguns apaixonados insistem sempre em alongar a fase da paixão  mais do que deveriam e se chocam com a rotina, com o eventual tédio e com a repetição mecânica da vida em comum. E é então que muitas relações simplesmente naufragam
.
Se eu pudesse dar um conselho aos que estão sempre reclamando que não estão vivendo ou nunca viveram um grande amor,  eu diria para encontrar alguém com quem goste de  fazer as coisas mais simples. Não procure alguém com quem queira conhecer a Europa. Procure alguém com quem queira fazer coisas triviais como ir ao supermercado ou dar uma volta na cidade. Nada impede que vocês conheçam juntos o velho continente algum dia, mas, primeiro, façam uma tour ao atacadão mais próximo. Se você sentir um prazer sincero em  estar ali com aquela pessoa, parabéns, você provavelmente encontrou o amor da sua vida.

Procure alguém com quem você realmente se sinta bem ao lado. Procure a mulher que pergunta se você quer café pela manhã ou o homem que te surpreende ao acordar com a louça lavada. As pessoas costumam medir seus parceiros pela performance sexual. Na verdade, apenas estão fugindo da medida verdadeira: A de quanto o seu amor resistirá à percepção da rotina. 

Muitos amores acabam por falta de paciência. Somos seres eternamente impacientes, sempre  em busca do grande amor, daquele que será o romance de nossas vidas. Mas o verdadeiro romance para a vida toda  é aquele que será cultivado como se cultiva uma pequena planta e que vai crescendo até virar árvore. É o amor em que você se vê não apenas nas virtudes, mas também  nos defeitos do outro. E busca dedicar  a  este outro o mesmo amor que tenta dedicar a si mesmo.



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