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CARINHO E CONFORTO


Outro dia eu me dei conta de que não guardo um amplo registro fotográfico da minha vida em um rechonchudo álbum de fotografias para chamar de meu. Uma referência visual onde os que sobreviverem a mim pinçarão fotografias para serem expostas em meu funeral. As tais garantias que, sim, eu era uma boa pessoa e tive uma vida feliz.  Eu nunca tive, de fato, nem a vida assim tão feliz nem as tais fotografias que marcariam os grandes momentos da minha vida. Talvez eu estivesse tão ocupado vivendo os bons e os maus momentos que, simplesmente, esquecia de registrá-los.
 
Havia também a questão da infância pobre,  quando ainda não existiam máquinas portáteis ou eram caras demais,  onde tirar uma foto era um acontecimento tão raro que merecia fotógrafo profissional,  roupa nova e perfume no corpo. Mais tarde, com a popularização das maquininhas, fotos não foram um costume em minha casa e também, continuava a não  haver dinheiro para tais luxos. Assim, apareço muitas vezes borrado nas fotos tiradas por amigos, colegas de trabalho e parentes mais abastados. Assumo que não registrei a contento a vida escolar, a faculdade, os empregos, os namoros e minhas poucas viagens. 


E assim, para visitar meu passado,  sou dependente eterno das fotos emprestadas dos amigos. Algumas eu nunca cheguei a ver ou foram simplesmente esquecidas. O fato é que, sim, há poucos registros da minha passagem pelo universo.

O consolo é que tive muitas fotos tiradas durante o primeiro casamento. Há muitos fotogramas da vida em família de então. Era um momento  onde já havia mais dinheiro, um filho crescendo e muitos instantes em comum a serem fotografados. Já com a segunda esposa - e última namorada - foi bem diferente pois eu tratei de adquirir uma máquina digital logo no início do namoro. Com a facilidade das fotos digitais, guardadas no HD, onde bastava apagar os enquadros indesejados,  a coisa mudou de figura. Finalmente eu teria uma vida registrada para a posteridade. 

E temos inúmeros momentos para recordar, inclusive o da primeirissima foto, a  tal fotografia nº um. É muito curioso ver o quanto mudamos nestes anos todos. Eu de costeletas e barba por fazer, ainda sem a escravidão dos óculos de grau, e ela tão jovem que mesmo com alguns bons anos de vida já corridos, ainda parecia uma menina.

Não lembro onde a foto foi tirada nem quem a tirou, há apenas suspeitas de quem e onde foi. Nem mesmo ela se lembra. Mas aquele momento único ficou eternamente registrado. E é para isto mesmo que servem as fotografias. Não é para serem um registro burocrático do fato em si. Não é para serem leituras literais de nosso passado. São para serem estranhadas, sendo as medidas de nossas constantes mudanças até  o presente.

E foi então que eu cheguei à conclusão de que nunca quis ter de verdade os momentos da minha vida registrados estes anos todos. Pelo menos até que encontrei ela, a minha eterna e última namorada, a minha atual esposa. E foi com ela que eu vislumbrei a rotina às vezes doce, às vezes azeda, mas  absolutamente comum das pessoas  normais. A rotina que sempre rejeitei vida afora, a que é perfeita para ser transformada em  papel fotográfico amarelado ou frios arquivos digitais.

Um amigo me diz que nosso relacionamento, o meu e dela, parece com uma propaganda de amaciante de tão previsível que é. Roupas de camas, toalhas, cuecas e calcinhas - todas macias e perfumadas - e nós cheirando aquela roupa em cima da cama, as jogando para cima, suspirando e sentindo uma estranha felicidade. Ao fundo toca uma canção clichê enquanto uma voz suave anuncia a marca e o slogan. Tudo o mais doméstico e rotineiro possível. 

Já quis ter muitas relações com uma certa dose de aventura e risco. Acreditava que elas tinham que ser especiais e diferentes como eu mesmo me achava especial e diferente. Ora era a mulher bem mais velha, ora o choque cultural de namorar  uma estrangeira, ora alguém que morava distante demais para que pudesse dar certo. Mas talvez não fosse nada disso. Talvez fosse apenas a fuga do risco de viver as felicidades e infelicidades do dia a dia e da vida em comum. Senão eu teria registrado os meus relacionamentos  com fotos  para uma posteridade que não sei se chegaria. Sem as fotos, eu que determinaria se foram momentos felizes ou náo, não o papel fotográfico. 

Hoje, parafraseando a garotada millennial e sua teimosia em querer o mundo apenas do seu jeito, vai ter propaganda de amaciante sim. Vai ter rotina, vai ter  foto bonitinha, vão  ter lembranças reais. Citando as duas marcas de amaciante mais famosas, vai ter muito carinho e conforto. É tudo que se quer, como diz a letra da música de mesmo nome da banda gaúcha Cowboys Espirituais. 

E eu cansei há muito de remar contra a maré. Cansei de querer amores intensos demais, sofridos, difíceis,  impossiveis ou desafiadores. Amores lavados à mão na beira de um rio com sabão de pedra ou na máquina de lavar sem os devidos cuidados. Hoje eu tenho um relacionamento que pode ir à máquina e não esgarçar ou desfiar. E  pode ser documentado com fotos   também. 

A centrífuga da máquina de lavar gira sempre para o mesmo lado e o compartimento de espalhar o amaciante funciona sempre, ainda que esqueçamos de abastecê-lo. Melhor a roupa cheirosa e macia com uma dose calculada de amaciante do que  áspera, ainda que esteja limpa. Melhor o risco da rotina do que a rotina do risco. E eu aprendi isto justamente  olhando para as fotografias que nunca tirei.


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