O ano era 1984 e todos respirávamos aliviados porque o tal estado fascista delineado por George Orwell para este ano não havia se concretizado. Eu cursava o terceiro ano do ensino básico em um colégio com nome de filme de rock e lá, os professores fingiam que ensinavam, os alunos fingiam que estudavam e o dono da escola passava longe de fingir cobrar a mensalidade dos que atrasavam. O desastre era iminente. Tudo indicava que todo mundo, ou quase todo mundo, iria levar bomba no vestibular e o colégio seria, naquele ano, campeão de reprovação. Eis que o diretor, um clone ruivo de Freddie Mercury, resolve vazar as provas de recuperação para evitar o mal maior. Ainda assim, de toda a turma, apenas três passaram no vestibular e um deles era eu.
Eu pretendia cursar Publicidade e Propaganda e acreditava que aquela era mesmo a minha vocação. Acontece que eram os anos 80, não havia ainda as uniesquinas da vida e a Bahia não tinha este curso. Fiquei indeciso entre Psicologia e Jornalismo, tendo optado pelo segundo apenas porque era o curso menor, de apenas três anos de duração. Para o meu azar, justamente naquele ano, o curso de jornalismo passara a ser de quatro anos, mas não havia nada a fazer. Eu já estava matriculado.
Voltemos a 1979. Eu costumava almoçar com minha mãe em seu trabalho, depois da escola, e ficar por lá mesmo até a hora de ir embora. Eis que encontro na sala do seu chefe um material bastante curioso. Folhetos do Mahavishnu (sim, aquele dos Beatles), dos Hare Krishna, de uma seita ufológica que pregava a vinda de um tal Ashtar Sheran, além de um livro da Cultura Racional. Socialista que já era, ainda que sem me dar conta, resolvi expropriar aquele burguês do interessante material e levei tudo para casa, para um exame mais tranquilo de toda aquela espiritualidade esquisita. Eu, que havia feito minha própria primeira comunhão - entrei na fila e comunguei, sem a preparação devida em um ato de pura rebeldia angelical - agora me deparava com todo aquele exotismo religioso desconhecido.
Visitei o sítio que os adeptos de Krishna tinham aberto nos arredores de minha cidade, fui na casa do maluquinho que pregava a vinda do ser espacial e li o livro da Cultura Racional. Deste último, não entendi uma palavra. Anos depois, já adulto, leria de novo e aí sim! Continuei sem entender nada. Do doidinho que acreditava em disco voadores, ganhei umas histórias em quadrinhos toscas sobre o caminho mais rápido para o manicômio. Já os Krishna, estes sim, me pegaram pelo coração. Cheguei até a ser um adepto anos mais tarde. O tal guru dos Beatles não se interessou em abrir uma filial em Feira de Santana e eu fiquei sem brincar de Sexy Sadie.
Conto tudo isto para dizer que nunca fui facilmente cooptado por seitas ou cultos, pelo menos não a longo prazo. E foi assim que, em 1982, eu fui apresentado ao comunismo. Me convidaram para fazer parte da Libelu, a Liberdade e Luta, puxadinho do PT que se tornaria o PSOL, que mudaria de nome, viraria partido mas não perderia a mania de ser puxadinho. Um político de direita alertou minha mãe que tomasse cuidado pois eu era comunista. Anos depois, este mesmo político se filiaria ao PT. Coisas da vida.
Mas não demorou muito e eu percebi a furada que era ser comunista. Eu já não comia ninguém por natureza e estudando os rumos da luta armada, pior ainda. Era melhor virar roqueiro. E virei. Aí conheci o anarquismo.
Foi com esse espírito anarquista que adentrei a FACOM, a faculdade da comunicação da UFBA, em 1985. Eu debatia com a esquerda, brigava com a direita, pichava "Cultura Branca" no banheiro apenas para ver o pessoal do movimento negro pirar e dizer que a FACOM estava cercada de fascistas. Eu praticava a tal da ação direta sem nenhum pudor.
Mas a escola de comunicação não era apenas anarquia. Tive mestres mais à esquerda e outros mais à direita mas nenhum deles me ensinou a mentir. Nenhum deles me disse para escamotear a verdade. Nenhum me incitou a forjar narrativas nem ficar de lado de político algum. Salvo, claro, se me tornasse assessor de imprensa de algum deles.
Hoje eu assisto o jornalismo na TV, nas redes, no YouTube e percebo que o jornalismo que eu aprendi na faculdade morreu. Não se faz mais jornalismo. Se faz narrativa. Antigamente, "no meu tempo", quebrar sigilo de fonte era algo impensável. Nenhum jornalista que se preze ficaria ao lado dos militares ou de qualquer politico em uma situação assim. Hoje, existem as narrativas. Explicações mirabolantes para referendar o ato questionável de alguns ministros do STF colidem com tentativas de transformar o jornalista que teve seu sigilo de fonte quebrado em herói apenas por ter acusado um ministro. E a cereja do bolo são os comentaristas de YouTube, ajudando na desinformação.
E não ficamos sabendo claramente, com a devida isenção, de forma direta, se estamos adentrando um estado pré-ditatorial ou protegendo os tão decantados valores democráticos. Mas a impressão que fica para este velho jornalista, independente se o ministro é um injustiçado ou o jornalista é um herói da democracia, é que o jornalismo, finalmente, morreu e que 1984 demorou mas chegou. O jornalismo morreu e, por mim, antes ele do que eu, que já sou velho demais para a ação direta. Deixo para Enzo e Valentina a tarefa de consertar essa lambança toda.

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