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O BEATLE TIM NO REINO DA JOVEM GUARDA.

Antes de serem descobertos  pelo empresário Brian Epstein e contratados pela tradicional gravadora Parlophone, os Beatles não passavam de uma sofrível banda de guitarras.  Uma audição atenta e imparcial dos hoje famosos Decca Tapes, gravação pirata encontrada em qualquer programa de troca de arquivos de áudio, e somos obrigados a concordar com John Lennon: A única coisa que se salva daquela gravação é a entusiasmada interpretação de George Harrison para o standard “Sheik Of Araby”. 

Certo que eram curiosas e criativas as “versões rock and roll” de coisas escritas décadas antes, mas aí é que estava o problema: O esquema “recriação de canção antiga no novo ritmo jovem” já havia mesmo se esgotado no Reino Unido. Nem a insólita versão de Besame Mucho, cantada por Paul, salvou a pátria. Os Beatles foram solenemente recusados pela Decca Records com a justificativa mais correta do mundo em 1962: A de que bandas como a deles estavam mesmo saindo de moda.

Os Beatles que seriam contratados pela Parlophone algum tempo depois já tinham muito mais tempo de estrada, já tinham sido abduzidos pelos novos sons que vinham da América via Motown, e, principalmente, já não eram mais uma limitada banda de rock and roll.

Graças a Brian Epstein, os Beatles  tinham se adaptado, e muito bem,  à nova cena britânica, de bandas e artistas como Gerry & The Pacemakers e Billy Jay Kramer., bem mais pop e menos barulhentos. O sucesso foi instantâneo e aí é que realmente começa a história e a histeria da beatlemania

Com certeza, se tivesse posto as mãos nos Beatles de 63, aquele executivo da Decca que os rejeitou, desta vez os contrataria. Da mesma forma que certamente rejeitaria os Stones antes e os contratou no ano seguinte: Em 64, bandas de blues, ou bandas que macaqueavam o blues americano, eram o último grito da moda no mundo da música inglesa.

No  Brasil, mais ou menos na mesma época, encontramos um jovem interiorano sendo recusado de absolutamente todas as gravadoras cariocas, ora por ser um mero clone de João Gilberto, ora por sua voz um tanto anasalada (que muitos afirmavam ser “fanha”). O fato é que Roberto Carlos penou, e penou muito, até se tornar o grande ídolo da juventude, o rei do iê-iê-iê, alguns anos depois. 

Enquanto Roberto estourava nas paradas de sucesso de todo o Brasil, um garoto tijucano, recém expulso dos EUA por roubo de carros, um tal Tião da Marmita, certa vez o procurou pedindo uma chance no meio musical. Haviam tocado alguns anos antes no mesmo grupo vocal, no final dos anos 50. Roberto, em meio ao turbilhão da fama recém-conquistada, parou, conversou com Tião, deu-lhe uma bota nova e ainda ofereceu algum dinheiro, jogado ao chão por um secretário particular que certamente estava cansado de tantos “Tiões” atrás de Roberto para tirar uma casquinha de seu sucesso. Bem, isto é o que a pós-verdade registrou. O que as revistas da época disseram é que, Roberto, feliz por reencontrar o amigo Tião, recriou o grupo Sputniks com Erasmo e o futuro Tim em um dos episódios do programa Jovem Guarda. Há, inclusive, uma foto que prova isto. Mas que prevaleça a pós-história.

Algo me diz que, se Roberto tivesse se empenhado e conseguido “uma chance” para o  seu amigo Tião da Marmita, talvez nosso futuro Tim lançasse um ou dois compactos obscuros e sumisse para sempre no mesmo limbo onde estão José Ronaldo, Carlos Gonzaga, Baby Santiago e, Geraldo Nunes.  Talvez, se Roberto não fosse tão naturalmente humano naquele encontro, se importando um pouco mais do que a história conta, o mundo jamais veria o gênio Tim Maia. Jamais veria porque, naquele momento, Tim Maia ainda não existia. Ou, pelo menos, ainda não tinha se libertado completamente de seu criador, um tal Sebastião Rodrigues Maia.

O fato é que, quando Roberto se dispôs a dar a tão polêmica chance ao Tião da Marmita, recusou a baladinha fácil, embora pungente,  que Sebastião fez sob medida para ele e quis gravar algo bem “funky”, bem  mais a cara do amigo Tião. Neste momento, nem Roberto nem Sebastião sabiam,  mas fez-se a luz e o mundo começou a conhecer Tim Maia.

Sem dúvida, eu  até poderia seguir a onda do cancelamento compulsório e  tentar crucificar Roberto Carlos. Assim como poderia crucificar um Tim Maia  já famoso , que se negou  a ajudar seu sobrinho Eduardo Mota, que, aliás, já nasceu Ed Motta. A negativa do tio causou uma  rusga entre tio e sobrinho que jamais foi cicatrizada. Mas é melhor não crucificar ninguém. 

O  fato incontestável é que Não Vou Ficar, de autoria de Tim, não só foi um sucesso estrondoso na voz de  Roberto, como definiu toda a orientação musical da carreira do Rei até 1977, quando Roberto deu a guinada romântica que o transformaria em uma caricatura de si mesmo. Quanto a Tim, a gravação de Roberto jogou os refletores sobre ele e , daí em frente, para o bem e para o mal, o ex-Sebastião foi senhor  absoluto da carreira artística de Tim Maia.

É  bom lembrar que, até a  gravação do  antológico CD  Tim Maia Ao Vivo, pela Warner, e o disco seguinte, Tim Maia Romântico, pela Som Livre, Tim Maia era apenas um arremedo do que tinha sido nos anos 70.  Falido, esquecido e ridicularizado – você pode usar “satirizado”, se quiser -  até mesmo pela trupe Casseta & Planeta, Tim disparou sua metralhadora cheia de mágoas contra tudo e contra todos.  

A gravação de dois CDs de sucesso em um momento crucial de sua carreira o resgatou de um injusto esquecimento futuro. A morte, a mitológica instabilidade emocional e, sem dúvida, a sua genialidade ímpar,  o transformaram em uma lenda morta da MPB.  Sobrou para Roberto Carlos, que, de uma hora para outra, se viu na incômoda posição de vilão global por conta de um diretor de cinema enraivecido com a alegada mutilação de sua obra.

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