O rock se acha muito importante. Aliás,
eu também acho o rock muito importante. Tanto que começo um texto sobre os 30 anos da axé-music, fenômeno pop-musical
dos anos 80 na Bahia, falando de seu principal opositor, o rock. Aliás o rock
se opõe a tudo que julga inferior a ele mesmo e bajula tudo que lhe é sabidamente superior. Assim,
lá fora, o rock paquerou o jazz, a música
erudita e até mesmo o country e tratou o
hip-hop e o rap como sonoridades quase irrelevantes.
Aqui no Brasil o rock cortejou a MPB e controverteu toda a música que
conseguiu mais espaço que esse estilo na mídia.

E eis que, naquele longínquo ano de 1985, surge uma figura andrógina, de pés descalços e gestos um tanto
afeminados, cantando uma música sobre uma “nega do cabelo duro que não gosta de
pentear”. A canção era um artefato pop perfeito, com uma melodia grudenta, um
refrão empolgante e o gosto de novidade. Não deu outra: Luiz Caldas deu o
pontapé em uma manifestação pop e, ainda por cima, popular - são coisas diversas -, legítima, oriunda da porção mais pobre da
sociedade.
Saído dos grotões dos subúrbios ferroviários e dos bairros negros de Salvador, logo o novo estilo foi batizado com o nome com que se tornou conhecido. O nome de batismo foi dado desdenhosamente pelo jornalista Hagamenon Brito, incentivador da cena roqueira baiana e a intenção era a pior possível: Ridicularizar aquela música “mal-feita”, “sem qualidade” e “comercial”,e, porque não dizer, "de pobre". Deu errado. A mídia comprou o termo sem pagar royalties a Hagamenon e a axé-music cresceu, enquanto o rock diminuía no país inteiro.
Saído dos grotões dos subúrbios ferroviários e dos bairros negros de Salvador, logo o novo estilo foi batizado com o nome com que se tornou conhecido. O nome de batismo foi dado desdenhosamente pelo jornalista Hagamenon Brito, incentivador da cena roqueira baiana e a intenção era a pior possível: Ridicularizar aquela música “mal-feita”, “sem qualidade” e “comercial”,e, porque não dizer, "de pobre". Deu errado. A mídia comprou o termo sem pagar royalties a Hagamenon e a axé-music cresceu, enquanto o rock diminuía no país inteiro.
Hoje em dia, observando do alto de três décadas, podemos rever e reouvir as canções que marcaram o período
áureo do axé com a isenção que só o tempo pode oferecer. Até mesmo o mais
ranheta dos roqueiros irá concordar que havia, sim, muita coisa de boa qualidade na produção daquela
época. Bamdamel, Banda Reflexu’s, Chiclete com Banana, Olodum, estiveram na
linha de frente com uma coleção de hits memoráveis que até hoje ecoam em nossos
ouvidos. Claro que havia o "lixo", pois material de baixa qualidade há em
qualquer estilo. Mas a axé-music com sua mistura intuitiva de música pop e
ritmos locais, escreveu o seu lugar na história.
Ainda mais notável é a qualidade
daquelas canções, principalmente se comparadas à produção da música baiana atual. Hoje, extirpou-se
a harmonia, amputou-se a melodia, encurtou-se as letras a ponto de se tornarem
mantras quase sem nenhum sentido. O que se faz hoje na Bahia não pode sequer ser
chamado de axé-music porque não se parece em nada com aquelas musiquinhas de refrãos pegajosos que adorávamos odiar. É
uma espécie de “pós-axé”, também conhecido como
“pagodão”, com bandas de mais de uma dezena de integrantes e uma pobreza
musical inversamente proporcional à quantidade de músicos envolvidos.
Talvez, daqui a mais três décadas,
estarei aqui saudando os 30 anos de pagodão e reclamando da
produção baiana do futuro. Espero sinceramente que não, porque será sinal de
que a música de lá caiu vertiginosamente de qualidade. Talvez, até eu e o tempo estejamos sendo mesmo condescendentes com a axé-music.
O fato é que hoje, pelo menos uma dúzia de canções “clássicas” do estilo
frequenta minha mp3teca e as ouço com prazer, algo impensável trinta anos
atrás. Que se comemore intensamente as bodas do axé. Que se toque a velha e boa axé-music pelas esquinas o ano inteiro. Eu vivo na Bahia e meu ouvido agradece.
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