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PROTEJAM AS BOLAS, AQUI VÃO OS SEX PISTOLS.

Não tem jeito. A história do rock não se divide em antes e depois do Led Zeppelin, por mais importante que o grupo de Plant e Page tenha sido. Muito menos em antes e depois de The Cure, The Clash, The isso ou The aquilo. O rock nunca mais foi o mesmo depois de 1977. E não adianta argumentar, com toda a razão, que os Sex Pistols eram uma pálida imitação dos Heartbreakers de Johnny Thunders ou dos New York Dolls do mesmo Thunders e de David Johansen. É isso aí mesmo. Os Pistols não devem ser julgados pela competência musical e sim pela revolução que os cinco delinquentes londrinos provocaram no cenário do rock inglês ou de qualquer outra parte do mundo. 

Mas vamos baixar um pouco a bola dos ingleses. O punk, ao contrário do que muita gente pensa, não começou com os Pistols. A palavra "punk", designando um estilo musical, surgiu quando "Handsome Dick Manitoba", guitarrista da banda nova-iorquina The Dictators, declarou que aquele som tosco que seu grupo fazia era nada menos que "punk rock", algo como "rock de maricas". Ainda era 1975  quando os Dictators soltaram Girls Go Crazy e, mesmo assim, não poderiam ser considerados inventores do estilo. 

Cinco anos antes, quatro maluquetes de Detroit, fissurados por The Troggs, uma banda da metade dos anos 60, geralmente citada como "avós do punk", soltaram um disco barulhento, pouco melodioso e muitíssimo mal gravado. A banda, "The Stooges", (os patetas), entraria para a história como o berço do "pai do punk", Mr. Iggy Pop. Entre 75 e 76, o inglês Malcom McLaren estava morando em Nova Iorque, à procura da "next big thing", a banda que iria pôr o mundo de cabeça pra baixo e ainda faturar alguns bons trocados, deixando rico quem tivesse a sorte de ser seu agente.

Malcom enxergou a oportunidade de ouro quando o grupo New York Dolls tentou se reformular após dois discos que não haviam acontecido. McLaren pegou os cinco rapazes que gostavam de se vestir de mulher e enfiou-lhes modelitos vermelhos, com direito a apologia ao comunismo e tudo o mais. Os Dolls, que já vinham mais pra lá do que pra cá, afundaram de vez com a pequena ajuda do amigo inglês. Malcom retorna para Londres, frustrado mas não derrotado. Quem sabe lá ele encontraria a banda que lhe daria seu tão sonhado milhão de libras? 

Em Londres, o empresário, que era  casado com a estilista Vivien Westwood,  abriu a loja "Sex", onde vendia basicamente roupas de couro preto. Seu funcionário, Glen Matlock, frequentemente recebia a visita de dois amigos, Paul Cook e Steve Jones, que além de atrapalhar o trabalho do balconista, ocasionalmente levavam algumas peças pra casa sem pagar. Malcom enxergou neles a banda que procurava. Só havia um pequeno problema: Nenhum dos três sabia tocar absolutamente nada. Este irrelevante impedimento seria solucionado com a entrada em cena de Chris Spedding, talentosíssimo guitarrista inglês, que aceitou a incumbência de fazer com que os três projetos de punks aprendessem algum instrumento. 

Paul Cook logo tomou conta da bateria enquanto Steve Jones e Glen Matlock, que, verdade seja dita, já tinham alguma noção de violão e guitarra, se digladiavam pelo posto de contra-baixista. Jones acabaria assumindo a guitarra. Duas semanas depois, os "Sex Pistols" já estavam ensaiando no estúdio de Spedding. Faltava apenas um vocalista. O posto foi preenchido por um garoto corcunda de voz esganiçada e dentes podres. Malcom Laren o batizaria de Johnny Rotten. Os Pistols foram vendidos pelo que valiam e comprados pelo que se pensava que valiam. 

A princípio, a banda não deveria passar de um grupo de rock "moderno", com letras políticas e atitudes ultrajantes, pero no mucho. Quando um apresentador da TV Inglesa os incitaram a dizer palavrões no ar, a parte conservadora da Ilha declarou guerra à banda e o que se viu, se por um lado ajudou a construir a lenda dos Sex Pistols, por outro fechou todas as portas para o grupo. Tudo na vida dos Sex Pistols passa a ser extremamente difícil: Shows são cancelados, contratos com gravadoras desfeitos, seus integrantes são atacados na rua e presos por perturbação da paz, mesmo que não estejam fazendo nada de errado. 

Matlock pede o boné e McLaren inventa que o baixista teria sido despedido por ter afirmado gostar dos Beatles. Em seu lugar, coloca o baterista do grupo Siouxie And The Banshees, um tal de Sid Vicious. Ter trocado alguém com tanta musicalidade como Matlock, que havia se revelado um baixista mais do que regular, por um nerd que mal conseguia empunhar o baixo, não foi, definitivamente, a melhor ideia da vida do empresário. Fora Rotten, que era amigo pessoal de
Sid, ninguém na banda concordava com a permanência do novo integrante. 

Assim, as gravações do que viria a ser o único álbum dos Sex Pistols tiveram que ser realizadas sem a presença de Sid Vicious, que ainda não dominava o instrumento (e jamais o dominaria, diga-se de passagem). Neste período, Vicious, que tinha este apelido ("péssima influência", e não "viciado", como muitos pensam) justamente por ser um babaca do qual todos gozavam, conhece Nancy Spugen

Nancy, figura carimbada do underground nova-iorquino, apresenta as drogas pesadas a Sid Vicious. Sid desiste de aprender a tocar baixo e passa os shows se cortando e esmurrando o instrumento. Um ensandecido McLaren resolve enviar sua trupe para uma turnê pelos EUA, por pequenos clubes de pequenas cidades, esperando que, com isso, a banda chame a atenção da imprensa americana. A desorganização, as brigas com a plateia e a crescente tensão entre os integrantes fizeram com que Johnny Rotten abandonasse tudo e voltasse para Londres. Jones e Cook viajam para o Rio de Janeiro para encontrar Ronald Biggs enquanto Sid e Nancy vão para Nova Iorque, onde Vicious tenta, sem sucesso, iniciar uma carreira-solo. 

Os Sex Pistols acabam. A morte de Sid Vicious, em março de 1979, transforma os Pistols , definitivamente, em lenda. McLaren licencia diversos produtos com a marca da banda e finalmente ganha seu milhão de libras. Em 1996, a banda passa a ser dona da própria marca e se reúnem com a formação original. Saem em turnê, passando inclusive pelo Brasil e lançam um disco ao vivo. É a vez deles, afinal, ganharem seu milhão de libras.

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