Há quem componha versos e nunca consiga pensar - e, naturalmente, compor - em primeira pessoa, sem ter necessariamente vivido aquela experiência. Há quem se especialize em traduzir, em letras ou poemas, a vida e o cotidiano alheio. Admito que é um exercício interessante somatizar as angústias, as alegrias, as frustrações de alguém, e transformá-las em uma canção. Tal canção não seria falsa, pois ela expressaria sentimentos possíveis, mas, sem dúvida, o seu autor seria um charlatão. Ou, no mínimo, um ator. Ou até mesmo um escritor, alguém que consegue colocar pensamentos díspares do seu na boca de seus personagens.

Há quem cave mais fundo a sepultura das canções impessoais e se torne escravo de seu próprio personagem. Há compositores geniais, submissos a seus alter egos nem tão geniais assim. Há Júpiter Maçã e Rogério Skylab, duas entidades do espaço que, aliás, recentemente protagonizaram um espetáculo extracurricular em um canal de TV, que prova o que eu digo sobre tal escravidão aos estereótipos. Flávio e Rogério são obrigados pelas entidades que criaram para si, a compor em um determinado formato pelo resto de suas vidas. Se tentarem trocar de camisa, correm o risco de serem rejeitados pelo seu público.
Dylan, Apple, Marley e Skylab podem até não ser tão honestos assim no papel de compositores. Provavelmente, muitas vezes se sentiram obrigados a tratar de um determinado assunto em uma canção, sobre o qual, livres de quaisquer amarras, jamais falariam. Mas suas canções sim, não importa do que tratem, são absolutamente sinceras. E este é o encanto da música. Ela ganha vida própria depois de parida. E então, se você não bebe e faz uma música cuja letra diz que você está bebendo demais, todos que a ouvirem irão acreditar piamente que você é um alcoólico consciente. Porque este é o poder de quem compõe: Transformar mentiras verdadeiras em verdades mentirosas e verdades em verdades maiores ainda.
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