Perto de onde eu moro vive um doido. “Doido” é como chamamos
genericamente, aqui na minha cidade, os moradores de rua. Aqueles que, de tanto que os vemos,
se tornam parte inevitável da paisagem, como uma árvore ou um poste de eletricidade. A
comparação com seres inanimados é proposital. De fato, preferimos fazer de
conta que não os enxergamos, como se fossem seres tão distantes de nós, de
outra espécie ou gênero.
O doido que mora perto de minha casa, “mora” na frente de um
bar abandonado, em uma esquina. A paisagem
é devastadora: Lixo, restos de trapos de
roupas que o doido veste, restos de alimentos que as pessoas dão ao doido, e o
próprio doido. Uma certa vez, uma amiga que trabalhou com moradores de rua me relevou o universo dos que
abandonam tudo para sair pelo mundo: Se desfazem de tudo que têm, rasgam os
documentos, se tornam invisíveis aos olhos da família, da sociedade e somem. Não querem ser achados, querem ser
absolutamente esquecidos.

O doido não gosta de mim. Sinto isso toda vez que passo por
ele na rua. Andarilho, um dia o doido tentou entrar no meu estabelecimento comercial - talvez até para pedir socorro - e eu o expulsei. Possivelmente o doido lembra muito bem disso. Mas o doido não é assim tão doido e me respeita. Passo por ele e não se manifesta de maneira alguma. E eu correspondo o seu silêncio o ignorando. Ou finjo que o ignoro, pois se o ignorasse não
estaria aqui escrevendo sobre ele.
Eu sei bem que estou errado. Deveria acolher o doido, mas não
sou generoso o suficiente para isto. Também, jamais o atacaria, ou queimaria
vivo, como fazem alguns de meus pseudo semelhantes. Gostaria de sair desta maldita
neutralidade em relação a ele e a todos os doidos da minha cidade. Gostaria de
ser aquele a lhes estender a mão, a dar-lhes alguma esperança. Mas, como naquela canção de Dylan e contrariando Roberto Carlos, este cara
não sou eu. Por isto, faço como a maioria das pessoas e, admito: Eu o ignoro.
O doido pouco deve falar. De vez em quando o pego
balbuciando alguma coisa, mas sempre muito baixo para que se possa entender o que
ele diz. Também não sei se me
interessaria por suas palavras. O doido, de certa forma, me agride com seu
silêncio, com sua inação. Fosse agressivo, eu teria um bom motivo para
detestá-lo. Mas ele se cala, e junto com
seu calar, vem o incômodo. O silêncio do doido é mais mortal que qualquer
palavra.
Um dia, um outro doido, enquanto remexia o lixo de minha casa, se dirigiu
a mim, me perguntando se eu era “o pai de Stephen”. Curioso e preocupado,
perguntei a ele de onde conhecia o meu filho:
“- Ele sempre me dá café com pão e conversa comigo, quando passo na casa dele”, assim ele respondeu. Fiquei alegre e triste ao mesmo tempo. Alegre porque fiz em meu filho alguém bem melhor que eu, capaz de fazer o que eu não consigo fazer. Triste porque talvez tudo o que os doidos precisem, mais do que roupas velhas e restos de comida, seja uma palavra nova.
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