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EU E O DOIDO.

Perto de onde eu moro vive um doido. “Doido” é como chamamos genericamente, aqui na minha cidade, os moradores de rua. Aqueles que, de tanto que os vemos, se tornam parte inevitável da paisagem, como uma árvore ou um poste de eletricidade. A comparação com seres inanimados é proposital. De fato, preferimos fazer de conta que não os enxergamos, como se fossem seres tão distantes de nós, de outra espécie ou gênero.

O doido que mora perto de minha casa, “mora” na frente de um bar abandonado, em uma esquina.  A paisagem é devastadora:  Lixo, restos de trapos de roupas que o doido veste, restos de alimentos que as pessoas dão ao doido, e o próprio doido.  Uma certa vez,  uma amiga que trabalhou com moradores de rua me relevou o universo dos que abandonam tudo para sair pelo mundo: Se desfazem de tudo que têm, rasgam os documentos, se tornam invisíveis aos olhos da família, da sociedade e somem. Não querem ser achados, querem ser  absolutamente esquecidos.

Observo o doido em sua doidice e muitas questões me vêm à cabeça: Quem era ele  antes de se tornar um doido? De onde veio? Como alguém que vive em condições tão precárias  de higiene consegue ter o mínimo de saúde para  sobreviver mais um dia? Certa vez o doido usava um calçado feminino de florzinha e fiquei pensando que, na falta de um calçado digno, o doido jogou para cima todas as convenções sociais. O universo do doido é um outro universo dentro do nosso. O doido  urina na sarjeta. Tira o pênis para fora com a naturalidade de uma criança, ou a irreverência de quem não reverencia mais nada. E volta para a calçada e senta, esperando o nada esperar.

O doido não gosta de mim. Sinto isso toda vez que passo por ele na rua. Andarilho, um dia o doido tentou entrar no meu estabelecimento comercial - talvez até para pedir socorro - e eu o expulsei.  Possivelmente o doido lembra muito bem disso. Mas o doido não é assim tão doido e me respeita. Passo por ele e não se manifesta de maneira alguma. E eu correspondo o seu silêncio o ignorando.  Ou finjo que o ignoro, pois se o ignorasse não estaria aqui escrevendo sobre ele.

Eu sei bem que estou errado. Deveria acolher o doido, mas não sou generoso o suficiente para isto. Também, jamais o atacaria, ou queimaria vivo, como fazem alguns de meus pseudo semelhantes. Gostaria de sair desta maldita neutralidade em relação a ele e a todos os doidos da minha cidade. Gostaria de ser aquele a lhes estender a mão, a dar-lhes alguma esperança. Mas, como naquela canção de Dylan e contrariando Roberto Carlos, este cara não sou eu. Por isto, faço como a maioria das pessoas e, admito: Eu o ignoro.

O doido pouco deve falar. De vez em quando o pego balbuciando alguma coisa, mas sempre muito baixo para que se possa entender o que ele diz.  Também não sei se me interessaria por suas palavras. O doido, de certa forma, me agride com seu silêncio, com sua inação. Fosse agressivo, eu teria um bom motivo para detestá-lo.  Mas ele se cala, e junto com seu calar, vem o incômodo. O silêncio do doido é mais mortal que qualquer palavra.

Um dia, um outro doido, enquanto remexia o lixo de minha casa, se dirigiu a mim, me perguntando se eu era “o pai de Stephen”. Curioso e preocupado, perguntei a ele de onde conhecia o meu filho:

“- Ele sempre me dá café com pão e conversa comigo, quando passo na casa dele”, assim ele respondeu. Fiquei alegre e triste ao mesmo tempo. Alegre porque fiz em meu filho alguém bem melhor que eu, capaz de fazer o que eu não consigo fazer. Triste porque talvez tudo o que os doidos precisem, mais do que roupas velhas e restos de comida, seja uma palavra nova.

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