Pular para o conteúdo principal

CARTA AOS MILLENNIALS (SEM OFENSAS)

Queria evitar usar aqui a palavra millennial no seu sentido pejorativo mas é quase impossível. Millennial deveria ser apenas o adjetivo pelo qual chamamos aqueles nascidos entre o fim da década de 80 até a atualidade, mas passou a significar também aqueles que detêm - ou simplesmente toleram - um tenebroso comportamento. E mais, não se resume apenas aos nascidos de uns tempos para cá. A "millennialidade" tomou conta do planeta, agregou jovens senhores e senhores idosos, e com ela foi embora o bom senso, o diálogo, a convivência de ideias e ideais diferentes e sobrou apenas o  confronto, a intolerância, o radicalismo. O que Luther King chamou magnificamente de "o silêncio dos bons". E são a estes "bons" que eu me dirijo agora, porque os radicais, sinceramente,  já estão perdidos.


Em junho deste ano eu ganhei um neto aos 53 anos de idade. Amigos fizeram muitas brincadeiras como se eu tivesse alguma dificuldade em assumir o papel de avô e eu até mesmo fiz algum charme, como se o papel de avô realmente me trouxesse algum tipo de doce incômodo.  Mas na verdade, não há  incômodo algum.  Aceitei tranquilamente meu papel apenas com uma única preocupação: Preciso estar vivo nos próximos anos para ensinar ao meu neto valores como a paz, a fraternidade, o diálogo e o entendimento ao invés da intolerância, do radicalismo e do confronto com o diferente.

Não se trata de ensinar os valores morais corretos e básicos. Nisto meu neto estará muito bem assessorado pelos pais, um deles, óbvio, inclusive criado por mim mesmo. Sei que meu neto não será  machista, não será  homofóbico, não humilhará pessoas mais humildes, não será racista ou destratará  idosos. Acredito sim que não jogará lixo no chão, não furará filas  e não tirará vantagem dos mais ingênuos. Mas eu realmente temo pela dificuldade que ele possa a vir a ter em dialogar com quem pensa diferente dele.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, ao ser entrevistado no programa Roda Viva, respondeu assim a uma jornalista que o interrogou sobre como ela faria para perdoar e conseguir passar o natal com o pai, que teria votado no candidato que representaria - em sua concepção -  o oposto de tudo aquilo em que acredita:

- Política é a arte de dialogar com quem pensa diferente, com quem você não gosta ou com quem você até não gostaria que existisse.  

Bingo. Política é tudo que as novas gerações não fazem enquanto pensam estar, de fato, fazendo política. O que fazem é apenas um exercício de fascismo, polarizando, insultando e guerreando com quem discordam, tentando calar a todo custo seu incômodo opositor.

Tentam impor seu ideal de mundo perfeito sem ceder uma vírgula a quem quer que seja, acreditando que eles mesmos - ou seus filhos - estarão seguros em uma sociedade totalitarista. Um lugar onde prevalecerá um pensamento único e uniforme e qualquer um que vislumbre o diálogo - não precisa nem ser o opositor de fato - já  é tratado como o inimigo e merece ser desprezado. Alguém como eu, por exemplo.

Vejo que eu precisarei ensinar ao meu neto - claro, se isto me for permitido pelos pais que são soberanos em decidir o que ao filho deve ser ensinado - o diálogo, o amor ao bom debate - que é aquele em que um dos lados pode até  se convencer a mudar ou ajustar a sua opinião - e a boa convivência com quem vier a pensar diferente dele. Inclusive eu mesmo. Infelizmente algo se perdeu na tradução  naquilo que minha geração tentou passar aos seus filhos e hoje temos o fenômeno da tolerância seletiva à intolerância radical. 

Radicais sempre existiram e radicais sempre atrasaram o desenvolvimento da humanidade. Radicais jamais conquistaram absolutamente nada. Nem a  Ku Klux Klan nem a Nação do Islam conseguiram acabar com o povo judeu, embora supremacistas brancos e negros norte-americanos dividissem o mesmo desejo imoral. Nem Hitler  nem Stálin tampouco conseguiram exterminar os semitas hebreus. Radicais sionistas, por sua vez, também não conseguiram ofertar paz ao seu povo em Israel nem os extremistas palestinos garantiram a paz aos que vivem no cinturão de fogo do Oriente Médio.  Porque a radicais só interessa a cisão,  o enfrentamento e o confronto. Radicais não querem sanar o problema porque eles se alimentam - quando não são parte -  do problema. Ao contrário,  querem fomentar a discórdia para garantirem privilégios que só  a eles são dados e que nunca atingem a quem eles fingem representar.

Infelizmente, a semente da  discórdia dos velhos radicais dos anos 60, banidos pelos hippies, pela popularização das filosofias orientais e pelas revoluções comportamentais daquela década,  gerou frutos estranhos na geração de nossos filhos e, se não  os conseguiu transformar em um deles, pelo menos conseguiu deles a tolerância à sua própria intolerância.

Assim, temos a tolerância ao racismo de reação dos radicais do movimento negro. Temos a tolerância aos apelos por ditadura dos radicais simpatizantes do regime militar. Aceitamos a intolerância religiosa dos radicais cristãos aos ateus e afrorreligiosos e o seu inverso. Fechamos os olhos ao radicalismo dos ultra conservadores  que classificam qualquer reclamação feminina contra o comportamento dos homens como mimimi e vitimização, e o comportamento das radicais feministas que promovem o ódio aos homens. E há  homens e mulheres equilibradas que aprenderam a achar tudo isto absolutamente natural.  Eles dizem que é apenas reação.  Reação à opressão de séculos,  reação  à falência do modelo democrático,  reação ao machismo patriarcal ou ao feminismo nazista.  Mas esta reação,  um belo dia, inevitavelmente se voltará contra eles mesmos e o pior,  contra os seus filhos e netos.

Por isto que eu pretendo viver ainda mais algumas décadas para me assegurar que poderei ensinar ao meu neto, e aos netos que ainda vierem, o poder do diálogo e do entendimento.  Não quero que ele confronte violentamente nenhum tipo de  radical pois isto iria exatamente contra o que prego. Além do mais, radicais não precisam de confronto violento, de combate fogo com fogo e sim de serem expostos e devidamente ridicularizados, ao contrário do que acontece hoje, onde se costuma  "passar  pano" para os seus perigosos devaneios.

A geração de hoje relativiza o preconceito, a violência, a opressão e o ódio  apenas porque os sinais aparentemente se inverteram. O que antes era ruim agora é bom porque os protagonistas supostamente trocaram de lado. Generais do passado agora são santos de vitral porque aqueles que os antagonizavam chegaram ao poder e falharam. Eugenistas de hoje  estão certos porque trocaram de lugar com os eugenistas do passado. E assim caminha a humanidade. Para o buraco, evidentemente.

Sendo eu fruto da geração que viu Stevie Wonder cantar Ebony & Ivory junto com Paul McCartney,  sendo eu fruto da geração que viu a revolução sexual,  a emancipação feminina, a luta de Martin Luther King pelos direitos civis, a renúncia de Mandela à luta armada pela pacificação de seu país, eu não posso concordar com o retrocesso do enfrentamento violento e do discordar por discordar.   Elizabeth Eckford não se tornou a primeira negra a frequentar uma escola de brancos confrontando os seus colegas com insultos, atentados e manifestações de preconceito reativo contra eles. Ela simplesmente lutou pelo seu direito de frequentar aquela escola e, contra tudo e todos, a frequentou. Ray Charles e os Beatles se negaram a se apresentar para plateias segregadas nos EUA e o sistema de separação racial nos espetáculos ruiu. Negros norte-americanos se negaram a utilizar o sistema de ônibus de suas cidades e a segregação no transporte público acabou. Artistas pop fizeram tanto barulho contra o apartheid na África do Sul que a discriminação chancelada pelo estado teve fim. Nada disto foi conquistado com ódio, violência, preconceito e radicalismo.

Enfim,  se eu pudesse dar um conselho a quem tem hoje metade da minha  idade e acredita que tem o dobro da minha experiência, que sabe de tudo e de tudo já viu, eu diria  que buscassem urgentemente o diálogo com o diferente e evitassem o confronto pelo confronto.  Os velhos radicais estão muito felizes por ver que suas sementes da discórdia finalmente deram frutos. Cuidado com o tipo de mundo fracionado,  egoísta e intolerante que vocês irão  deixar para os seus netos. E que seus filhos possam retomar o diálogo antes que retrocedamos ao início do século XX, ou até mesmo à idade média, ainda que seja com alguns sinais trocados.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CARTA ANÔNIMA

 Quando eu era menino, ainda ginasiano, lá pela sexta série, a professora resolveu fazer uma dinâmica bastante estranha. Naquele tempo ainda não tinha esse nome mas acho que ela quis mesmo fazer uma dinâmica, visto pelas lentes dos dias atuais. Ela pediu que cada aluno escrevesse uma carta anônima, romântica, se declarando para uma outra pessoa.  Eu confesso que não tive a brilhante ideia de escrever uma carta anônima para mim mesmo e assim acabei sem receber nenhuma carta falando sobre os meus maravilhosos dotes físicos e intelectuais. Já um outro garoto, bonitão, recebeu quase todas as cartas das meninas da sala. E sabe-se lá se não recebeu nenhuma carta vinda de algum colega do sexo masculino, escrita dentro de algum armário virtual. Eu, é claro, escrevi a minha carta para uma menina branca que nem papel, de óculos de graus enormes e um aparelho dentário que mais parecia um bridão de cavalos. Ela era muito tímida e recatada, havia nascido no norte europeu mas já morava...

Deus prefere os ateus.

N ão sou ateu. Até já pensei que era, mas não, realmente, eu não sou. Isto não me faz melhor ou pior do que ninguém, mas eu realmente acredito em um Deus Criador. Bem que eu tentei ser ateu, mas a minha fé inexplicável em alguma coisa transcendental nunca me permitiu sê-lo. Também não sou um religioso, eu sou apenas um crente, ainda que tal palavra remeta a um significado que se tornou bastante negativo com o passar do tempo. Q uando falo aqui em ateu não falo daqueles ateus empedernidos, que vivem vociferando contra Deus, confundindo-o de propósito com o sistema religioso que O diz representar. Estes são até mais religiosos que os próprios religiosos, ansiosos de que convencerem os outros, e a si mesmo, de que um Deus não existe. Quando menciono os ateus a quem o Divino prefere, eu me refiro àquele tipo de pessoa que não se importa muito se Deus existe ou não, mas, geralmente, são gentis, solícitos, generosos, éticos e muito mais honestos que muitos religiosos. E u bem que tent...

LEMBRANÇAS DE WILSON EMÍDIO.

E sta é uma história sobre rock e amizade. Não importa muito se você nunca ouviu falar de  Wilson Emídio.  Certamente, se você gosta das duas ou de uma das coisas - rock e fazer amigos - , você vai gostar do que vai ler aqui. E m 1984, eu tinha uma banda de rock chamada Censura Prévia. Ensaiávamos na sala de estar de minha casa, assim como os Talking Heads ensaiavam na sala de estar do David Byrne no início da carreira. Tanto que, ao ver aquelas fotos do disco duplo ao vivo da banda  nova-iorquina,  me remeto imediatamente àqueles tempos. E, por mais incrível que possa parecer, nós tínhamos duas fãs. Eram duas vizinhas que não perdiam um ensaio, sentadas no sofá enquanto se balançavam, fazendo coreografias, rindo muito e tomando refrigerante. Um dia elas resolveram criar  um fã-clube para o nosso conjunto amador. Na verdade, elas mandaram uma carta para a revista Rock Stars,   uma publicação de quinta categoria, mas baratinha e acessível aos quebrados ...