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A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE III - EU NÃO QUERO.

No domingo seguinte, Zé Mário apareceu em minha casa pela manhã acompanhado de meu antigo funcionário na Plug Laser, Wilton Vieira, o "Pink Floyd", e seu amigo Renato Miranda, vulgo Renatinho. Traziam  nos braços baixo, bateria, caixas, cabos e microfones. A guitarra eu tinha, mas meu xará trouxe a dele.  Foram entrando e se acomodando em um amplo quarto nos fundos da casa em que hoje funciona o estúdio de Stephen. Montaram tudo, disseram "alô som" várias  vezes até que consideraram tudo pronto. E me acordaram para ensaiar.
 
T
udo pronto como, Zé? Cadê o baixista? Os três apontaram para mim. Eu disse que eles só poderiam estar loucos, pois eu nunca havia sequer encostado em um contrabaixo, um instrumento praticamente alienígena para mim. Mas  Zé pediu com jeitinho e eu cedi. Fazer o que? Tudo pelo rock and roll.

Com a primeiríssima formação constando de Zé nos vocais, Renato Miranda na guitarra, eu no baixo e Wilton "Pink Floyd" Vieira na bateria, demos como iniciado o primeiro ensaio. Sim, mas tocar o que mesmo? Me disseram que, além de arranhar o baixo, eu teria que indicar a música que daria início oficialmente aos trabalhos. Lembrei de uma canção antiga que havia feito na década de 80,  de apenas dois acordes e uma riff roubada descaradamente do Echo & the Bunnymen, que fazia parte do repertório de uma antiga banda minha, a Uniforme.  Levei a riff no baixo e eles foram atrás e até que não ficou ruim. A canção se chamava "Eu Não Quero" e chegou a ser tocada em outros ensaios mais adiante mas jamais seria gravada.

Renato Miranda era originalmente um guitarrista mas havia sido  baixista da lendária banda  Filhos da Erva. Wilton, àquela altura, já era ex-integrante  e integrante de duas mil bandas, inclusive o famoso combo de reggae Monte Zion. Tudo parecia ir muito bem e eu confesso que até já estava me entusiasmando quando meu xará disse: 
- Gente, tá massa, tá tudo lindo e maravilhoso, mas aproveitando o título da canção, eu devo dizer que...eu não quero. Desplugou a guitarra e foi embora. Zé, quase em prantos, lhe pediu que emprestasse o seu equipamento de amplificação, ao menos, por enquanto, e Renatinho concordou.

Meu filho que observava tudo com os olhos brilhando, disse:
- Estes dois acordes aí eu sei tocar. Me ponham na banda.
Eu olhei surpreso para ele:
- E desde quando você sabe tocar violão?
- Desde que um amigo me ensinou e eu treinei na sua guitarra.
Fiquei entre puto e orgulhoso da audácia do rebento de bolinar minha guitarra, mas não dei o braço a torcer. Passei-lhe um enorme  pito e disse em seguida:
- Ok, então ensaie e no final de semana nós vemos isso.
Então, outro ensaio foi marcado para o domingo seguinte. Naquela semana, Stephen esfolou o dedo tocando aquela  sequencia de sol e ré. Ele não queria deixar de participar.

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