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PLUG LASER: A HISTÓRIA NÃO CONTADA - PARTE VII

Eu nunca tive o (mau) hábito de fazer acepção de pessoas e acredito que transmiti muito bem esta premissa para os funcionários da Plug Laser. Ninguém ali, nenhum cliente, jamais foi discriminado na loja fosse porque motivo fosse. Por ser homossexual, heterossexual, homem, mulher, pobre, rico, negro ou branco, bonito ou feio. Acredito que, na verdade, nem precisei passar estas noções para os funcionários que trabalhavam comigo porque eles mesmos já tinham esta concepção vinda de berço. Não foi a toa que sempre foram escolhidos a dedo. Aliás, esta expressão, "escolhidos a dedo", renderia uma série de gozações e deboches no ambiente interno da loja porque não éramos preconceituosos mas jamais perdíamos uma piada por mais politicamente incorreta que fosse.

Daí que o bullying corria solto entre os funcionários, antes mesmo que esta palavra virasse moda. Eu fazia vistas grossas às brincadeiras entre eles, dava risadas e pedia apenas que não me envolvessem nelas. Se houvesse algum excesso, aí sim, eu interferiria. Uma das brincadeiras mais comuns era a que envolvia as mães deles. Contavam histórias fictícias das mães uns dos outros e o "ofendido" quase sempre ria junto, embora nem sempre tenha sido assim.

Costumavam, por exemplo, dizer que a mãe de um deles teria ido passar férias na Jamaica, onde teria conhecido Bob Marley e engravidado do artista, dando origem ao filho ilustre e feirense do rei do reggae. Outra versão afirmava que a mãe do coitado teria morado no Rio de Janeiro e conhecido o ator que interpretava o tio Barnabé, personagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo e que, este sim, seria o verdadeiro pai. De outra mãe era contado causos de quando ela morava em seu planeta natal, antes de vir para a Terra. A pobre mãe tinha um nome que evocava que ela teria um certo planeta como local de nascimento.

Um dos funcionários era fã de um grande artista do pop e, inclusive, era chamado pelo primeiro nome do popstar. Sua mãe, por sua vez, era chamada pelo nome da mãe do artista e, certa vez, ele não aguentou tanta gozação e chorou. Pedi que dessem um basta naquilo. Excluíram a mãe do rapaz das brincadeiras mas continuaram brincando entre si. Outro funcionário deixou claro que não queria sua mãe envolvida nas pilhérias e começaram a me perguntar desesperadamente qual era o nome da sua genitora. Eu, que também não prestava,  peguei um disco de grandes sucessos de Simon & Garfunkel e disse:
- O nome dela está aqui. Acha aí.
O funcionário bateu os olhos em "América" e "D. América" passou a ser impiedosamente alvo das chacotas. O bullyinado aguentou tudo calado, fazendo uma cara de indignado blasé, mas sem se importar muito. Afinal, o nome de sua mãe era Cecília.


Tínhamos um cliente que era um senhor endinheirado, petroleiro aposentado, que jamais entrava na loja para comprar menos de dez discos e sempre levava a tiracolo um homem bem mais novo a quem sempre dizia para escolher o que quisesse. O senhor era visivelmente homossexual e sempre suspeitamos que o rapaz mais jovem era uma espécie de amante seu, a quem ele sustentava. Mas não perdíamos muito tempo em divagações sobre este assunto. Simplesmente, não era da nossa conta.


Eis que o petroleiro passou a vir à loja sozinho e sentimos a falta do seu amigo, tão simpático quanto ele,  que sempre o acompanhava. Os dois juntos na loja era certeza de um papo agradável e muitos risos. Mas, por absoluta discrição, jamais perguntamos seu paradeiro. Em uma destas idas, o senhor perguntou por um determinado atendente e lamentou quando dissemos que era seu dia de folga. Ele perguntou quando este nosso funcionário estaria trabalhando e passou a vir justamente nestes horários, se tornando seu cliente fiel.

Um certo dia, o senhor perguntou ao nosso funcionário, assim de supetão, se não queria ir morar com ele em Salvador. Ofereceu casa, comida e até curso universitário e, muito constrangido, nosso atendente recusou. Perdemos o cliente para sempre, que jamais retornou à loja novamente, provavelmente um pouco envergonhado pela proposta que havia feito ter sido tão prontamente recusada.

Porém, perdemos o cliente mas os atendentes não perderam a piada. Por muito tempo, quando o funcionário chegava para trabalhar e abria a porta, quem estava trabalhando na loja na hora cantarolava  a marcha nupcial e um ou outro sempre gritava: 
- Viva a noiva!
E os outros respondiam: - Viva!

Um dia jogaram um pouco de arroz cru quando ele entrou. O funcionário deu as costas e foi embora. Ligou pedindo demissão e obriguei todos a irem em sua casa, em comitiva, pedir desculpas. A condição para que ele voltasse era a de que nunca mais aquela brincadeira fosse repetida e assim foi feito.

Por muito tempo, quando o funcionário chegava para trabalhar e abria a porta era recebido com sorrisos armados e escancarados dos que estavam ali. No som ambiente era a mesma música, "Recado", de Joanna, que dizia assim:  - Meu namorado é um sujeito ocupado. Não manda notícias nem dá um sinal.
A nova brincadeira só acabou quando o último disco de Joanna foi vendido.
Ele olhava com um olhar fuzilante, balançava a cabeça mas esboçava um leve sorriso e resmungava:
- Cambada de filhos da puta.  

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