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A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE IX - RUA AUGUSTA

Foi em um destes primeiros shows nas casas dos amigos que conhecemos Gutão. Gutão - ou Guta - era um cinquentão ainda bonito porém muito castigado pelo tempo e pelos excessos. Ainda mantinha um certo ar de "menino do Rio", com jeito de garotão com 50 anos de praia, cheio de tic-tic nervosos adquiridos pelo abuso de drogas ao longo de muitos anos.  Gutão foi, literalmente, um capítulo à parte na história da LP & Os Compactos. Guitarrista de mão cheia - reza a lenda -  tocou no primeiro compacto do Camisa de Vênus no lugar de Karl Hummel, que estava muito nervoso e não conseguiu gravar.

Também fora roadie do Camisa de Vênus, tendo excursionado com o Capital Inicial, com os quais compôs a canção "Gritos", presente no primeiro disco da banda de Brasília. Trabalhou com o Legião Urbana, com Cazuza, Luís Melodia e com outros artistas do primeiro time do rock nacional e da MPB. Suas histórias desta época renderiam um livro - que ele nunca escreveu - de tão pitorescas que eram.

Gutão se apaixonou pela Zero AA Esquerda desde o primeiro momento que nos ouviu. Resolveu que nos produziria a qualquer custo. Talvez a paixão tenha sido até por outros motivos, mas quem se importa? Não fomos nós que escolhemos ele, ele que nos escolheu. E Gutão foi uma peça chave no aprimoramento daquela pedra bruta que nós éramos. Aquele folclórico senhor, passando da meia idade, literalmente, nos educou musicalmente. Inclusive a mim, que me julgava macaco velho da música. 

- Olha a dinâmica! - gritava o velho leão da Barra, enquanto passava o lado de dentro da palma da mão a milímetros do rosto, sem tocar, para ajeitar os cabelos, o seu mais conhecido tique. A bronca era dada quando não lembrávamos de tocar menos intensamente na hora em que entravam os vocais.

Guta, como também os chamávamos nas horas em não estávamos muito estressados com ele, aprovou a mudança de nome para LP & Os Compactos. E nos indicou um baterista. Eu, apesar de entender perfeitamente que era impossível ir adiante com um Casiotone no lugar das baquetas, já tinha sido baterista antes e sabia o quanto um tocador de tambor poderia ser uma figura irritante, uma verdadeira  bomba atômica, em uma banda. Resisti enquanto pude. 

Ítalo Oliveira, o tal baterista, era um garoto um pouco mais velho que Stephen. Cumpria o requisito mínimo de ter uma bateria e estava muito entusiasmado após assistir alguns de nossos shows nas casas de amigos. Ítalo queria muito ser o baterista da LP.  Marcamos, então, um ensaio e, para iniciar, tentamos tocar Boys Don't Cry do Cure. Para meu desespero, o novo baterista insistia em marcar junto com a guitarra parando completamente a música naquela parte da convenção e eu perdia a paciência tentando ensinar a ele como deveria ser feito. Foi apenas o primeiro de inúmeros entreveros.

Mas a convivência com Ítalo no posto de baterista não foi marcada apenas por aborrecimentos, muito pelo contrário. O músico era um verdadeiro clown, um grande  humorista, e cansamos de interromper o ensaio para literalmente morrer de rir com suas tiradas. Porém, por trás dos risos, se escondia uma personalidade em grande conflito consigo mesmo. Nós -  o resto da banda -  não soubemos, de fato, lidar com isso. 

Ítalo fazia uso de um artificio curioso para memorizar as músicas: Colocava apelidos nelas. Assim, Se Você Ficar era "Baby Eu Sei", o que causava uma confusão com "Baby Look" que virou "Mamãe, O Que é Isso". Mas o apelido que marcou mesmo foi o que ele deu para "Rua Augusta", a canção de Ronnie Cord: "Alfredo". E quando a gente dizia que ia tocar "Alfredo" ele repetia com um ar galhofento o apelido que ele mesmo dera à música. Acabou ele mesmo recebendo o apelido de Alfredo e, muitas vezes, como piada interna, o apresentávamos nos shows como Ítalo Alfredo.

A primeira apresentação com um baterista de verdade foi no bar Antiquário. Não era apenas o nosso primeiro show com um ser humano nas baquetas. Foi o nosso primeiro show com um nível mínimo de profissionalismo. A nossa primeira apresentação paga foi um sucesso e teve casa cheia. Cheia, inclusive, de uns tipos curiosos, interessados naquela novidade da qual já tinham ouvido falar. Estas pessoas se tornariam amigos e apoiadores da banda pelos anos afora. Samuel, Tércio, Marcos Cícero, Flávio Benvenuto, Vinícius Ramone e muitos outros que não consigo lembrar agora. Aquele era - ou deveria ter sido -  o nosso verdadeiro Bromley Contigent. Gente que fazia questão de pagar ingresso, de elogiar e de incentivar. Eram uma espécie de "conselho administrativo" da banda. Sempre pedíamos as suas opiniões sobre o que ouviam e as usávamos para melhorar.  Enfim, se fosse para tocar apenas para eles, já estava valendo. Isso sem contar o já citado Agnello Freitas, que apoiou a banda - inclusive financeiramente - em absolutamente todos os momentos de sua existência. Nem todos os amigos de Zé faziam parte dos "Amigos de Zé", como aliás, eu mesmo já disse.

Contratamos o DJ Sérgio Tadeu para gravar a apresentação mas o resultado - não por culpa dele -  foi decepcionante. Ficou muito mal gravado e distorcido por conta de algumas falhas nos cabos e o registro foi inutilizado. Bem, foi isto que nós pensamos. A gravação vazou, ruim mesmo como estava,  e começou a correr rapidamente de mãos em mãos. No segundo show, novamente no Antiquário, para nosso mais completo espanto, havia até gente conseguindo cantar junto. Era preciso registrar urgentemente aquilo que estava acontecendo.

Gutão faleceu em 2017, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Descanse em paz.

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