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A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE VI - O ADIVINHÃO

Quando eu era menino, sempre assistia ao meio dia, logo ao chegar da escola, um capítulo da minha série preferida, o Agente 86. E um dos meus capítulos favoritos era  aquele em que Maxwell Smart e a Agente 99 investigavam o "Guru Legal", um DJ vilão que hipnotizava a garotada com um som sacolejante feito por uma banda sem baterista chamada "Vacas Sagradas". A imagem da agente 99 e de Max dançando ao som do grupo  jamais saiu de minha cabeça. Muito menos a imagem da tal banda.

Em um tempo de muito psicodelismo, as "Vacas Sagradas" se vestiam com batas multicoloridas e chapéus com chifres. Eu sempre achei aquele nome e aquele visual  absolutamente fantásticos e sempre tentei batizar uma banda da qual fizesse parte com este nome. Jamais consegui. 

Porém, finalmente, era chegada a hora. Aquele grupo tão disforme, também sem baterista, que estava sendo construído de maneira tão incomum, tinha que se chamar "Vacas Sagradas".  Todo mundo de acordo? Não, ninguém. Vacas Sagradas foi  recusado por absoluta unanimidade. Eles, definitivamente, não entenderam a referência. Sugeriram até "Vacas Profanas". Não, profana também não. Ninguém ali tinha as divinas tetas necessárias para bancar "caetanicamente" aquele nome. Ou não.

Outra tentativa que fiz foi sugerir batizar a banda como "Les Beat". Nome chic, afrancesado (aviadado, disseram alguns) e que também nunca emplacou, mesmo significando Beatles ao contrário.  Eu também pensei em Osamarama, inspirado nos ianques do Dramarama e nas meninas inglesas do Bananarama. Mas deste, nem eu mesmo gostei.

Um estalo e chegamos ao nome Estaca Zero. E tivemos que voltar, de fato, à estaca zero, pois já havia uma banda de forró com esse nome. Tentamos "Ferro na Boneca" em homenagem aos Novos Baianos, mas acabamos desistindo pelo mesmo motivo. Alguém sugeriu Psicotrópicos, mas este nome definitivamente não pegaria bem em um grupo com dois integrantes de aparência infanto-juvenil.

Pensamos em Superbacana, lembrando a canção do onipresente Caetano Veloso. Já havia, também, uma banda com este nome. "Maria Fumaça", ecoando o título do clássico disco da banda "Black Rio" e as origens jamaicanas do vocalista. Não gostaram.

Alguém sugeriu "Mantenha Distância", evocando o aviso que existe em todo para choque de caminhão. Tive que explicar que nomes pejorativos costumam trabalhar contra a banda e não são exatamente uma boa ideia. Ainda no quesito do transporte de cargas, também foi citado "Não Corra, Papai". Eu aproveitei a deixa e fiz uma música com este título que não chegou a ser gravada.

Pensamos também em "Círculo Vicioso" entre muitos outros nomes menos cotados. Josias chegava em casa dizendo ao pai qual nome escolhemos e ele sempre profetizava que aquele não seria o nome definitivo. Até que chegamos a "Zero AA Esquerda", grafado assim mesmo, sem a crase, em uma reles imitação de uma banda noventista mineira chamada "Beijo Aa Força".

Inspirados no roqueiro italiano Renato Zero e nos americanos dos Ramones, nos batizamos como Renato Zero, Mário Zero, Jo Zero e Stephen Zero. A bateria eletrônica ganhou o nome de Zero Zero. O "AA Esquerda", por sua vez, não denotava qualquer preferência política. Até porque, no nosso repertório, já figuravam duas canções bem distintas,  a bem humorada  "Tributo a Che Guevara" e a nem tanto assim "Não, Tio Sam", com os seguintes versos:

"Garota comunista, de ideal socialista
Se pensa que vai comigo ficar
Nem vem com mais valia
Eu só penso em putaria
Quero mais é me acabar

Se Marx é normal desprezando capital
Como é que eu vou me sustentar?
Não vou andar de Lada
Nem assinar o Pravda
Quero mais é aproveitar

O que?
O Comunismo já acabou?
Como é que ninguém me avisou ?,

Eu vou pular o muro pra Berlim Oriental
Vou procurar asilo na cultura racional
Eu vou parar num bar e tomar uma caipiroska
Eu vou mudar pro campo e revolucionar a roça

Eu vou plantar maconha e vender à prestação
Imagine os maconheiro tudo de carnê na mão!
Vou descobrir meu "eu" e talvez eu vire bicha
Se tudo der errado então eu viro Hare Krishna".

E "Não Tio Sam":

"Eu queria tocar samba mas por causa dele eu não sou um bamba
Eu queria usar brim mas por culpa dele eu só ando de jeans 
Eu queria comer beijú mas Tio Sam me viciou em fast food 
Eu queria tomar suco na escola mas Tio Sam só me empurra Coca-Cola 

Não Tio Sam! Eu não vou pra escola hoje de manhã
Não Tio Sam! Hoje é 11 dos 09, nove da manhã 

Eu queria falar português mas Tio Sam só conversa comigo em inglês 
Eu queria não beijar seus pés mas Tio Sam só me entende quando digo "Oh, Yes"
Tio Sam me empresta a grana só pra depois me chantagear 
Tio Sam tem um boteco só pra tentar me embebedar 

Não Tio Sam! Eu não vou pra escola hoje de manhã 
Não Tio Sam! Hoje é 11 dos 09, nove da manhã". 

Nosso protesto anti-imperialista falhou miseravelmente quando um garoto de 7 anos passou a usar nossa canção para dizer ao tio chamado Samuel que não queria ir para a escola naquele dia nem em dia nenhum. Por outro lado, só esta última teve uma gravação oficial.

Quando o nosso guitarrista mirim chegou em casa e informou ao pai que, finalmente, havíamos encontrado o nome perfeito, Seu Santiago disse que o nome definitivo ainda não seria aquele. Ele estava enganado. Já havia até show marcado do Zero AA Esquerda. O adivinhão havia errado feio desta vez.


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