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A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE VIII - SE VOCÊ FICAR

Ao malfadado primeiro show na varanda do quarto dos fundos de nossa casa, seguiram-se outras apresentações na casa de Josias e na casa da irmã do vocalista Zé Mário. Todas meio mambembes, ainda com a lendária bateria eletrônica do teclado Cássio do pequeno guitarrista. Todas, porém, chegaram ao fim e, em uma delas, a então namorada de Zé fez "várias queixas" a respeito do seu comportamento: 

- Zé bebe demais, corre demais quando está dirigindo, sai sem mim... E foi desfiando um corolário de contrariedades e aborrecimentos.  Eu não tive dúvidas e transformei tudo isto em uma letra de música. Foi assim que surgiu "Se Você Ficar", que viria a se tornar nosso "maior sucesso", a nossa canção mais elogiada, embora, nem de longe fosse a minha preferida.

"Se Você Ficar" foi também a primeira música que escrevi sobre a vida de outra pessoa. Apesar da parte da letra onde eu seria obrigado a ouvir Julio Iglesias remeter a uma colega que tive no ginásio e que me convidava para estudar ao som do cantor espanhol, o resto da letra é sobre a vida de Zé baseado nos "Zevangelhos de Priscila".

Um dia um amigo de Zé, também artista da terra,  chegou na casa de uma amiga e a encontrou ouvindo e dançando esta canção enquanto cozinhava. A amiga era Helena Silveira, que, se não era a nossa fã número um, era uma espécie de fã símbolo, que nos fez perceber o apelo que teríamos entre as mulheres e que seria fundamental para o sucesso - ao menos sucesso local -  da banda. Porque se você leva as mulheres para seu show, leva os homens também. Se só leva os homens, vai ter testosterona demais no ambiente. E isso sempre acaba ou em briga ou em pegação homo afetiva. E, nada contra, mas não éramos nem uma banda tipicamente agressiva nem adepta da "broderagem". Enfim, queríamos tocar para as mulheres e para os homens que gostavam de estar onde as mulheres estavam, fossem eles hetero ou homossexuais. Ser uma versão zumbi do Duran Duran, adorada pelas fêmeas e pós-fêmeas, apesar de sermos feios para caramba. E conseguimos. Eu acho.

"Se Você Ficar" foi tão marcante na história da banda que  ganhou versões em nossos dois discos oficiais e até uma espécie de continuação chamada "Não Bebo Mais (Se Você Ficar II)". O que poucos perceberam foi a minha marotagem em copiar parte da melodia de "Cowboy Fora da lei" de Raul Seixas. Mas tudo bem, pois ladrão que rouba ladrão tem cem anos de sucesso. Bem, isso não é uma ciência exata como vocês podem perceber.

A série de shows domésticos incluiu também o aniversário de Agnello Freitas, amigo e mecenas da banda. Eu lembro muito vagamente de termos tocado na casa dele, no distrito de São José, aqui na cidade. Da mesma forma, pode ter acontecido um ou outro show nas casas dos amigos que eu não me recorde. E olhe que eu não usava - e não uso - drogas. A não ser a Coca-Cola, que aliás, não tomo há alguns anos. Troquei pela Pepsi.

O último show desta fase, ainda sem baterista humano, foi na casa de um amigo de Zé Mário  chamado Magalhas. Foi neste show que conhecemos o baterista que apelidamos de Viúvo Porcino, pois ele sempre quis tocar com a gente. Tinha local de ensaio, bateria, sabia tocar mas nunca se resolvia. Ou seja, o que "foi sem nunca ter sido", daí o apelido. Também foi neste show que percebemos o potencial da banda - então Zero AA Esquerda - para as canções mais pop e menos "billies". Quando todo mundo dançou ao som de nossa versão de "Minha Fama de Mau", de Erasmo Carlos, foi que percebemos que o caminho, definitivamente, era agradar também o público mais maduro. E, sim, éramos verdadeiras prostitutas do sucesso.

Foi em um destes shows que começou a se formar aquele grupo que seria o nosso "Bromley Contigent". O Bromley Contigent original era um grupo seleto de fãs dos Sex Pistols que acompanhavam e apoiavam a banda por todo lugar. A nossa versão, também conhecida por "Amigos de Zé", fazia justamente o contrário: Falavam mal da banda, não queriam pagar ingresso, tomavam todas e eventualmente causavam nos eventos, além de  fazer participações "especiais" sem serem convidados durante os shows. Apesar do nome "Amigos de Zé", que demos a este batalhão de inconvenientes, nem todos os amigos do vocalista agiam assim. Alguns se comportavam exatamente da maneira oposta.

Quando aquele show terminou, chamei os integrantes do "Zero AA Esquerda" e disse que, se queríamos ir em frente, teríamos que mudar de nome. E sim, eu tinha uma sugestão: "The Long Plays", assim mesmo, em inglês, como The Fevers ou os Blue Caps de meu xará Renato Barros. Alguns gostaram, outros nem tanto. Zé Mário sugeriu "Os Compactos". Achei ótimo, melhor ainda que a minha sugestão. Foi então que Stephen falou:
- E porque não, "LPs e Compactos"? 

Bingo! Sugeri apenas uma pequena mudança: Em vez de "Lps e Compactos", "LP e Os Compactos". Todos concordaram. Saímos da casa de Magalhas com um novo nome. Não faltaram as piadinhas a respeito de eu ser mais velho e mais gordo que o resto da banda:
- LP é você, né?
Então, eu respondia:
- Os Compactos são os meninos, LP é Zé Mário. Eu sou o álbum duplo.

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