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A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE XI - AGITO E USO.

O nosso primeiro disco - que, na verdade, não passava de uma demo mal gravada - foi imediatamente jogado por mim mesmo nos programas de compartilhamento internet afora. Por uma daquelas razões que até a razão desconhece, o disco acabou sendo bastante compartilhado, compartilhado de novo e recompartilhado. Como a gravação era tão precária que parecia ter sido feita em algum porão da década de 60, o disco foi imediatamente confundido com as gravações obscuras das zilhões de bandas que surgiram na esteira de Renato & Seus Blue Caps e que passaram a ser chamadas de "brazillian nuggets", em referência à famosa série de coletâneas de bandas sessentistas norte-americana.

Foi assim que "Os Brotos também amam" ganhou o mundo. Confesso que arregimentei todos os meus amigos jornalistas que - alguns meio contra a vontade - resenharam e até elogiaram o disco. Havia o burburinho de que "aquele grupo era o grupo do Renato Arnun", já que a minha carreira anterior de jornalista musical me precedia e eu ainda usava o meu sobrenome inventado que me tornou razoavelmente famoso por 15 laudas pouco tempo atrás.

Mas, também, muita gente do meio musical gostou do que ouviu. Nós recebemos elogios de artistas como  Luiz Stopa (baixista do Magazine), Carlos Caramez (integrante dos garotos da Rua),  dos vocalistas Percy Weiss, do Made In Brazil e de Simbas, do Casa das Máquinas e do Tutti Frutti. Recebi até um prosaico convite de parceria de um dos maiores nomes da black music subterrânea do Brasil, hoje já falecido. Também houve um convite para um pré-contrato com uma gravadora independente paulista - já mais futuramente - baseado na existência deste primeiro disco.

Não costumávamos dar muita sorte em nossas incursões fora da nossa cidade. Em uma delas, em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, fomos convidados por um grupo feirense que, aparentemente, fazia muito sucesso por lá e tocamos para nada menos que uma única pessoa. Bravamente fizemos o show inteiro, inclusive a pedidos da banda que nos convidara e, para nossa grande surpresa, o único pagante estava lá justamente por nossa causa, como ele mesmo afirmaria. 

Vendemos um disco para ele. Quisemos, inclusive, oferecer gratuitamente a bolachinha para o nosso herói sem capa, mas ele se recusou terminantemente e nos pagou. A banda anfitriã não se fez de rogada e tocou seu imenso repertório para nós e o seleto público de uma pessoa só. No meio do show, o pagante se foi e eu e Zé não aguentamos mais a caixa altíssima do baterista nos ouvidos e fomos dar um rolê pelas proximidades do bairro madrugada afora. Duas da manhã e, à medida que nos afastávamos do local do show, ouvíamos cada vez menos  o som vindo do bar. Mas a caixa...Ah, a  caixa não. Ela ouvíamos alto e claro. Nós e a pobre vizinhança insone.

A LP, tradicionalmente, como diria o pessoal do Casseta e Planeta, nunca comia ninguém nestas incursões. Josias e Stephen eram ainda muito jovens, eu era casado e Zé tinha outras prioridades. Não, não é isto que você está pensando. Zé tinha uma namorada que praticava com ele a futebolística arte da marcação cerrada e ele preferia não arriscar. Porém, naquele dia nosso baterista conseguiu flertar com uma moça que nem no show estava. Era uma das vizinhas do bar onde acontecia a apresentação e nos esperava na porta bastante revoltada, às três da manhã, para saudar com um balde de água aquelas pessoas que não a deixavam dormir.

No filme "Os Irmãos Cara de Pau" há uma cena em que a namorada do personagem de Jim Belushi encurrala ele e Dan Akroyd e se prepara para atirar neles com uma bazuca. Então, Jim retira os óculos escuros, lança um "olhar 43" e a convence a desistir. Foi, mais ou menos, o que aconteceu ali, naquela noite. A moça se mostrava muito aborrecida quando Ítalo Alfredo se aproximou, lançou um olhar enviezado e disse com voz maviosa: "Desculpa, tá?". A jovem se derreteu pelo charme do nosso homem das baquetas e conversaram um pouco enquanto colocávamos as coisas na van para retornar à Feira de Santana, nos garantindo a cobertura necessária para não sairmos molhados dali.

Alguns minutos depois, nosso drummer man se aproxima do veículo e nos avisa que vai ficar, pois fora convidado a dormir na casa da moça. Todos olhamos espantados para ele, que então imita Chico Anísio em um de seus personagens e diz que "é o meu jeitinho". E foi assim a primeira vez que um integrante da LP comeu alguém. E, ao que me consta, também foi a única. Ao menos na primeira encarnação da banda, até o primeiro fim, no início de 2006.

Os integrantes da banda queriam tocar em todos os lugares possíveis. Certa vez fomos convidados para tocar na cidade de Serrinha. Era aquela famosa "apresentação-roubada" em que íamos apenas pela gasolina e pelos drinks. Por drinks, entenda-se, uma bebida para cada integrante. E sim, era a bebida ou água. Eu sempre preferia a água e sempre me dizia que não iria mais cair nestas armadilhas. Mas acabava indo junto, pelo bem do rock and roll. Nesta apresentação, eu me recusei a ir e tocar. Iríamos abrir o show para uma banda chamada "Aterro Sanitário". E o cartaz que eles prepararam era, estetica e literalmente, um lixo. Urubus, bostas e o nome da LP lá pequeno, suportando a banda principal, de tão agradável nome. E o "cachê"? Imaginei que deveria ser um drink feito com chorume.  Tive que passar um esporro na banda inteira para que eles compreendessem que não dava para aceitar todo convite que aparecia.

Outro show curioso foi feito em um sítio na famosa megalópole de Jaíba, distrito da cidade, então afastado e na zona rural. Hoje o sítio já foi engolido pelo crescimento e pela especulação imobiliária. Abrimos para uma banda de pagode e, perto do final do show, um dos músicos pediu que nós os anunciássemos. Zé perguntou o nome do grupo e ele apontou para o letreiro atrás de nós. Ao final de nosso show, nosso vocalista se entusiasmou, encheu os pulmões de ar e anunciou para uma razoável plateia a próxima atração, a banda "Cobiça Cu". O nome correto era "Cobiça Eu".

Também fomos convidados para tocar na festa de encerramento de uma franquia de um curso de inglês e para abrirmos uma apresentação na cidade da banda Los Hermanos. Estava tudo caminhando para as duas apresentações darem certo, já que foram combinadas com o mesmo contratante. A pessoa que nos contratara era parente do vocalista e Zé quis ofertá-lo com uma cópia de nosso primeiro disco. Eu achei melhor não mas Zé foi lá e o presenteou com nosso pequeno petardo. Ao ouvir o disco, o incauto ouvinte imediatamente cancelou as duas apresentações. 

Tocamos em um clube de funcionários da Caixa Econômica Federal, já que o pai de Josias era bancário e gerente de uma das agências. O cenário era desolador. O clube era no meio do nada, em um terreno desértico, onde a única sombra existente era dos toldos que abrigavam os convidados. Fomos pela consideração ao "Seu Santiago" e pelo rango e bebidas. Melhor que muitos picos nos quais nos metemos.

Como sempre, a troco de equalizar nosso som, nosso querido produtor Gutão foi a reboque. Aliás, nas horas mais maldosas, o chamávamos justamente pelo apelido de "sujeito a reboque". E Gutão, claro, levou Déa. Déa era uma menina  - literalmente -  de 17 anos, que se encantou com o velho lobo das cordas e fugiu com ele da sua cidade natal para Feira. Enquanto tocávamos, o almoço foi servido. Gutão esqueceu a mesa de som e partiu para a mesa de comes e bebes.  O show em si não estava agradando muito a plateia e, entre uma música e outra, reinava o mais constrangedor e total silêncio. Foi quase ao final de uma de nossas canções que Gutão resolveu gritar para a jovem esposa, que estava do outro lado do palco e longe da mesa que, naquele momento, mais interessava o nosso produtor.
- Dééééaaaaa, chegou a carne!
Bem na hora do grito paramos de tocar.
Todos olharam na direção de Gutão meio assustados e atenderam imediatamente ao seu chamado como se Déa todos  fossem. O show acabou ali.

Um incidente em um evento importante, praticamente, decretou a saída de Ítalo Alfredo. Demoraria ainda alguns anos para percebermos que perderíamos o melhor baterista que já tivemos.

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