As vendas do nosso primeiro disco trouxeram algum caixa para a banda e o dinheiro era controlado por mim, inclusive por opção dos outros integrantes. Ítalo queria reformar a bateria, Stephen queria cordas melhores para o baixo, Zé Mário queria um som de voz melhor e eu achava que aquele dinheiro deveria ser investido em viagens para tocar nas cidades próximas e em um segundo disco, desta vez gravado em estúdio.
Houve um momento em que brigamos por dinheiro. Mas não era, afinal, tanto dinheiro assim. E este foi um momento em que eu, por pouco, não me desliguei da LP. Aceitávamos qualquer convite para tocar e, geralmente, tocávamos de graça. Era a grana dos discos que fazia a roda girar.
Para tentar equalizar todas as demandas financeiras, resolvemos fazer uma série de apresentações mais baratas, sem PA, apenas com o equipamento básico, nas quintas-feiras, no bar Antiquário. As noites de quinta eram mornas no lugar e acertamos com o proprietário que faríamos shows intimistas, com um volume mais baixo, repletos de covers dos anos 60. Ensaiamos diversas canções, de Beatles a The Turtles, passando por The Troggs, Jerry Lee Lewis, Rolling Stones, The Kinks e Spencer Davis Group. Elaboramos um repertório de 20 covers e iniciamos os trabalhos. A primeira quinta foi fraca mas as três seguintes tiveram lotação esgotada. Curiosamente, a primeira canção que ensaiamos para este projeto, "Feet Don't Fail Me Now", da banda Utopia, era dos anos 80.
A cena de Feira de Santana é feita de caranguejos, como já disse. Não sei se ainda é, mas naquele tempo era sim. Quando você coloca caranguejos vivos em uma panela para serem escaldados, alguns tentam escapar e até conseguiriam, caso os outros caranguejos, literalmente, não os puxassem para baixo. Ouvíamos de alguns colegas da "cena" que não deveríamos fazer covers, que não éramos bons naquilo, mas a resposta do público nas apresentações dizia justamente o contrário. Parecia que, quanto mais dava certo, mais eles enxergavam que estava dando errado. Talvez, apenas, por não conseguirem repetir aquilo com suas próprias bandas.
Com o dinheiro das apresentações, consertei a bateria de Ítalo, troquei as cordas do baixo de Stephen e só não deu para comprar o som de voz de Zé Mário. Mas ele deu seu jeito. O pai de Zé era dono de um galpão alugado para uma igreja. O nosso vocalista foi lá e, literalmente, sequestrou um equipamento de voz ungido e novinho, a troco de pedir emprestado para uma apresentação nada ungida. O pastor, em nome das boas relações com o senhorio, aceitou. Em nome do pai, amém.
O empréstimo era apenas para uma única apresentação mas valeu por uns bons três meses. Chegamos até a consertar a caixa, que havia quebrado. A intenção de Zé era não devolver e eu confesso que, sim, eu não me posicionei nada contra. Um dia o pastor perdeu a fé e a paciência e foi reclamar com o saudoso Zé Maria, o pai do vocalista. Seu Zé, que sequer estava sabendo do fato, obrigou o filho a devolver a caixa, levou ele em uma loja de instrumentos musicais e lhe comprou um som de voz bastante decente. Dizem que Deus é Pai, mas, neste caso, pai foi deus.
A LP & Os Compactos ganhava fama fora da cidade e uma revista de circulação nacional quis fazer uma matéria com a banda. Achei que deveria repartir o espaço com as bandas locais e passei informações sobre o que seria uma duvidosa "cena local". Choveram reclamações por parte dos "artistas da terra" que "se sentiram diminuídos frente à LP". Agradecimentos? Nem em sonho. Ainda seríamos citados e entrevistados para diversos veículos mas, depois desta, sempre que me perguntavam de alguma cena na cidade eu costumava dizer que não havia cena alguma. E não havia mesmo. Ao menos nenhuma que nos incluísse.
Para nossa surpresa, fora o público dito "normal", nós fomos acolhidos mesmo pelos headbangers da cidade. Eu ne sentia meio como o Andrew Aldritch quando dizia que a sua banda, os Sisters Of Mercy, eram heavy metal. Eu sempre tive amigos no meio do metal e eu mesmo já dei minhas cacetadas metálicas, tendo até uma banda no estilo, na adolescência, chamada Guerra Civil. Mas a verdade é que o passatempo preferido dos metalheads da cidade era ir até o nosso show, ver as mulheres e tomar cerveja. E o nosso deleite era vê-los no show prestando atenção ao som e curtindo tudo, enquanto punks e pós-punks nos olhavam com ar blasé. Chegamos até a convidar um dos maiores nomes do metal feirense, Mazinho, , para ser tecladista na banda, mas, infelizmente, ele não quis.
Um show importante se aproximara. Era um festival onde tocaríamos com as bandas mais importantes da cidade naquele momento. E éramos uma espécie de atração principal, o que deixou putos alguns dos mais ilustres caranguejos locais. O festival ocorreria em um anfiteatro no bairro afastado da Cidade Nova e a previsão dos organizadores era de casa lotada. E foi o que ocorreu. No show, um amigo headbanger me olhava com raiva e proferia insultos ao me ver no palco, antes da apresentação. Eu levei na brincadeira, achei que fosse teatro da parte dele, mas não era. Por pouco ele não subiu no palco e me espancou. Depois o encontrei em outro show e ele não falou comigo, preferindo se afastar. Em nome da velha amizade, resolvi perguntar o que tinha acontecido e ele disse que estava envergonhado. Me pediu desculpas, falou que estava muito doido naquele dia. Depois se converteu ao budismo, ganhou de mim uma estátua do Buda de presente e a amizade continuou.
Alguns meninos que acompanhavam a LP, naquele dia, trouxeram os pais para conhecer aquela banda de pai e filho, de velhos e meninos, de roqueiros alegres e outros nem tanto, de junkies e caretas, chamada LP & Os Compactos. Depois nos disseram que os pais, ao ouvir nosso som, se desmancharam em elogios. Um verdadeiro rock and roll familiar.
A noite tinha tudo para dar certo mas deu errado. Havia cerca de 500 pessoas no local, seguramente o maior público que encaramos até então. Na metade do show em diante, Ítalo literalmente travou. Nos olhava com um olhar vidrado como se não estivesse ali. Anunciávamos a próxima música mas ele não se mexia. A muito custo, conseguimos executar ainda duas ou três músicas e demos o show por encerrado. Nos camarins, a discussão foi feia. Ali eu tive certeza que precisaríamos trocar urgentemente de baterista.
Para piorar tudo, bem quando íamos colocar os instrumentos nos carros, eclodiu uma briga do nada entre um integrante de uma das bandas que se apresentaram e uma figura célebre do rock local que não estava se apresentando naquele dia. De trás do palco, vimos que a briga se tornou generalizada e mesas e cadeiras voavam em uma nuvem de poeira. Não tivemos dúvidas: Colocamos os instrumentos acima da cabeça e atravessamos o campo de guerra. Chegamos na porta todos são e salvos, exceto a banda em si. Se iniciava ali o fim da era "Alfredo", o apelido carinhoso pelo qual chamávamos nosso baterista.
Olhando para trás, hoje em dia, eu percebo que eu poderia ter compreendido e ajudado o nosso baterista original em seus problemas pessoais, que não eram poucos. Além do mais, não que os que o sucederam fossem ruins mas ele era, de fato, um legítimo "Compacto". Com seu sorriso de personagem de Ziraldo, enquanto fez parte, Ítalo vestiu totalmente a camisa da banda. Mas alguns demônios internos e externos o perturbavam e eu, como integrante (bem) mais velho da banda não tive a devida paciência e não soube lidar com isso. Até porque eu já tinha os meus próprios demônios para exorcizar.
Quando eu era menino, ainda ginasiano, lá pela sexta série, a professora resolveu fazer uma dinâmica bastante estranha. Naquele tempo ainda não tinha esse nome mas acho que ela quis mesmo fazer uma dinâmica, visto pelas lentes dos dias atuais. Ela pediu que cada aluno escrevesse uma carta anônima, romântica, se declarando para uma outra pessoa. Eu confesso que não tive a brilhante ideia de escrever uma carta anônima para mim mesmo e assim acabei sem receber nenhuma carta falando sobre os meus maravilhosos dotes físicos e intelectuais. Já um outro garoto, bonitão, recebeu quase todas as cartas das meninas da sala. E sabe-se lá se não recebeu nenhuma carta vinda de algum colega do sexo masculino, escrita dentro de algum armário virtual. Eu, é claro, escrevi a minha carta para uma menina branca que nem papel, de óculos de graus enormes e um aparelho dentário que mais parecia um bridão de cavalos. Ela era muito tímida e recatada, havia nascido no norte europeu mas já morava...
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Abração!!!