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A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE XVI - GAROTO DE PLUTÃO

Se a primeira versão da LP e Os Compactos pendia mais para o rockabilly, a segunda - com o guitarrista Sidarta e o baterista Douglas  - estava muito mais para um combo punk/new wave. E foi com isso em mente que eu comecei a preparar as canções de "O Amor é Surdo", o disco. Ressuscitei uma canção de meu antigo grupo, Traidores do Movimento, chamada "Cinema de Arte" (já havia feito isso no primeiro disco com "Nasci Para Comer"), retirei uma frase que continha um palavrão ("Cinema de arte é coisa de viado" trocada por "Cinema de arte só de arte marcial") e acrescentei mais uns versos.

"Cinema de Arte" tem uma história curiosa: Foi feita para um amigo que só gostava de filme "cabeça" e criticava duramente o meu gosto cinematográfico. Fiz esta música em 1991, em homenagem a ele - quase como um insulto -  e ele, de fato, por pouco não se tornou meu inimigo por causa dela. Quando saiu o CD da LP , o amigo comprou seu exemplar e comentou comigo que se pegou no banheiro, tomando banho e cantarolando o refrão da tal canção.  "O Amor é Surdo", a faixa título, como já foi dito, foi uma inspiração em duas amigas roqueiras.  "Não Tio Sam" fazia referência ao 11 de Setembro e foi nossa primeira e única canção com tema político. Apesar de adorar as imagens da letra, comparando beiju e fast food, eu não a faria de novo hoje, por acreditar que, absolutamente nada, justifica o sacrifício da vida de um ser humano. Mas a intervenção de Sidarta, solando  no meio da música imitando uma sirene que sinaliza uma catástrofe é algo de espetacular.

U
ma banda da cidade me pediu uma canção e eu escrevi um blues acelerado sobre um cachorro feroz que cuidava da gata do dono e da coleção de discos dele. Stephen, quando ouviu a canção, me pediu desesperadamente que não mostrasse a composição e que incluísse ela em nosso próprio repertório. Mas trato era trato e levei "Pitbull Preto" para apreciação dos integrantes da banda amiga. Detestaram. Um deles falou até que havia racismo na letra.  A referência à cor do cachorro, diga-se de passagem, era apenas porque eles costumavam se apresentar vestidos de preto. Pois bem. Incluímos "Pitbull Preto" no nosso repertório e a canção, a princípio, dividiu opiniões, mas não por esta idiotice de haver racismo na letra. Alguns gostaram, outros detestaram, mas a verdade é que, dali em diante,  a "música do pitbull" seria sempre pedida em shows, principalmente, pela criançada.

Incluímos, no segundo disco, a nossa versão para um antigo e obscuro hit do rock nacional dos anos 80. Na época em que a canção tocava no rádio eu tinha uma namoradinha - quase um flerte - chamada Adriana e decidimos, eu e ela, meio que por falta de opção, que aquela música seria a "nossa música". Perdi Adriana e a canção de vista e, muitos anos depois, uma amiga me enviou a faixa via aplicativo de compartilhamento. Entrei em contato com Alvin L, o autor, que foi muito gentil e explicou que, enquanto a faixa fosse lançada de forma amadora não haveria problema. Reclamou que escolhemos uma música ruim sua mas quando ouviu a nossa versão, disse ter gostado muito. Hoje, há mais referências no Google à "nossa" "Adriana na Piscina" do que ao original dos Rapazes de Vida Fácil. De vez em quando alguém me encontra na rua e me para, relembrando os tempos da LP e, para a minha mais absoluta frustração, me diz: "Adoro suas músicas mas Adriana Na Piscina é a melhor que você já fez". Humpf!

"Garota de Plutão" surgiu a partir de um desafio de uma outra amiga, que morava bem longe, cujo "nick" nas redes sociais - em um tempo em que havia a obrigatoriedade  de se ter apelido para frequentar a virtualidade - era "Garota de Saturno". Ele me pediu uma música para chamar de sua e eu tive que trocar de planeta, embora, ainda assim, eu tenha conseguido rimar Saturno com noturno no verso mais idiota que eu já escrevi. Uma curiosidade de  "Garota de Plutão" é que, antes de gravar, nunca havíamos tocado ela ao vivo e, mesmo depois de gravada, só a tocamos uma única vez.

Foi em um show nosso, daqueles entupidos de gente, que tocamos "Garota de Plutão" pela única vez. O vocalista de uma banda local subiu ao palco sem ser convidado e tentou encaixar sua titubeante gaita em algum lugar da melodia. Nós tínhamos uma fama de antipáticos e boçais porque não chamávamos ninguém ao palco para participar de nossas performances. Mas a verdade é que éramos ruins demais para improvisar.

Com o repertório bem batido nos shows, era hora de pensar em gravar o segundo disco. Tudo ia muito bem até que a mãe do imberbe baterista resolveu puni-lo pelas notas baixas - não na bateria mas no colégio -  o impedindo de tocar na banda. Por várias vezes tivemos que improvisar um baterista no dia do show, pois Douglas era proibido de sair de casa pela sua querida -  e tão amada por nós  - genitora. A profecia de Ítalo ao sair da banda se realizara: - Vocês ainda vão sentir muito a minha falta.

Com tudo pronto para gravar o disco, começamos a procurar um novo baterista desesperadamente. Testamos diversos músicos, até uma moça, mas ninguém parecia se encaixar. Para não perder o que havíamos ensaiado, marcamos o  estúdio em um dia dos namorados de 2005 e, literalmente, sequestramos Douglas para as gravações. Apesar de termos apenas 8 horas de estúdio acertadas, o disco - graças ao fato do dono do estúdio gostar muito do nosso som - foi gravado em 13 horas, varando a madrugada adentro. Douglas gravou a parte de bateria e foi embora. Naquele dia, as namoradas dos integrantes da LP passaram o seu dia sozinhas. Ou não.


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