Recentemente, um texto meu publicado neste modesto blog causou certo mal-estar entre amigos de esquerda. Alguns alegaram que eu estaria validando o chamado “pobre de direita” enquanto deslegitimaria o “burguês de esquerda”. E, em parte, talvez estejam certos.
Antes de prosseguir, considero importante esclarecer que o uso da expressão “burguês de esquerda” não tem como objetivo ofender ou desqualificar ninguém. Ela surge, justamente, como contraponto à naturalização do termo “pobre de direita”, frequentemente utilizado de maneira carregada de desprezo, ironia ou paternalismo. A intenção é expor o preconceito embutido nessa lógica, que muitas vezes trata o pobre que não se alinha a determinada visão ideológica como alguém alienado, incapaz de pensar por si mesmo ou até moralmente defeituoso. Não por acaso, um intelectual como Jessé Souza chegou a escrever um livro como A Ralé Brasileira e, posteriormente, O Pobre de Direita, no qual o próprio título já carrega um julgamento ao rotular como “bastardo” o pobre que não compartilha de sua linha de pensamento.
Dito isso, afirmo que “em parte estão certos” sobre a minha crítica ao "burguês de esquerda" porque acredito, sim, que qualquer pessoa que assuma um posicionamento ideológico — seja ele qual for — deveria buscar um mínimo de coerência entre aquilo que defende e aquilo que pratica. Não faria sentido, por exemplo, eu me declarar anarquista e ao mesmo tempo sustentar posições rigidamente autoritárias e estatizantes. Ainda assim, é perfeitamente possível que eu reconheça o Estado como um mal necessário e compreender que, na sociedade em que vivemos, sua ausência completa talvez fosse ainda pior do que sua presença excessiva. Isso não seria necessariamente incoerência. Seria apenas o reconhecimento de que a realidade é mais complexa do que qualquer teoria.
Da mesma forma, aquele que chamei de “burguês de esquerda” pode usufruir plenamente das benesses do capitalismo e ainda assim sustentar valores progressistas. Suas contradições são, no fundo, as mesmas contradições inerentes a qualquer ser humano. Porque a contradição faz parte da experiência humana. Nenhum de nós vive em absoluta conformidade com aquilo que acredita.
E não é isso que me incomoda.
O que realmente me incomoda é a intolerância de pessoas de esquerda, notadamente as mais abastadas, diante das contradições do pobre de direita. Porque, sendo também contraditórios, por que tratam com tanto desprezo alguém que simplesmente chegou a conclusões políticas diferentes das suas?
O pobre tem obrigação moral de aderir à cartilha ideológica que a esquerda considera mais adequada à sua condição social? Ele perde o direito à autonomia intelectual por pertencer a uma determinada classe? E, se existe uma cobrança tão intensa para que o pobre seja “coerente” com aquilo que supostamente favoreceria seus interesses, não deveria o burguês de esquerda ser igualmente cobrado a viver de maneira mais compatível com os ideais que defende?
Ou ser de esquerda se resume apenas a sustentar discursos progressistas enquanto se desfruta, sem maiores conflitos, dos privilégios produzidos pela desigualdade que se critica?
O meu ponto nunca foi crucificar o burguês de esquerda por suas contradições. Nem absolver o pobre de direita das dele. Todos somos contraditórios. Todos conciliamos crenças, interesses, afetos, medos e conveniências de maneiras imperfeitas.
O que defendo é algo muito mais simples: O pobre de direita tem o mesmo direito de pensar como quiser que o burguês de esquerda reivindica para si. Ambos podem estar certos. Ambos podem estar errados. Essa é outra discussão. Mas me parece injusto transformar apenas um deles em caricatura moral.
Porque, gostemos ou não, há casos em que o pobre de direita demonstra mais coerência entre os valores que afirma defender e a forma como vive do que aqueles mais ricos que pregam igualdade social. Muitos reproduzem, no cotidiano, exatamente as estruturas de desigualdade que condenam em discurso.

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