Pular para o conteúdo principal

Tesouros da Juventude: "30 Greatest Hits" - The Rolling Stones (1978) - Parte II

O lado A começa energético com "Let´s Spend The Night Together", uma das mais deliciosas canções já gravadas pelos Stones. Depois, vem a igualmente apetitosa "Tell Me", uma das primeiras composições originais da dupla Jagger e Richard. "It's all over now" é um rhythm'n'blues violento de Bobby  Womack, muito bem coverizado pela banda. "Good Times, Bad Times" é um blues comum, porém com um andamento levemente quebrado que o deixa mais palatável. "Time is on My Side" é a canção monstruosa de Jerry Ragavoy que os mais incautos juram ser dos Glimmer Twins. Mas não é. Gravada um ano antes pelo trombonista Kai Widing, com a participação de Cissi Houston e Dione Warwick, a canção só estouraria mesmo no ano seguinte, com o bando de Jagger.

"Heart of Stone" é uma balada sem muito brilho, enquanto "Last Time" é um rock virulento de riff repetitiva, prenúncio da fórmula que se repetiria carreira afora. "Play With Fire" é uma das minhas preferidas da banda, com sua letra forte, de tinturas niilistas. A última do lado A é o clássico absoluto "Satisfaction". Mas eu, particularmente,  prefiro a versão do Devo.

O lado B abre com "Get off Of My Cloud", que também é uma das minhas preferidas, com sua batida "hip" hipnotizante. "I'm Free" e "As Tears Go By" são canções feitas para outros artistas que os Stones acabaram gravando. "19th Nervous Breakdown", como o nome sugere, é uma das canções mais nervosas gravadas pela banda. "Mother's Litlle Helper" e a soturna "Have You Seen Your Mother, Baby, Standing In The Shadows" são interessantes, mas é  "Paint It Black", com toda a sua força negativa, que encerra o segundo lado de forma magnífica.

"Lady Jane" e toda a sua delicadeza abre o lado C, seguida de "Not Fade Away", cover sem brilho de uma canção igualmente sem brilho de Buddy Holly. "Ruby Tuesday" inaugura o psicodelismo no disco e a maravilhosa "Dandelion", um obscuro lado B, dá sequencia. "We Love You" é chata mas as cores de "She's a Rainbow" compensa. "2000 Light Years From Home" prova que psicodelismo não era mesmo a praia deles, encerrando, de forma meio amarrada, o terceiro lado.

"Jumping Jack Flash" abre o último e mais roqueiro lado, seguida de "Child Of The Moon" e a poderosa "Street Fighting Man". "Honk Tonk Woman", não fosse o irritante "cowbell", seria uma das melhores canções já gravadas pelos Stones. Mentira, é sim. Mas que esse agogô dos infernos irrita, irrita. "You Can Always Get What You Want" nunca foi das minhas preferidas, mas muita gente gosta. Já "Wild Horses" está entre as melhores baladas rock (ainda se usa este termo?) de todos os tempos. "Brown Sugar" encerra o lado 4 e o álbum duplo bíblico.

Sempre se discutiu quem seria melhor, Beatles ou Stones. Pelo conjunto da obra, sem dúvida, os Beatles foram muito mais consistentes, apesar das derrapadas aqui e ali. Focando apenas nos anos 60, percebe-se que os Stones foram muito mais uma banda de "singles" enquanto os Beatles, uma banda de discos completos. Com o final da carreira dos quatro de Liverpool e a entrada arrebatadora dos Stones nos anos 70, a banda de Jagger e Richard passaria a ser conhecida  também pela excelência de discos completos, como Let It Bleed e Sticky Fingers.

Por terem me aberto as portas da percepção para o rock and roll (sorry, Jim Morrison), as 30 faixas deste álbum duplo tosco estarão sempre na minha memória afetiva e serão, eternamente, um de meus grandes  tesouros da juventude.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...

O SONHO

  Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não. Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda ...

A CARTA ANÔNIMA

 Quando eu era menino, ainda ginasiano, lá pela sexta série, a professora resolveu fazer uma dinâmica bastante estranha. Naquele tempo ainda não tinha esse nome mas acho que ela quis mesmo fazer uma dinâmica, visto pelas lentes dos dias atuais. Ela pediu que cada aluno escrevesse uma carta anônima, romântica, se declarando para uma outra pessoa.  Eu confesso que não tive a brilhante ideia de escrever uma carta anônima para mim mesmo e assim acabei sem receber nenhuma carta falando sobre os meus maravilhosos dotes físicos e intelectuais. Já um outro garoto, bonitão, recebeu quase todas as cartas das meninas da sala. E sabe-se lá se não recebeu nenhuma carta vinda de algum colega do sexo masculino, escrita dentro de algum armário virtual. Eu, é claro, escrevi a minha carta para uma menina branca que nem papel, de óculos de graus enormes e um aparelho dentário que mais parecia um bridão de cavalos. Ela era muito tímida e recatada, havia nascido no norte europeu mas já morava...