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O enterro do amor

O amor é um sentimento redundante e incoerente. Depois do amor, enquanto há ódio, ainda há alguma esperança. Quando sobrevêm a indiferença, o amor está definitivamente morto e enterrado. Uma antiga canção soul, da obscura banda norte-americana The Persuaders, já afirmava em seus versos que a linha que separa o amor do ódio é muito fina. Já a que separa o amor da indiferença é grossa como uma corda de atracar navios. Dificilmente será rompida para que o desprezo se transforme novamente em paixão.

O ódio é o amigo falso do amor, e a indiferença, o seu maior inimigo. Enquanto sentimos raiva, enquanto ardemos em pensamentos de vingança pelo abandono sofrido, enquanto sentimos o enorme desejo de provar ao objeto outrora amado de que podemos ser ainda mais felizes sem ele, o sentimento de raiva ainda pode voltar a ser amor. Quando a indiferença toma o seu lugar, quando olhamos para aquele ser que tanto amamos no passado e percebemos que não sentimos absolutamente mais nada por ele, quando vemos o ex-amor acompanhado de um novo amor e é, para nós, como dois estranhos, assim se dá o fenecimento definitivo do sentimento mais raro que pode haver sobre a face da terra.

Nada mais estranho para mim do que reler as cartas de amor que enviei no passado a outras mulheres senão a minha esposa atual. Parece que eu me encontro com um outro eu, não me reconhecendo mais naquelas palavras, ousando duvidar da minha própria sinceridade. Não que eu não tenha sido sincero. Provavelmente fui mais sincero do que seria se afirmasse que não senti, naquele momento, o que descrevia em palavras. Mas, definitivamente, aquele escriba apaixonado não era mais eu.

Mas, passado o momento e superado o ódio - e eu sempre odiei meus ex-amores em um primeiro momento - se não restar o caminho do carinho e amizade, toma conta a indiferença. E indiferença, eu ouso repetir, é o pior sentimento que alguém que já amou pode sentir pelo objeto antes amado.

A indiferença amorosa é como se passássemos anos e anos frequentando as reuniões dos alcoólicos anônimos e nos fosse dito que jamais poderíamos beber novamente. No entanto, a despeito do alcoolismo ser uma doença irreversível, voltaríamos a beber nossos chopes ao final da tarde sem jamais nos viciar novamente. A indiferença é, no amor, como se olhássemos para aquilo nos viciou e não nos despertasse mais o menor desejo de voltar a consumir aquela droga, Ainda mais triste, é como se jamais tivéssemos posto aquilo em nosso organismo antes.

A separação de um casal é um passo que deve ser muito bem pensado antes de ser dado porque trata-se de um jogo muito perigoso, onde o jogador, de tanto jogar, de tanto blefar, pode perder a mão e, assim, ser abandonado para sempre pelo objeto amoroso. Ame, e se não der para amar, ao menos odeie. Mas odeie sempre, pelo menos um pouco, por mais estranho que este conselho pareça ser e é. Se ainda pretende um dia voltar com seu ex-parceiro, nutra um saudável ódio, mesmo uma pequena raiva, por ele. Porque, quando olhar pra ele e não conseguir enxergar mais alguém que, algum dia, se deitou e dividiu as mais escabrosas intimidades com você, esteja certo, ou certa: seu ciclo junto àquela pessoa, findou. O amor, que era tão grande, afinal, descansou. E descansa em uma perturbadora paz.





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