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Um disco por ano de vida: "Too Much Too Soon" - New York Dolls (1974) - Parte II

Muito do "nada" que aconteceu na carreira dos New York Dolls até 1974, deveu-se, antes de qualquer evento ou pessoa, a eles mesmos. Sempre envolvidos com drogas, não deram ouvidos ao produtor Todd Rundgren, que reclamou da falta de um single consistente para sustentar o álbum que produzira, e ainda saíram falando mal do trabalho do músico na produção do disco. Para o segundo lp, que já estava previsto no contrato original com a Mercury, a banda resolve chamar ninguém menos que o lendário Shadow Morton. Ao chegar ao estúdio, Morton se deu conta que, simplesmente, não havia o que gravar. Mais interessados em sexo e drogas do que em rock and roll, os Dolls não prepararam material suficiente e o jeito foi recorrer a covers e material retirado das fitas-demos ainda anteriores ao primeiro LP.

Shadow Morton era um produtor famoso  pelo trabalho com as girl-groups dos anos 60, em particular as Shangri-las, das quais Johanssen e Sylvain eram fãs. Morton, naquele momento, estava profundamente descontente com a indústria musical e encontrou naquela banda esquisitona uma fonte de inspiração renovadora e a liberdade criativa que precisava para voltar a ter fé no rock and roll. E aqueles dias do inverno de 73/74 foram realmente loucos, criativamente falando.

Shadow Morton, à época das gravações.
O lado A de "Too Much Too Soon" abre com "Babylon", um vibrante rhythm and blues com uma primeira parte de compassos deliciosamente irregulares. Na sequencia, a cover obscura de "Stranded in The Jungle" dos não menos obscuros The Jayhawks, uma banda doo-wop dos anos 60. A versão dos Dolls é infinitamente melhor do que o original, diga-se de passagem.  "Who Are The Mystery Girls" é um r&b sacudido e bem energético que não deixa a bola cair para a hora de "Showdown", clássico de Gumble & Huff, eternizados na voz de Archie Bell & The Drells para o verão de '68. Neste caso, apesar da versão das bonecas ser ótima, o original ainda levou a melhor. O primeiro lado se encerra com a mais fraca "It's Too Late", um blues-rock que não compromete em nada o brilhantismo da primeira parte do disco.

Abrindo o outro lado, a maravilhosa "Puss'n'Boots", que desmata a trilha para "Chatterbox", cantada por Johnny Thunders e um dos melhores momentos do disco. "Bad Detective" é outra cover, apenas correta, desta vez dos Coasters. Mais uma cover, "Don't Start Me Talking" do blues-man Sonny Boy Williamson, na sequência. Fechando o lado, uma impressionante versão de "Human Being", original de JohanssenThunders, já presente na demo "Mercy Street Sessions". Quem conhece a versão "original" entende o milagre que um par de anos e um bom produtor podem fazer por uma canção.

Descompromissados com números de vendagem, Morton e os Dolls abusaram de percussão, coros femininos, ruídos, efeitos e tudo que a gravadora pôde e aceitou pagar. O resultado são as 10 faixas de "Too Much, Too Soon", um disco "over" por excelência, que tinha absolutamente tudo para dar errado. E deu. Implacavelmente triturados pela crítica, que considerava que o som da banda fora completamente alterado em nome de um caminho mais curto para o sucesso, e sem as boas vendagens que nunca viriam e os levariam ao estrelato, os New York Dolls se afundariam de vez nas drogas, até ruir de vez, em um quarto de hotel qualquer de Los Angeles, no ano seguinte.


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