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Os cemitérios de Moscou.

Outro dia, folheando um velho e empoeirado passaporte, já pensando em renovar para fazer alguma viagem internacional para comemorar o aniversário que se aproxima, encontrei um carimbo em alfabeto cirílico, datado do longínquo ano de 1989. Confesso que nem me lembrava mais daquela que foi, de fato e de direito, a minha primeira viagem internacional, ainda que não tenha sido feita a turismo e sim, a trabalho.

Naquele ano, a antiga União Soviética passava por enormes transformações políticas, sob a mão de Mikhail Gorbatchev. Os olhos do mundo se voltavam, com assombro, para a derrocada, cada vez mais iminente, do regime comunista. Eu trabalhava como assessor de comunicação de um político baiano ligado ao PC do B, hoje em um partido de ideologia completamente oposta, e, tendo ele sido convidado pelo governo russo para conhecer o país, aceitou e ainda levou uma pequena comitiva. Entre eles, estaria um dos seus assessores, que nem seria eu, na verdade. Mas, um pequeno acidente doméstico do acompanhante escolhido, colocou Moscou na rota das cidades que já pude conhecer.

 Era uma manhã ensolarada de sábado de primavera em Moscou, quando o avião da Air France aterrizou no então maior  dos três aeroportos da cidade. O Moskovo Sheremetievo, a cerca de 30 km do centro, era, na época, uma construção sóbria e acinzentada, como, eu perceberia depois, assim também era a imensa maioria dos prédios da capital do pais. Visivelmente menor do que o Aeroporto Internacional 2 de Julho,   de onde eu saíra 36 horas antes, já enunciava a percepção que eu teria a seguir, de que o comunismo estava bastante longe daquilo que eu entendia como paraíso.

Foram cinco dias cansativos e inúteis. Eu não entendia patavinas do russo e sequer o alfabeto ajudava. Também, a maioria dos moscovitas não sabiam falar inglês naquele tempo. Perdido em salas antigas, enormes e de pé direito gigantesco, sem direito a fone para tradução simultânea, como foi agraciado o nobre deputado que acompanhei, me limitei a ser um boy de luxo, trazido de tão longe para servir água e café ao nobre parlamentar.

Além da grande quantidade de sujeira nas ruas e das longas filas nos estabelecimentos comerciais, uma cena desta viagem eu jamais esqueci e cheguei a ter pesadelos com ela. Na Rússia comunista, os cemitérios, gigantescos, quando lotavam, avançavam pelas ruas vizinhas. Não podíamos tirar fotos - éramos acompanhados todo o tempo por um agente da KGB - e nunca encontrei na internet nenhuma referência ao que vi. Daí não poder documentar o que havia testemunhado. Mas, a lembrança de calçadas tomadas por túmulos em volta de cemitérios, alguns já invadindo a própria rua em si, sempre foi, para mim,bastante perturbadora.

Muitos anos depois, uma prima foi morar em Moscou, para ensinar capoeira nas academias de lá. A arte marcial brasileira é bastante popular na Rússia e ser natural de Feira de Santana, ainda que não pratique o esporte, me rendeu algumas amizades com camaradas moscovitas interessados e devochkis interessantes. Eis que, certa vez, toquei no assunto das minhas macabras lembranças da cidade. Um deles me disse que, assim que Vladmitir Ivashko, sucessor de Gorbatchev, assumiu, mandou construir novos cemitérios e destruiu os túmulos que invadiam a área externa das necrópoles.

Gostaria de visitar Moscou novamente, desta vez como turista. Dizem que voltou a ter a beleza esplendorosa que tinha antes da revolução bolchevique e eu não duvido. Nada onde o comunismo põe a mão costuma florescer. Ao contrário, enfeia e morre. Ainda bem que os russos perceberam isto a tempo de que Moscou não se transformasse em um imenso cemitério.

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