Pular para o conteúdo principal

Clássicos do rock: Pink Floyd - The Wall (1979)

Provavelmente, 1979 é o ano com maior número de lançamentos presentes em minha coleção de discos. Do London Calling, o álbum duplo do The Clash que mudou os rumos do punk rock à dinamite pop de Discovery, disco daquele ano da Electric Light Orchestra, boa parte do que foi lançado naquele ano em termos de rock e pop figuram nas minhas fileiras audiófilas.

Uma das explicações é que 79, realmente, foi um ano prolífico para a música do planeta Terra. O big-bang do punk rock e sua rachadura jamais fechada na indústria fonográfica haviam acontecido há apenas dois anos e o mundo, em plena guerra fria, ainda podia se dar ao luxo de acreditar em tempos melhores vindouros.

A outra explicação, bem mais particular e intimista, é que, em 1980 eu comecei a descobrir a música através de visitas a uma rede de lojas de discos da minha cidade, que estava em processo de falência, após uma desastrosa tentativa de criar um comércio atacadista um ano antes. E o que estava em liquidação eram justamente discos lançados em 1979.

DSlow Train Coming, o disco "gospel" de Bob Dylan, ao "Dream Police" do Cheap Trick, havia um universo de bons discos a serem comprados a preços de banana e ouvidos como se fossem ouro. E, tudo isto, para um menino de 13 anos fascinado por música desde sempre, era como estar em uma fábrica de chocolates. Mas, o disco mais importante de 79 não estava nos balaios, saldos e promoções daquela loja de disco.

Tomei conhecimento da existência de  The Wall, o álbum duplo do grupo inglês Pink Floyd, um ano antes e bem na época de seu lançamento. Um amigo, aspirante a DJ, o comprara apenas para retirar o ruído de helicóptero de "Another Brick In The Wall" e incorporá-lo ao seu repertório de efeitos especiais. O disco tinha uma apresentação bastante atraente e fiquei curioso para ouvi-lo. 

Mas, minha cabeça, em 1979, ainda estava na disco-music e na música negra da época e, aquilo, definitivamente, não me soara nada bem. Ainda assim, gravei três músicas em uma fita cassete: A segunda - e mais famosa - parte de Another Brick In The Wall, a belíssima One Of My Turns e  a sacudida Young Lust. O resto do disco me soara terrivelmente chato naquela primeira audição.

Por outro lado, aquela primeira audição desastrada de The Wall me fez criar uma antipatia natural pelo Pink Floyd. E a má fama que o grupo adquiriu entre os punks não ajudou em nada a reverter esta impressão ruim. Já em 81, com o meu gosto completamente voltado para a new wave e o punk rock, parecia mesmo não haver lugar, em meu gosto musical, para os devaneios progressivos da banda de David Gilmour e Roger Waters. Ainda assim, adquiri um single com Another Brick In The Wall e One Of My Turns. Por anos, o meu gosto pelo Pink Floyd se resumiria, basicamente, àquelas duas músicas.


Trilhas sonoras costumam servir de meros  complementos sonoros para o enredo de um filme.Algumas são fantásticas mas se prendem irreversivelmente ao conteúdo da película a que fazem parte. Outras, pela magistralidade, conseguem se sobressair e ter vida própria. 

Algumas vezes, as trilhas sonoras atingem um status até mesmo superior ao filme que sonorizam, como é o caso de Blow Up, filme de Antonioni musicado pelo jazzista norte-americano Herbie Hancock e com participações dos Yardbirds. Mas, casos de discos que ganham uma "trilha visual" para ilustrá-los são raríssimos. E "The Wall" é um destes casos.

Em 1982, o diretor britânico Alan Parker, literalmente, filmou um disco. Com o acréscimo de alguma coisa aqui e ali e deixando algumas poucas faixas de fora, a película reproduz, fielmente e na ordem, a história contada no disco, três anos antes. E foi aí que eu me apaixonei por The Wall, o disco, Roger Waters e o Pink Floyd. A busca do tempo perdido me fez fuçar as primeiras gravações da banda, ainda um combo psicodélico liderado pelo tresloucado Syd Barrett. Ainda que hoje eu tenha e ouça com prazer a maior parte da produção do Floyd, alguns discos, como Wish You Were Here e Animals ainda me soam perfeitamente inacessíveis. O estrago de ter passado ao largo do Floyd durante anos, de fato, foi enorme. Talvez um dia, quem sabe...

Uma vez encantado com o filme, não me restou outra alternativa a não ser, finalmente, adquirir o imponente álbum duplo. Não foi uma experiência fácil. Só apenas depois de muitas e muitas audições que eu fui compreendendo o que significava aquele muro que Waters criara entre ele e o resto da humanidade, especialmente os próprios fãs do Pink Floyd. E, claro, pude aplicar toda aquela percepção existencialista fantástica à minha própria vida. The Wall é até bem mais que um disco, é uma verdadeira terapia em vinil. É importante ressaltar que o tema do disco é, basicamente, "um muro e como quebrá-lo" e não "como construir um muro estabelecendo uma zona de conforto entre você e o resto da humanidade". E visto, aliás, ouvido por este ângulo, "The Wall" é, simplesmente, quimérico. E se tornou muito mais do que um item na discografia de uma das maiores bandas da história do rock mundial.

O lado A abre com a imponente "In The Flesh", que contém uma das mais interessantes introduções instrumentais já escritas e prevê o clima opressivo do resto do disco. "The Thin Ice" é uma balada sobe estar sempre no limite e, provalvemente, sua inspiração pode ter sido o ex-integrante Syd Barrett. "Another Brick In The Wall Pt. I" é a primeira parte daquilo que se tornaria, contra todas as expectativas, o maior sucesso em single da banda até hoje. "The Happiest Days Of Our Lives" serve como uma introdução urgente ao mega hit "Another Brick In The Wall Pt. II". "Mother" encerra um dos melhores  lados A que um disco de rock já pôde ter.

Do outro lado, "Goodbye Blue Sky" fala da perda dos sonhos de infância e adolescência. "Empty Spaces" chega a lembrar o antigo Floyd da fase imediatamente posterior à saída de Syd Barrett. "Young Lust" é um hard rock poderoso e uma das melhores faixas já escritas no estilo e, consequentemente, executadas pelo Pink Floyd. Até hoje, a minha preferida do disco inteiro. "One Of My Turns", uma excelente canção sobre abandono e frivolidade, dá sequencia ao disco. "Don't Leave Me Now" é atonal e opressiva e tem como continuidade a parte III - e última - de "Another Brick In The Wall". "Goodbye Cruel World", uma canção virulenta sobre suicídio, encerra o primeiro LP.

O terceiro lado do disco abre com "Hey You", que viria a se tornar uma das mais pedidas em shows. "Is There Anybody Out There" introduz "Nobody Home", que tem como "outro" a belíssima e soturna canção "Vera". A épica "Bring The Boys Back Home" introduz "Comfortably Numb", uma das mais fantásticas colaborações de Waters e Gilmour, que encerra o lado C.

O último lado do disco é bem mais fraco que os outros três, denotando um certo cansaço criativo. Ainda assim "The Show Must Go On" parece uma boa canção desperdiçada. "In The Flesh" é, basicamente, a repetição da faixa de abertura e "Run Like Hell" dá a impressão de que a banda pretendia criar algo dançante que servisse de hit alternativo, o que parece não ter dado muito certo. "Wating For The Worms" é outra grande canção perdida. "Stop" é curta demais para ser interessante e "The Trial" apenas "amarra" a história do disco, assim como a comovente faixa de encerramento, "Outside the Wall". Não é, absolutamente, um quarto lado frustrante, porém, a necessidade de encerrar a trama do disco compromete definitivamente a sua qualidade. Porém, nada que não possa ser compensado pelo brilho de uma obra cortante e profunda.

The Wall encerrou um ciclo de relevância na carreira do Pink Floyd. Caso a banda terminasse ali, sua discografia teria feito jus ao adjetivo de perfeita. Mas, então, vieram os discos pouco inspirados, as brigas, as voltas, reviravoltas e revoltas que marcaram a decadência da lenda do rock progressivo. Porém, o disco da estranha temática do muro entre o artista e a platéia permaneceu sendo um dos maiores momentos desta coisa esquisita chamada rock and roll.

Comentários

Igor Maxwel disse…
Segundo melhor disco do Pink Floyd, só perde para o Wish You Were Here - clássico de 1975. Mas quando se trata de álbuns duplos 100% consistentes, o exemplo máximo talvez seja The Wall.

Postagens mais visitadas deste blog

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...

O SONHO

  Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não. Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda ...

METEORO NOS DINOSSAUROS

Um dia Deus ganhou consciência. Não se autodenominava Deus, é bem verdade,  este é um nome que os homens lhe dariam bem mais tarde. Mas foi então que Ele percebeu onde estava. Era tudo um imenso vazio. Não sabia se fora criado, nem porque estava ali. Percebia suas formas, seus braços, suas pernas, seu corpo e percebeu também que podia imaginar. Sim, imaginar. E logo se deu conta que tudo o que Ele imaginava tomava forma. Foi então que fez um ser à sua semelhança e quando o criou tudo se iluminou à sua volta. Chamou-o de Lúcifer pois entendeu que deveria chamar aquele ser por um nome. Ainda que criasse outros seres idênticos a Ele, Lúcifer permaneceu sendo o anjo preferido de Deus. Deus também percebeu que poderia criar pontos no vazio e os chamou de estrelas. À sua volta Deus criou planetas e não se cansava de imaginar outros tipos de astros siderais. Ele havia descoberto um sentido para a sua existência. Ao todo chamou de universo. Criou o sol, em sua volta alguns planetas e a um,...