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O POBRE DE DIREITA E O BURGUÊS DE ESQUERDA - PARTE III (A BATALHA FINAL)


Quando não estou patrulhando o mundo com a minha identidade secreta de Superman, trabalho em uma copiadora como Clark Kent.  Jornalista aposentado, meu trabalho na copiadora é um complemento de renda, mas também uma forma de me manter ocupado. E a minha loja fica ao lado de um bar — e um bar é meio como um grupo de WhatsApp do mundo real, onde bebuns debatem os grandes temas mundiais entre uma cerveja e outra.

Falam alto, bradam suas ideias com a convicção de um senador romano. E eis que alguns dias atrás ouvi um acalorado debate de um típico "burguês de esquerda" e um "pobre de direita" sobre a então pauta quente atual: O fim da escala 6x1. 

O "plot twist" aqui é óbvio: o burguês de esquerda defendia a escala 5x2, enquanto o pobre de direita elencava razões para ser contra aquilo que, a princípio, o beneficiaria.

Por fazer afirmações como "o capitalismo venceu o socialismo ao longo da história", muita gente me rotula de neoliberal, me acusa de falta de empatia pelos mais pobres ou pelas classes trabalhadoras. Logo eu, um proletário (foi Marx quem falou) cujos meios de produção pertencem a mim mesmo. Resumindo: eu não passaria de um "porco capitalista". É claro que se trata de um baita equívoco. Para aceitar a vitória do capitalismo sobre o socialismo ao longo da história não é preciso ter muito dinheiro ou grandes investimentos. Basta entender como ele superou sua antítese. Mas, claro, desqualificar alguém com rótulos é tentador — tão atraente quanto chamar os socialistas de antissociais. No final das contas, são só provocações bobas.

Dizer que o capitalismo ganhou a disputa não é o mesmo que ser apaixonado por ele. Reconhecer que o time adversário goleou o nosso, se foi isso o que aconteceu na prática, não é torcer por ele; é só encarar os fatos. E o capitalismo, jogando fora de casa, deu uma goleada histórica no socialismo dentro do território deles.

Para começo de conversa, não existem "boas intenções" em nenhum dos lados. Nos dois sistemas, quem está no topo quer dominar quem está embaixo. Como diz aquela filosófica canção da banda As Meninas, seja em um ou em outro, "o de cima sobe e o de baixo desce". O que muda é a narrativa: No socialismo, a classe dominante jura que é a salvadora dos oprimidos enquanto os explora. Já no capitalismo, a elite entendeu logo cedo que apenas explorar o trabalhador não faz o sistema funcionar. O trabalhador só rende se acreditar que pode subir na vida e se tornar, ele mesmo, um patrão.

Claro que isso é, na maioria das vezes, uma ilusão, porque a mobilidade social nunca foi a real prioridade do sistema capitalista (nem do socialista). Mas não há dúvidas de que o capitalismo, ao longo da história, entendeu melhor os desejos mundanos do proletariado, enquanto o socialismo achou que bastava dar o básico para as pessoas sobreviverem. Simplificando a história: se no capitalismo o homem foi tratado como produto, no socialismo ele virou apenas engrenagem. E foi aí que o inferno venceu o purgatório.

O capitalismo venceu porque percebeu que o trabalhador dá mais lucro se tiver tempo livre para gastar. Na Coreia do Norte, a jornada é praticamente ininterrupta, já que nos dias de descanso o cidadão costuma ser convocado para trabalhos "voluntários" em obras do governo. Na China — que mistura política comunista com economia capitalista —, as jornadas são absurdas e o descanso é luxo. Em Cuba, o regime chegou a proibir o Natal em 1969 para não parar a colheita de cana, e o feriado só foi devolvido quase trinta anos depois, por causa da visita do Papa João Paulo II. Hoje o país tem por volta de dez feriados, mas cada um deles foi conquistado a duras penas contra a rigidez do Estado.

É óbvio que o capitalismo gerou e ainda gera muita pobreza, fome e violência. Mas, até aí, o socialismo também fez e faz a mesma coisa. A grande diferença é que o socialismo falhou em criar um bem-estar real e duradouro. Enquanto isso, o capitalista, focado apenas no lucro que o trabalhador poderia lhe render, percebeu que tratar o funcionário como escravo trazia mais prejuízo do que vantagem. Foi puramente por interesse no lucro que o capitalista foi melhorando a vida da classe trabalhadora ao longo das décadas. Mas, repito, o capitalismo fez isso não por ser bonzinho, não por ser o melhor e mais justo sistema econômico. Fez isso por não ter outra alternativa. Era melhorar a vida do trabalhador ou sucumbir. A lição que o socialismo insiste até hoje em não aprender, perpetuando a miséria. 

Eu, aqui no Planeta Diário, já trabalho na escala 5x2 faz tempo. Enquanto isso, a rotina dos políticos em Brasília fica em algo perto do 3x4. Dar o passo à frente e acabar com a escala 6x1 deveria ser um consenso no país, mas também deveria ser um processo descontaminado de ambições políticas. Sabemos que não vai ser simples. No começo, vai ter, sim, uma onda de inflação, desemprego e empresários quebrando. Mas a grande jogada do capitalismo é justamente a sua capacidade de se adaptar e reinventar. Quando a livre concorrência entrar de verdade nessa equação, tudo se normalizará e o resultado vai ser uma relação mais humana entre o trabalhador e o emprego — justamente a área onde o capitalismo, historicamente, superou o socialismo. Afinal, para o capitalista, pior que diminuir o lucro é perdê-lo totalmente.

Ver político de direita esbravejando nas tribunas que vai haver demissão em massa, desenhando um futuro apocalíptico, só prova uma coisa: A cegueira ideológica deles está amarrada aos interesses de quem eles realmente defendem, e que, com certeza, não é o povo.

Por outro lado, a esquerda, desesperada para permanecer no poder, se esquece de avisar a população que essa transição não vai ser, nem de longe, um mar de rosas. Muita gente vai perder o emprego e, com a inflação que deve vir junto, haverá quem acabe ganhando menos para trabalhar menos. O equilíbrio virá, mas será a longo prazo. Mas a direita tentar convencer o trabalhador de que reduzir a sua jornada seria uma catástrofe para ele só escancara as verdadeiras intenções de uma elite política que critica o lado oposto, mas não consegue provar que é melhor do que ele. O bom dessa discussão toda é que, neste momento, todas as máscaras dos políticos caem. Dos que querem manter o povo sob rédeas aos  meros oportunistas até chegar naqueles que apenas fingem que têm algum apreço pelo pobre. Se é que realmente se dão ao trabalho de fingir.

Enquanto isso em. Pindorama, no bar aqui ao lado, o pobre de direita tenta convencer o burguês de esquerda de que trabalhar menos é um mau negócio para ele, um trabalhador. Do outro lado da mesa, o burguês de esquerda defende que a sua própria perda de lucro seria um bem para ele. O Brasil é surreal.


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