Mesmo para quem não é familiarizado com a música portuguesa, é difícil passar despercebido pela pequena pérola que é “Canção do Engate”, provavelmente a música mais conhecida do cantor e compositor lusitano António Variações:
“Vem que amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás...”
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás...”
A letra, uma ode ao amor imediato, intenso, se aproxima muito do que se poderia chamar de um poema. A harmonia e o arranjo nos remete imediatamente a uma banda que, em 1984, ano do lançamento de “Canção do Engate”, ainda estava mal saída de algum berçário garagista de Manchester, os Smiths.
Quando “Canção do Engate” chegou às rádios portuguesas, seu interprete já se encontrava gravemente doente em um hospital de Coimbra, vítima de broncopneumonia, provavelmente causada pela AIDS. António Variações, que era homossexual assumido, seria o primeiro artista português a morrer acometido pela síndrome.
Porém, o artista, ao mesmo tempo que se sentia muito à vontade em falar da sua sexualidade, jamais levantou bandeiras de ativismo, o que fez com que grande parte da juventude portuguesa se identificasse com suas canções. Cabeleireiro, nascido camponês em um dia de inverno de 1944, Variações também instituiu o primeiro salão unissex do país.
António Variações era um músico autodidata. Não sabia ler música nem ao menos tocar um instrumento. Criava suas letras e melodias intuitivamente, gravando-as em fita cassete para, posteriormente, serem arranjadas por amigos músicos. Começou a se apresentar nas discotecas de Lisboa ainda em 1978, tendo gravado seu primeiro disco, “Anjo da Guarda”, em 1981. Variações conseguiu razoável fama no circuito underground português, até que, ao editar seu segundo LP, “Dar e Receber”, em 1984, foi hospitalizado para tratamento de sua doença, de onde não mais sairia. Conseguiria sair e fazer uma única apresentação na TV e um show para promover o segundo disco, sendo novamente hospitalizado em seguida . “Canção do Engate”, faixa de trabalho deste LP, viria a ser regravada pelos Delfins, um dos grupos mais importantes da cena pop portuguesa. O impacto da obra de António Variações seria sentido até no Brasil, através da sua influência em trabalhos como “V” e “As Quatro Estações” da banda Legião Urbana.
Passadas duas décadas de sua morte, uma fita doméstica com gravações do que seria o repertório de seu terceiro disco foi encontrada por amigos do artista. Imediatamente, sete músicos da nova cena portuguesa, entre eles o brilhante David Fonseca, se reuniram para gravar o disco “Humanos”, do grupo homônimo formado por eles especialmente para prestar homenagens ao músico.

Em entrevista dada pouco antes do seu falecimento, António Variações explicava a origem de seu estranho pseudônimo: “-Variações é uma palavra que sugere elasticidade e liberdade. E é exatamente isto que sou e faço no campo da música. Não sou limitado, não me prendo a um único estilo. Sou heterogêneo”.
Para marcar os 30 anos de seu falecimento, em 2014, a EMI-Valentim de Carvalho, sua gravadora, lançou o caprichoso CD duplo “A história de Antônio Variações”, um cartão de visita obrigatório a sua obra e um prato fino para quem gosta de boa música, com belas harmonias e letras intensas. António Variações vive hoje na memória cultura de seu país e não há melhor introdução para o universo pop de Portugal do que conhecer o seu trabalho. Como diz sua música mais conhecida: Conhecer a sua orbe é uma verdadeira “aventura dos sentidos”. Toca Variações!
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