A minha vocação para o comércio veio dos tempos da pré-puberdade. Um certo dia encontrei pela rua uma caixa de madeira que embalaria uma peça muito grande, provavelmente um motor de caminhão. Levei para casa, fiz algumas adaptações e transformei em uma banca de doces. Montei o meu pequeno negócio na garagem de casa e, para desespero de minha mãe, a coisa só fazia progredir.

Os anos se passaram e estamos em 1989. Eu, com um filho recém-nascido, trabalhando em uma agência de publicidade, ganhando muito mal e com um dinheiro guardado na poupança sem saber muito bem o que fazer com ele. Pensava em abrir uma banca de revistas, mas não tomava coragem para iniciar o processo. Resolvi pedir demissão da agência e continuar fazendo os meus “frilas” em casa, até que algo melhor aparecesse.
Morando em Feira de Santana e trabalhando para jornais de Salvador, era obrigado a ir, pelo menos uma vez por semana, até a capital para entregar os trabalhos. A carona de um amigo, que viajava para lá todas as terças, foi providencial. Passava o dia ouvindo o bom rock das suas fitas cassetes e fazendo turismo por Salvador, o acompanhando em suas entregas. No final da tarde, visitava meu editor, entregava os textos, recebia novas pautas e voltava para casa. Foi nestas viagens, entre uma canção de Roy Orbison e outra de Jerry Lee Lewis, que a ideia de montar uma loja de discos tomou forma.
Nestas viagens a Soterópolis, visitávamos as lojas de discos da capital, atrás de novidades e promoções. Frequentávamos desde as grandes lojas de shopping até os mafuás menos recomendáveis. Voltávamos carregados de novidades e raridades em vinil e algumas até mesmo em CD. Foi então que percebemos que, em Feira, não havia uma loja de discos como as de Salvador. Por outro lado, vivíamos o “boom” dos compact discs e tínhamos muita vontade de trocar nossos títulos em LP pelas bolachinhas de prata. Juntamos a fome à vontade de comer e demos início ao processo de montar uma loja especializada em rock e “música de qualidade” em plena Princesa do Sertão.
Encontramos um ponto barato, mandamos fazer os móveis e começamos a catalogar os itens de nossas coleções que disponibilizaríamos para venda. Da minha coleção, de cerca de 2.700 discos, foi embora absolutamente tudo. Tinha pavor àquela chiadeira do LP e o CD caiu como uma luva para mim. Já comprava CDs fazia algum tempo, mais ainda mantinha os LPs dos títulos que adquiria em laser. Com a loja, veio a desculpa perfeita para me desfazer deles.
O meu sócio tinha uma coleção de discos infinitamente maior que a minha e não foi difícil para ele parear uma quantidade de discos equivalente. Assim, demos o passo inicial de nossa loja de discos. Enquanto não ficava pronta, fomos comprando discos em promoção nas lojas de Salvador para complementar o estoque.
O nome da loja não foi um grande problema. Sugeri Muzak e o meu sócio aceitou de primeira. Muzak é o nome de uma empresa norte-americana que criava “versões para elevadores” de sucessos do momento. A ideia era gravar versões bem limpinhas e tranquilas dos hits de artistas famosos para que servissem de música ambiente nos elevadores. Com o tempo, Muzak virou sinônimo de música domesticada e descartável, feita para agradar o ouvido do consumidor médio. Como a loja surgiu justamente focada em um público supostamente de exigência e nível cultural mais elevado, ter o nome de Muzak soava como uma terrível ironia.
Não que as pessoas "de nível cultural mais elevado" que frequentavam a loja se dessem conta disto. A imensa maioria acreditava que Muzak era o meu sobrenome. Por alguns anos fui conhecido como "Renato Muzak", o que, aliás, não seria um nome artístico tão ruim assim. (continua).
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