Algumas pessoas que eu conheço hoje se lembram muito bem de mim os atendendo na Muzak mas eu, sinceramente, não me lembro delas indo lá. Afinal, eram muitos clientes e alguns entravam mudos e saiam calados, o que dificultava a memorização. Os atendentes da loja conheciam um pouco do que estavam vendendo e tinham aquela arrogância típica dos vendedores especializados, então, não era raro que, volta e meia, algum cliente fosse vítima da mais dissimulada trollagem ou zoação, como se diz hoje.

Fazer uma loja voltada para um público mais elitista intelectualmente falando tinha seus percalços. Um era a cobrança absurda de que a Muzak deveria ter algum tipo de compromisso ideológico-social. Na cabeça de alguns clientes, a loja era uma espécie de ONG sem fins lucrativos, sendo que eu jamais incentivei qualquer pensamento deste tipo. Certa vez, adquirimos uma coleção completíssima de heavy metal de um ex-headbanger recentemente convertido ao evangelho. Os discos eram um primor: capas novíssimas, discos idem, mas o dono tinha a mania de colocar a sua assinatura nas capas. E a assinatura não era pequena, não havia etiqueta que as cobrisse. Já estávamos desistindo da compra quando me veio a ideia: Revendê-los, um a um, com uma margem menor em relação ao preço que negociamos no atacado.
Compramos as 450 peças, colocamos em caixas de papelão, anunciamos o preço mais baixo e esperamos o resultado. Com metaleiros em êxtase disputando os discos a tapas, em menos de 24 horas todos os títulos foram vendidos. Mas, ainda assim, houve quem achasse que eu vendi os discos caros demais. Afinal, eu tinha que colaborar com a cena, com o movimento ou que quer que fosse. Ganhei fama de mercenário em alguns setores mais radicais da Metal-land.
Havia figuras impagáveis que frequentavam a Muzak. Um deles costumava nos visitar sempre com um tijolo prensado de maconha debaixo do braço. Dizia que era para uso, mas nunca acreditamos muito na história. (Nota posterior: Este cliente, ao ler este texto, me procurou para dizer que era rapadura o que ele levava com ele e que dizia que era maconha para nos "trollar" Foi a vez da caça...(risos) Outra figuraça era um rapaz negro, de nome bastante incomum, que era conhecido pela sua capacidade de contar mentiras facilmente descobertas. Usava um celular daqueles modelo “tijolão” quando ainda não haviam redes de celular disponíveis na cidade. Travava altos papos com ninguém, apenas para impressionar os incautos. Também afirmava ter ido aos Estados Unidos e assistido um show de Louis Armstrong. Sim, aquele músico de jazz de voz inconfundível, falecido em 1970, muito antes do rapaz nascer, quando eu mesmo não tinha quatro anos completos.
Muito antes de Marty Friedman, ex-guitarrista do Megadeth, tocar na cidade baiana de Serrinha, algo que jamais seria capaz de imaginar em minhas trolagens mais absurdas com clientes, disse a um deles, certa vez, que Dave Mustaine, vocalista do mesmo grupo, estava na cidade. Fã do Sepultura e de heavy metal em geral, o pobre coitado se debandou para o hotel Pousada, na periferia da cidade, onde eu disse que o músico estaria. Chegou esbaforido na recepção e pediu para falar com “Mr. Mustaine”. Um outro cliente trabalhava na recepção do hotel o atendeu e confirmou a história.
A Muzak começou a morrer no final de 1990, quando eu e meu sócio começamos a nos desentender profissionalmente Basicamente eu queria que a loja se tornasse mais comercial e ele preferia manter o perfil um tanto elitista do estabelecimento. Então sai da sociedade e abri uma outra loja, a Plug Laser. A Muzak ainda permaneceria um tempo ativa para acabar algum tempo depois.
Inicialmente uma loja de acessórios - daí o nome Plug - a nova loja ganhou o complemento Laser dado pelos próprios clientes que a apelidaram assim. A Plug Laser era uma loja bem mais aberta a outros estilos, mais popular, sem jamais ter perdido o foco na chamada “boa música”. Mas esta já é uma outra história.
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