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O culto à bolacha preta.

E u não sou saudosista. Sinto muito. Não troco minha câmera fotográfica de 13 mega-pixels, embutida no meu smartphone , por uma câmera digital comum com a mesma configuração, quanto mais por uma daquelas tranqueiras analógicas nas quais se colocavam rolos de filmes e as fotos só eram visualizadas quando eram reveladas.  Da mesma forma, não trocarei jamais meus arquivos flac e ogg dos meus discos preferidos,  - todos catalogados e salvos em meus dois PCs, o de casa e o do trabalho, em dois HDs externos, e muito bem guardados em nuvem, para a eventualidade de serem perdidos - por um arquivo jurássico de mp3  em 128kps , quanto mais por CDs e LPs. R espeito imensamente quem pensa diferente de mim e prefere acumular pedaços de acrílico e vinil em casa a ter seus arquivos de música à mão, seja no carro, casa ou trabalho. Aliás, de fato, uma escolha não inviabiliza a outra. É perfeitamente possível conjugar as duas possibilidades. O audiófilo Ed Motta...

Morena Penha.

E u era realmente fissurado naquela japonesa.  Japonesa brasileira, na verdade. Uma linda nissei, filha mais velha de imigrantes que vieram para o Brasil após o fim da segunda guerra mundial. Magrinha, pinta no canto da boca, cabelo espetado e pose de roqueira. Era metida a radialista e apresentava um programa meio mambembe em uma rádio local.  U sava óculos de grau moderado que a deixava ainda mais charmosa e, enfim, aquela "japa", definitivamente, era quem eu gostaria que fosse a minha Yoko Ono, ainda que ela estivesse mais para May Pang, a belíssima amante nipônica que Lennon arranjou no seu famoso "lost weekend", um breve período de férias conjugais pelo qual o músico passou nos anos 70.   E la era irmã de um dos meus colegas da escola e, pelo menos, uns cinco anos mais velha que eu. Eu ainda brigava com os meus quatorze anos e ela já exalava a jovialidade adulta de quem aguardava ansiosamente adentrar os vinte. A voz...A voz era um quesito à parte. Afi...

KEITH EMERSON: UM HERÓI IMPROVÁVEL.

O ntem,  voltei do trabalho ouvindo Emerson, Lake & Palmer no som do carro e me senti, repentinamente, triste. Na verdade, nem foi tão repentinamente assim. Passei o dia meio angustiado, reflexivo sobre as cinco décadas quase completas de idade que já se avistavam ao longe no horizonte. Mas foi quando tocaram os primeiros acordes de Take a Peeble , segunda faixa do maravilhoso primeiro disco do trio, ainda de 1970, que eu senti, de fato, a tristeza tomar conta de mim. Ainda não sabia que o líder da banda havia acabado de falecer. A lguns de meus maiores heróis - heróis de um homem sem heróis - se foram do planeta Terra em torno dos 50 anos de idade. Robert Palmer, Dee Dee, Joey e Johnny Ramone, além de Joe Strummer . E a chegada das tais cinco décadas de vida começa a me meter algum medo. Medo, nem tanto de morrer, mas de ir embora sem poder dizer que tenha sido plenamente feliz e realizado. Felicidade é uma experiência um tanto recente em minha vida e eu gostaria de...

Um disco por ano de vida: "Ramones" - Ramones (1976) - Parte II

Q uem quiser mesmo ter uma "experiência acústica", que vá ouvir o "Dark Side Of The Moon" do Pink Floyd . No disco de estreia dos Ramones , só há espaço para o barulho, a provocação e a velocidade. São faixas curtíssimas, praticamente emendadas umas às outras, todas muito rápidas e sem firulas.  N ão há espaço aqui para floreios de baixo ou solos de guitarra. O álbum chegou a estar entre os 120 discos mais vendidos no mês de lançamento e só. Dali em diante, Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy  inciariam uma "conquista da América" que nunca acabou acontecendo de verdade. Mas inventaram, para sempre, o tal do punk rock. O lado A começa com a clássica "Blitzkrieg Bop", que lançou o famoso grito de guerra "Hey! Ho! Let's Go!".  Dois minutos e quatorze segundos depois é a vez de "Beat On The Brat", um pouquinho de nada mais longa e igualmente acelerada. "Judy Is a Punk" tem apenas 1:32 de duração e mantém o pique...

Um disco por ano de vida: "Ramones" - Ramones (1976) - Parte I

A primeira vez em que eu ouvi falar dos Ramones foi em uma resenha da revista Veja para o disco End Of The Century , que havia acabado de ser lançado no Brasil. A revista comemorava o primeiro lançamento nacional da banda e os rotulava como "punks de histórias em quadrinhos", rasgando-se em elogios. Eu fiquei fascinado, do "baixo" dos meus 13 anos, e louco para ouvir aquilo. Não havia You Tube, Soulseek ou facebook e eu tive que esperar mais um pouco. F oi no Rock Special , o lendário programa de Marcelo Nova na Aratu FM , que eu, finalmente, pude, também, ouvir os Ramones . Nova tocou Chinese Rocks, Let´s Go e Do You Remember Rock And Roll Radio , exatamente nesta ordem. Em uma das minhas viagens a Salvador , passeando pela Barra , me deparei com o disco exposto em uma pequena loja. Voltei em casa, infernizei minha mãe para me dar o dinheiro e, finalmente, eu tinha um disco dos Ramones para chamar de meu. N a casa de um amigo, ouvi o P...

Mudança de comportamento - As bandas que mudaram de estilo - Parte II

I maginem um grupo de música negra, de funk e famoso, como por exemplo, o  Kool & The Gang,   que resolve mudar a direção musical  sei lá, para a bossa-nova ou para o reggae. Ou um grupo de reggae se transmutando, quem sabe,  em uma banda de funk. Pois é, é quase impossível que algo assim aconteça. A não ser que a banda em questão seja uma banda de rock.  Aí, tudo é possível e só o céu é o limite para tanta indecisão. Sou  gótico  ou sou  headbanger ? Punk ou  bossa-novista ? Sou  new-waver  ou  salseiro de quinta ? É sobre as mudanças "inacreditáveis" que algumas de nossas mais prestigiosas bandas já passaram , que vamos tratar aqui. HOT SPACE - Queen (1982) - O Queen era a banda mais previsível do mundo em seus primeiros discos. Em um certo momento, resolveu misturar seu hard rock semi-progressivo com ópera até que no alvorecer da década de 80, lançou o primoroso e pop The Game , com funk ( Another One Bites...

Dos arquivos empoeirados: Starz, a banda que fundiu o metal ao powerpop.

H á alguma coisa de muito estranha na água do estado norte-americano de New Jersey , vizinho à cidade de Nova Iorque, que faz com que as bandas de lá, por mais pop que eventualmente queiram parecer, sempre descambam, de alguma forma, para o metal. Skid Row, Bon Jovi, Overkill. Trixter, Monster Magnet e muitas outras surgiram naquele que é o estado mais urbanizado dos Estados Unidos. E m 1972, New Jersey dava ao país um hit single que chegou facilmente ao primeiro lugar das paradas. Quem ligasse a TV sem volume e se deparasse com aqueles cinco cabeludos, jamais poderia imaginar que o que estava saindo dos altos falantes era uma melodiosa canção pop. A banda era o Looking Glass e o tal hit era a canção "Brandy (You're a Fine Girl"). A faixa, apesar do sucesso local, não valia mesmo muita coisa e a banda, que valia ainda menos, acabou com a saída do vocalista Elliot Lurie. O s três membros restantes, Larry Gonsky, Pieter Sweval e Joe X recrutaram o vocalista ...