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Um disco por ano de vida: "Ramones" - Ramones (1976) - Parte II

Quem quiser mesmo ter uma "experiência acústica", que vá ouvir o "Dark Side Of The Moon" do Pink Floyd. No disco de estreia dos Ramones, só há espaço para o barulho, a provocação e a velocidade. São faixas curtíssimas, praticamente emendadas umas às outras, todas muito rápidas e sem firulas. 

Não há espaço aqui para floreios de baixo ou solos de guitarra. O álbum chegou a estar entre os 120 discos mais vendidos no mês de lançamento e só. Dali em diante, Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy inciariam uma "conquista da América" que nunca acabou acontecendo de verdade. Mas inventaram, para sempre, o tal do punk rock.

O lado A começa com a clássica "Blitzkrieg Bop", que lançou o famoso grito de guerra "Hey! Ho! Let's Go!".  Dois minutos e quatorze segundos depois é a vez de "Beat On The Brat", um pouquinho de nada mais longa e igualmente acelerada. "Judy Is a Punk" tem apenas 1:32 de duração e mantém o pique vigoroso do disco até aqui. "I Wanna Be Your Boyfriend" é assobiável e preparada para tocar no rádio, dando uma refrescada na barulheira, apenas para desaguar em "Chainsaw", o primeiro momento realmente fraco do disco. "Now I Wanna Sniff Some Glue" e "I Don't Want To Go To The Basement" são corretas e vibrantes e encerram a primeira parte sem deixar a peteca cair.

"Loudmouth" abre o lado B sem mudar em nada o esquema "dois miinutos de ruído intenso" que permeia todo o LP. "Havana Affair" é uma tentativa de posicionamento político que soa um tanto infantil em um álbum assumidamente infanto-juvenil. Nada demais. Faltou inspiração em "Listen To My Heart", mas a banda se recupera na cáustica  "53rd & 3rd". 

"Let's Dance" é uma cover bacana do artista sessentista Chris Montez. Ter uma cover em cada disco se tornaria uma espécie de marca registrada dos Ramones até o início dos anos 80. "I Don't Want To Walk Around With You" é outra canção apenas correta, porém "Today Your Love, Tomorrow The World" encerra com muita energia este primeiro trabalho. Neste primeiro momento, fica claro que o grande compositor da banda é mesmo o baixista Dee Dee Ramone. Com o passar do tempo, ele seria destronado pelo vocalista Joey Ramone.

Ramones, o disco, é um daqueles álbuns que influenciaram muito mais outros músicos do que tiveram sucesso de público. Até hoje, ainda que seja uma espécie de pedra fundamental do punk rock, é um dos discos menos ouvidos da banda, embora sempre muito citado. Verdade, poderia ter sido melhor produzido, gravado com menos rapidez e mais tranquilidade . Conta a lenda que, ao passar pelo estúdio para ver como andava a gravação, o dono da Sire Records, Seymour Stein, se deparou com a banda sentada em um sofá, comendo pipoca e assistindo TV. Ao dar uma bronca, pois hora de estúdio era algo muito caro para ser desperdiçado, soube que os Ramones já haviam feito o trabalho sujo.

O disco de estreia dos Ramones se tornou um artefato urgente. Urgente como seriam os loucos anos seguintes, com a explosão do punk rock na Inglaterra e a música sendo revirada e posta de cabeça para baixo pela geração X. Ainda que deixe a dever a outros discos importantes do gênero, ainda que sequer seja o melhor disco dos Ramones, trata-se de um clássico absoluto. Mesmo que não seja ouvido com a frequência que merecia, alguém se dizer roqueiro e não ter este álbum na prateleira é parecido com ser cristão e não ter uma bíblia em casa. 


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