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O dia em que minha banda tocou com Alceu Valença.

O show iria acontecer em uma pousada, bem em frente à mítica casa de Alceu Valença em Olinda, Pernambuco. Era inauguração das novas instalações e o proprietário nos convidou, direto de Feira de Santana, na Bahia, para tocar no evento. Viajamos uma madrugada inteira de carro mal sabendo o que nos esperava. Logo cedo, na manhã de sábado, a simpática esposa do cantor vizinho já havia perguntado de onde era aquela banda que iria se apresentar e o que ela tocava. Atendendo a pedidos, ela confirmou a presença de Alceu que, da sua sacada, assistiria ao show literalmente de camarote.  O que ninguém esperava é que o próprio Alceu Valença descesse e viesse até o palco, após tocarmos  a canção Cometa Mambembe, do seu amigo feirense Carlos Pitta: - Vocês são de Feira de Santana? Ah, são da terra de Pitta... E então veio a pergunta: - Vocês tocam alguma música minha? O vocalista apontou para mim, o guitarrista, como se indicasse um culpado: - É ele...

"Como a música ficou grátis" - Stephen Witt (Resenha)

"Como a música ficou grátis", de Stephen Witt, apesar do tema interessante para quem lida com música pop, tinha tudo para ser um livro chato e maçante de ler. A princípio - e apenas a princípio -  a história do processo que levou à  gratuidade da música através dos downloads ilegais não seria exatamente o assunto mais profundo e complexo da face da Terra, capaz de fazer o leitor se debruçar sobre 271 páginas de um livro. Ainda mais que Witt conta esta história narrando as aventuras e desventuras de apenas três personagens:  Um funcionário de uma fábrica de cds nos Estados Unidos, chamado  Dell Glover - que teria sido o primeiro "pirateiro" da história, ou o "paciente zero" da pirataria, como Witt o chama -, um magnata da indústria fonográfica, o lendário executivo Doug Morris e os engenheiros alemães inventores da mp3. O livro toma a forma de um romance, intercalando as três histórias em capítulos, deixando "ganchos" irresistíveis, com...

"1001 Discos para ouvir antes de morrer" - Vários autores (Resenha)

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer", um calhamaço de quase 2 kg de peso e  que poderia ser uma espécie de bíblia da música pop, definitivamente, não cumpre o que promete. Mais do que um punhado de resenhas sobre discos que deveriam ser ou soar essenciais, reúne-se no tomo um coletivo de álbuns cujo critério mais parece político do que absolutamente artístico. Se o livro se chamasse algo como "1001 dos discos mais importantes da música pop" ou coisa assim, não haveria o menor problema, mas o diabo é a pretensão de agrupar tantos discos que, a princípio, deveriam ser tão deliciosos como um sorvete em um dia de calor ou indispensáveis como o ar que se respira. E é neste ponto que o livrão falha miseravelmente. Não que a publicação em si seja dispensável ou supérflua. Não é. Pelo contrário. Impressa em papel de excelente qualidade, bem encadernada e, principalmente, barata, "1001 discos para ouvir antes de morrer" é um perfeito livro de consult...

Bons discos para aumentar sua cultura musical - Pt. II

14º Andar -  Diversão do Novo Mundo (1985)  - A banda baiana 14º Andar surgiu no rastro do sucesso de outra famosa banda local, o Camisa de Vênus. Ainda com o nome de Delirium Tremens e uma orientação mais para o punk rock, o trio era uma espécie de The Jam do rock local. Indicados por Marcelo Nova para a gravadora RGE, tiveram a má sorte de terem como produtor ninguém menos que Mister Sam, ou Santiago Malnatti, um dj argentino responsável pelo sucesso de Gretchen, Nahim e outros artistas "pouco recomendáveis". Inexperientes, se entregaram de corpo e alma à sanha do portenho maluco e o resultado foi um álbum equivocado, cheio de excelentes composições mas muito limpo, com guitarras burocraticamente distorcidas e arranjos nem sempre felizes. Até Silvinha , mulher do eterno "o bom" Eduardo Araújo, e à época contratada da gravadora, foi chamada para fazer um estranho e delicioso backing vocal na faixa "A Dança dos Políticos", que se pretendia (e conseg...

Bons discos para aumentar a sua cultura musical Pt. I

DOUBLE EXPOSURE - Television (1978)  - Se alguém te perguntar qual foi o primeiro disco do grupo nova-iorquino Television, você vai dizer sem titubear que foi o fracasso de vendas/sucesso de crítica  Marquee Moon  lançado em 77, certo? Bem, você está absolutamente certo.  Marquee Moon  foi mesmo o primeiro lançamento da banda, que foi do nada para lugar nenhum em sua curta existência, mas conseguiu influenciar uma série de bandas que vieram bem depois. S ó que antes havia uma fita cassete que costumava circular por Nova-Iorque de forma doméstica, contendo algumas demos e gravações ao vivo feitas naquele clube, você sabe qual, onde onze de cada dez bandas daquela época se apresentavam. Diz a lenda que um traficante amigo da rapaziada era tão fã do grupo que chegou a prensar algumas cópias do trabalho em vinil. De concreto, só o fato que, em 1978, após o lançamento do primeiro disco oficial, um pequeno selo local conseguiu direitos legais sobre o material e ac...

Disco do Ano - Bruce Springsteen - The River (1980)

"- I sto é brega americano!". F oi assim, em poucas palavras, que um amigo fulminou todo o meu entusiasmo ao apresentar-lhe o álbum duplo daquele cantor magricela e de voz rouca, recheado de  rockões  e baladas, como, aliás deveria ser todo bom disco de rock.  E , de fato, ele estava certo. A faixa que o fez decretar a pieguice explícita daquele par de LPs, e que batiza o disco, "The River", tinha mesmo um ar melancólico e triste, típico das nossas baladas românticas mais populares. A minha "vingança", por assim dizer, é que aquelas canções do primeiro disco de Bruce Springsteen que ouvimos nas nossas vidas, ficariam em sua memória afetiva até os dias de hoje. E na minha também. C orria o ano de 1981 e ainda faltavam, pelo menos, cinco anos para que Springsteen se destacasse entre os  screamers  do projeto  We Are The World  e alcançasse alguma relevância em  terra-brasilis . Mais um ano e as meninas já estariam molhando as calcinhas por ...

Disco do Ano - Ramones - Pleasant Dreams (1981)

A  acusação mais grave que pesa sobre  Pleasant Dreams , o sexto disco de estúdio dos  Ramones , lançado em 1981, é que o instrumental não teria sido gravado pelo grupo, tendo o produtor  Graham Gouldman  os substituído por músicos de estúdio.  Outras acusações se seguiriam, como a de que a banda, finalmente, teria se vendido, buscando uma sonoridade mais "comercial" e mais pop. S e a primeira  queixa não é absolutamente verdadeira - em sua biografia,  Marky Ramone  desmente e garante que, apesar da contribuição de um músico de estúdio aqui e ali, foram os próprios  Ramones  que executaram todas as canções - a segunda se mostra profundamente real. Cansados de não venderem discos, embora tivessem prestígio e credibilidade, desde o disco anterior, "End Of The Century", os Ramones buscavam uma aproximação com a "new wave". Para burilar a nova sonoridade pop dos quatro punks, a gravadora teria convocado ninguém menos que Phil S...