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EDUCAÇÃO ARTÍSTICA - R.E.M. E THE 101'ERS.

THE 101'ERS - "Elgin Avenue Breakdown" (1981) - A banda em que Joe Strummer iniciou a carreira é um mito. Mas a lenda só se justifica em parteQuando quase saiu a primeira biografia do The Clash no Brasil, foi em uma edição extra "histórica" da juriássica revista de música Somtrês com as 10 maiores bandas de rock de todos os tempos. O Clash foi  expulso aos 44 do segundo tempo apesar do baixista Paul Simonon aparecer na capa. Muito antes de qualquer explosão de consumo de música rock no país, quando roqueiro ainda era sinônimo de vagabundo,  a revista apostava na nova onda que se formava no exterior e editaria o compêndio em formato de revista com uma saudosa fita da marca Maxwell (uma absoluta raridade à época) como brinde.

A fita serviria para gravar momentos preciosos do programa Rock Special que um ainda neófito Marcelo Nova apresentava em uma emissora de rádio local. Algumas das gravações constantes na fita eram de artistas que apareciam na relação criada pelos autores José Emílio Rondeau e Ana Maria Bahiana e uma delas era o The Clash. Mesmo confundindo Paul Simonon com Sid Vicious nas fotos ilustrativas, a dupla de jornalistas me apresentou, verbalmente falando, ao 101'ers, a banda de onde sairia Joe Strummer para formar o The Clash com Simonon e Mick Jones.

Desde então, ouvir os 101'ers (ou dizer que já ouviu) era uma emoção para poucos. Uns juravam que era muito mais punk que o próprio Clash. Outros diziam que eram uma banda de covers de rock clássico. Os primeiros estavam errados, pois a fúria de canções como White Riot e Carreer Oportunities não seria repetida nem mesmo pelo Clash, muito menos antecipada pelos 101'ers. Os segundos erraram por pouco. A banda de covers era o Vultures, que, ora bolas, vem a ser a primeira encarnação dos próprios 101'ers. No disco Elgin Avenue Breakdown, uma compilação caça-níquéis de singles e raridades do grupo, eles comparecem tocando competentemente clássicos como Shake Your Hips e Too Much Monkey Business em qualidade precária, típica das gravações "históricas".

O restante do disco - e é aí que se encontram as verdadeiras raridades - mostra uma banda de rock clássico, é verdade, mas autoral e com um punch que o Clash só viria a encontrar lá pelo quarto álbum, o visceral Sandinista. Curiosamente é neste disco que os Clashers regravam Junco Partner, um rock-steady enviezado registrado originalmente pelos 101'ers.


R.E.M. - "Dead Letter Office" (1987) - Quando o REM soltou esta coletânea de B-sides de singles, faixas abandonadas e até mesmo simples brincadeiras de estúdio, vinha de um álbum (Life's Reach Pageant, de 86) onde praticamente dava adeus ao rótulo de 'banda independente'. O trabalho seguinte, "Document", apesar de quase idêntico ao anterior, já dava indícios que o grupo caminhava lentamente rumo ao mainstream. Então, o lançamento deste disco, Dead Letter Office - que é considerado esquisitíssimo pelos fãs atuais - entre estes dois álbuns, não foi, absolutamente, um mero acaso. Era um presente de despedida para os antigos fãs, que brevemente ficariam órfãos da originalidade e irreverência da banda americana em troca de um som mais lírico e doce.

A ideia de coletâneas especiais, sejam elas de lados B ou covers, ou até mesmo outtakes, por si só já garante um trabalho no mínimo interessante. No caso de Dead Letter Office temos um conjunto destas três coisas. Entre as covers, a excelente King Of The Road do "Wild Child" Roger Miller e a descomunal Toys In The Attic do Aerosmith se destacam, embora o grupo americano Pylon esteja muito bem representado com uma corretíssima versão de Crazy e o Velvet Underground mereça nada menos que três covers, que superam com vantagem os originais, Femme Fatale,Pale Blue Eyes e a sublime There She Goes Again, onde a chupada de Hitch-Hike, clássico de Marvin Gaye - brilhantemente plagiado por Lou Reed -  ficou ainda mais evidente.

As faixas são entupidas de ruído e toda sorte de imperfeições mas e daí? Vale aqui a irreverência, o frescor, a espontaneidade de uma banda honesta capturada a um passo da fama mundial, tocando canções da forma mais honesta possível para uma audiência idem. O título do álbum diz respeito à sala das agências de correios norte-americanas onde são guardadas as cartas que não puderam ser entregues aos destinatários. O disco não é mais nem menos que isso: um amontoado de cartas perdidas que, para nossa sorte, foram "achadas" em um lp tosco e maravilhoso. O REM bem que podia repetir a dose.

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